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sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Blade Runner de Ridley Scott

ou
Como parei de me preocupar
e aprendi que uma Ficção é uma Ficção que é um Documentário


Terra. Los Angeles. Novembro, 2018. Zona do passado, de ruas cheias, sujas, pintadas em néon, dominadas pelos exilados do presente, imigrantes, indigentes, doentes, empilhados entre gigantescos arranha-céus abandonados, vazios.

Que venha o super-homem! Mais forte, mais ágil, com seus olhos reluzentes, filho do homem. Que venha cegar seu pai, Édipo, que dormiu com a própria mãe, a natureza, mas só lhe deu quatro anos de vida, para serem vividos ao máximo, porém a desaparecerem como lágrimas na chuva. Que venha e veja a cidade com seu céu em chamas!

Quando a humanidade foge para o novo oeste, para o novo presente, deixa para trás seus filhos a nadarem na nostalgia de fotos em preto e branco, num passado inexistente, a gritar por um futuro que nunca virá. O super-homem nasce, mas nas mãos do homem, vira um produto, vira seu soldado, seu assassino, seu operário, sua prostituta. “Enjoy... Enjoy Coca-cola!”

Blade Runner é um documentário do diretor Ridley Scott, baseado na obra Do Androids Dream of Eletric Sheep? do escritor Philip K. Dick. Um documentário? Sim, pois narra uma história de forma realista a partir de um certo ponto de vista. Um filme que tem como único objetivo documentar uma narração ficcional. Documentando-nos alguns dias na vida de um caçador de andróides no ano 2018, a partir, é claro, do ponto de vista do escritor Philip K. Dick e do diretor Ridley Scott.

Segunda Guerra Mundial. Entrevistemos um soldado alemão, ou um soldado americano, ou um sobrevivente de um campo de concentração, o que teremos? A realidade? Não, pois o real não é composto meramente de uma narração de eventos sob um específico ponto de vista. Todo o narrado, não importa o quê, será meramente uma ficção, um produto de um certo ponto de vista do seu narrador, construído a partir de uma específica linguagem, sua memória, que nunca pode chegar a domar totalmente a realidade, nem sequer ser depois traduzida para outros meios definitivos, que a tenham tentado documentar. Mas, e um vídeo, uma gravação original dos campos de batalha, pode registrar o real? Não, pode registrar uma imagem, uma imagem a vinte e quatro quadros por segundo, um mera sombra do real, um documentário a ser ficcionalizado por seus espectadores, que a interpretarão de formas múltiplas, nunca entrando em contato com a realidade da situação.

Nunca poderá a realidade ser registrada, sua aura sempre nos será uma ficção distante, inatingível, uma nostalgia a nunca nos recompensar com a verdade, a viver unicamente nos sonhos eletrônicos de Proust. Pode mais um Spielberg com seu Saving Private Ryan chegar a guerra, as naves em chamas na constelação de Orion, que qualquer documentarista que se diz capturar o real, pois ele limita ao máximo seu âmbito de captura, registra uma missão, certos homens, por certos dias, por certos caminhos, por certos motivos, registrando ações e não narrações. Quem sabe, chegando até mais longe com Schindler’s List, em que tenta capturar não fatos, mas suas próprias emoções, sentimentos, sobre a guerra, podendo, assim, muito bem capturar uma parcela diminuta do real, sua própria, traduzindo-a com absoluto sucesso ao espectador, com sua menininha de vermelho dançando para o idoso de vinte e cinco anos.

Viver com medo é viver como um escravo, é viver sabendo que o presente logo deixará de ser, é viver unicamente com o constante suporte do passado, de fotos fabricadas que nunca guardarão a realidade, a esperar eternamente o galopante unicórnio de papel. O passado é a prisão dos sem presente, o refugo dos sem futuro. Registramos o que temos medo de perder. Assim, registramos a vida de um caçador de andróides no ano 2018, porque temos medo de perdê-lo, o super-homem de vida curta que se acredita homem, que faz o trabalho dos homens, e caça seus próprios irmãos, estes que não conseguem se cegar a verdade e, mais que tudo, querem viver, querem muito mais que só o passado.

Queremos um super-homem preso a imagens sem vida, se acreditando homem e friamente executando àqueles que gritam por um presente. À nós é vendida a prisão, e somos nós que a aceitamos sem um sequer questionar, é um triunfo da total falta de vontade, com belas coreografias em massa dirigidas por Leni Riefensthal. Enquanto a barba do judeu de Veit Harlan cresce na prisão, os dentes brancos de Kennedy fazem contraste ao suor transbordante de Nixon, o operário sem dedo chega a presidência, e nós, questionados pelo general, dizemos nossas procedências: Berlin, Nova York, Tókio, Rio de Janeiro, ... “Enjoy... Enjoy Coca-cola!”

Somos acordados pela manhã por dois replicantes, a nos acusarem de culpados, fingimos não saber o porquê, consideramos-nos presos num absurdo que não criamos, e sem coragem para encarar a verdade, a realidade, acabamos por cometer suicídio na fronteira franco-espanhola, murmurando num último suspiro “Rosebud, Rosebud, ...”.

Nunca entendemos o porquê do constantemente subir da ponte, sempre a voltar, a reiniciar no mesmo ponto do passado, carregando consigo, nossa última grande esperança, nosso pobre unicórnio de papel, reduzido então a uma carcaça morta.

O fascismo do passado impera, encontrando seu máximo afluente na mídia audiovisual. Somos agredidos diariamente por um eterno repetir, uma eterna nostalgia pelo que foi, e nunca pelo vir-a-ser. Resta-nos esperar a aposentadoria, beijar nossos pais, esmagar seus olhos, fingindo que destruindo um produtor de imagens, destruiremos todos. Por fim, resta-nos salvar o homem, contar-lhe nossos feitos completamente inimagináveis, para morrermos enquanto nossas lágrimas somem na eterna chuva. Enjoy...
Enjoy Coca-cola!

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