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Be Kind Rewind de Michel Gondry

ou Uma ficção é uma ficção que é uma realidade

Be kind rewind não trata unicamente de uma desmistificação do fazer cinematográfico, mas também de um jogo convulso entre mistificação do espectador por si mesmo e desmistificação da realidade como matéria rebobinável.

    Ao começarem a fazer suas próprias versões dos filmes de Hollywood, Jerry e Mike acabam por trazer a interatividade aos espectadores. Estes que já participavam dos filmes a partir de suas próprias interpretações da trama, passam a não só ditarem que filmes passarão pela transformação da dupla, mas também atuam nos mesmos, possibilitando sua realização. O consumidor atinge o ápice de sua ocupação, não só decide que produto sobreviverá, mas também trabalha para mantê-lo, tomando em suas mãos pela primeira vez seu poder de consumo. Assim, o Robocop deixa de ser uma criatura mitológica das telas, com pessoas distantes em uma cidade distante, e passa a ser aquele cara gordo que você vê andando por aí umas três vezes por semana, lutando contra o crime, naquela rua onde você faz as suas compras.

    Os espectadores deixam de ser as crianças ais quais os produtores de um Olimpo distante ditam os gostos, e passam a ser esses produtores. Não só são agora produtores de suas vidas, mas também de seu entretenimento. Como um dos personagens do filme comenta, as novas versões dos filmes são muito mais divertidas. E isso não porque estas deixem de ser em si distantes, já que aquilo ainda não passa de uma ficção, mas porque se tornam uma distância pessoal, participativa. Mas o que é a realidade se não essa distância pessoal?

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças de Michel Gondry

ou Brilho Eterno de uma Memória sem Pontas

Joel acorda. Acorda para perceber o mundo, pondo em movimento um constante ato de contemplação, que é em si esta própria contemplação do plano de sua representação do mundo ao qual habita, somada a sua ação perante a este. Acorda e começa o seu dia, percebendo as coisas ao seu redor, que são apenas, para si, para sua apreensão destas, imagens que representam as coisas em si. Imagens que são menos que estas próprias coisas, mas que são mais que as representações apreendidas por Joel. Pois ele, na sua percepção consciente, só percebe o que quer, o que está acostumado a perceber. Sua percepção se limita a uma pobreza necessária, não pode captar todos os detalhes das imagens a ele oferecida. Nota o amassado do carro, nota as folhas faltando do caderno, nota específicos, não a imagem completa, sua memória habitual não procura registrar mais que isso, sua percepção, no seu movimento de contemplação, subtrai todo o desnecessário. Assim, seguindo os movimentos de sua memória habitual, repetindo as suas tarefas diárias, se arruma e vai para o trabalho. Porém, na estação, na representação desta apreendida por ele, aflui-lhe, inesperadamente, subindo a partir do seu inconsciente, uma fatia de memória pura, fatia ascendida pela contemplação desta estação, que interagindo com sua percepção em movimento, o faz pegar outro trem, um para a praia.