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quinta-feira, abril 01, 2010

Ganga Bruta de Humberto Mauro & Limite de Mário Peixoto

ou O inútil de cada filme

Ganga Bruta é um filme de 1933, dirigido por Humberto Mauro, sobre o cotidiano da vida de um homem da burguesia brasileira. Limite é um filme de 1930, dirigido por Mário Peixoto, sobre a inutilidade das ações humanas, sua eterna limitação.

Em contraste, cada um com sua originalidade respectiva: Ganga Bruta é uma criação intuitiva de um diretor experiente, Humberto Mauro - seu sétimo filme, com mais a vir -, uma narrativa derivada de influências tanto da ação clássica norte-americana, como da experimentação estética européia, baseada em um roteiro alheio e tendo como bases ideológicas os conceitos do produtor Adhemar Gonzaga; Limite é uma criação de extrema técnica de um diretor de filme único, Mário Peixoto, uma narrativa poética de influencias da vanguarda francesa e de pesquisas de montagem russas, baseada na limitação do próprio diretor.


Ganga Bruta narra o cotidiano de um homem da burguesia. Casa-se, descobre-se traído, mata a mulher, e julgado, é absolvido por ter agido pela honra, sai pela cidade, bate em todas as pessoas de um bar, conhece um casal de jovens, apaixona-se pela garota, luta contra o noivo, casa com a garota. Ocorrências do dia a dia!

Marcos é o homem do poder que tudo pode e tudo faz. Vemos seu casamento e o assassinato em cortes rápidos de teor gótico. Descobre que sua mais nova possessão é usada.  Mata-a. Cenas documentais, cortes para notícias em jornal. Porque pode, faz. Porque pode, não pode ser culpado. Absolvido, sai pela cidade. Porque pode, bate em todos que a ele se atrevem dirigir no bar. Porque Adhemar quer, o chefe ariano subjuga o escravo mestiço. Natureza, belo cenário, bela fotografia de Edgar Brasil. Vai para o interior, conhece Décio e Sônia, jovem casal ingênuo de noivos. Sônia, bela mulher, mentalmente retardada, com uma voz que faz ode a mudez no cinema. Sônia, novo objeto a ser possuído por Marcos. Seduz-na, com a facilidade de quem pode, e por detrás dos arbustos põe as máquinas para funcionar. Décio, impotente, mal consegue um beijo, nunca nem deve ter pensado no funcionamento das máquinas, chora na saia da mãe. Marcos e Décio lutam. Décio morre afogado. Marcos casa-se com Sônia, seu novo e belo objeto. Definitivamente, um clássico hilário!

Limite narra a condição de três pessoas num barco no meio do mar: perseverança falsa, indecisão certa e desistência absoluta. Os três, limitados pelas bordas do barco, cercados por um infinito mar, contam suas historias. A mulher foge da prisão. O homem perde a amada por doença. A outra mulher segue vida entediante e infeliz. Após a troca de traços do limitante passado, a tempestade se apresenta, pois só a tempestade há de se apresentar.

As três faces da mesma moeda: cara, coroa e contorno indistinto, se encontram a navegar sobre o fluido perene da existência, em que toda a ação é inútil, pois todo o propósito é inexistente. Com a moeda a girar, a luz é refletida sobre ela, dando a cada face a possibilidade de refletir um mísero fragmento do absoluto. A cara, a mulher, com seus grandes olhos a procurar, se encontra na prisão do real. Barras, grades muito concretas, o mato a crescer, a limitar-lhe qualquer ação. Mas é o real, uma real limitação, ou pode o carcereiro dar-lhe a oportunidade de fuga? A possibilidade de fuga se encontra na própria prisão, e após seu reconhecimento, nem as próprias mãos desta possibilidade, podem reter aquela que a reconhece. Mas avançando com a perseverança de quem vê a prisão do real a limitar e consegue desta se libertar, avança, então, para o quê? Reconhecer a próxima limitação, a limitação da própria existência A coroa, o homem apaixonado, que quer colocar um anel em seu dedo. Ama a amada e é amado por ela Porém, a amada é tomada pela doença, pela pestilência que contamina, que come a sua própria carne. O amor contamina e devora. O amor limita. O amor é uma criação daquele que contamina e devora. O homem, sozinho, após a amada ter sido devorada, após a origem da pestilência ter sido jogada em sua cara, reconhece a limitação deste amor, e, assim, foge, foge na indecisão da direção. Mas, sem este amor, sem esta sua própria criação, foge para o quê? Reconhecer a próxima limitação, a limitação da própria existência. Sobra o contorno da moeda, o pequeno e indistinto, que em seu giro, nunca vai mirar nem para frente, nem para trás. O contorno, a mulher que pouco vê. Vê o real, sua feiúra, o riso grotesco à frente de Chaplin, mas não vê as grades que a compõem. Vê o anel em sua mão, mas não vê amor, nem sabe que o pode criar. Presa numa eterna repetição, que nem gira como a roda do trem para a libertação, nem como a roda da bicicleta para a fuga, só gira como a roda de um carretel de linha numa máquina estéril, sobre uma mesa estática. Não há pergunta, a desistência é óbvia, só há a tempestade a esperar. E a tempestade se faz, e o barco arrasa. O suporte que os mantinha distintos perante o mar da existência não existe mais. A desistente se desfaz. O fugitivo mais uma vez cria esperança onde ela não se encontra, se afoga. Sobra a persistência, presa a um ultimo pedaço de madeira, com o sol na sua face. Sobreviverá? Faz alguma diferença? Provavelmente, não. Definitivamente, um filme profundo e detalhado, mas que faz dormir na primeira oportunidade, caso não se abandone a sessão primeiro.

Ganga Bruta e a obra conjunta de Humberto Mauro em geral é uma prova do atraso da cinematografia brasileira, pois não só supera a que a imediatamente a sucede, como também supera muitas das produções contemporâneas, revelando uma clara involução criativa.

Limite, por sua vez, é um fetiche. Não é um filme difícil, e sim, simples e entediante. Para algo ser difícil, é necessário primeiro haver um ponto natural de interesse, de descobrimento, a ser explorado. Um interesse, ao qual o objeto deva apontar, a guiar o seu explorador na dificuldade criada ao redor deste. Limite não oferece este interesse. Oferecendo, no máximo, o fetiche que é. Um fetiche que é a sua estrutura narrativa de planos longos, a esgotar a pouca ação que sequer tem. Um fetiche, por fim, que mais age como confirmação da funcionabilidade de estruturas opostas, que como objeto em si mesmo. A proposta de mostrar o inútil de cada ação humana, a auto-limitação de cada um, não necessita de tal estrutura para ser apresentada, e, ainda mais, é prejudicada por esta estrutura. Pois, ao espectador, caso este não crie interesse por pura excentricidade, nunca é oferecida uma razão para se importar, para não dormir ou ir embora. É o lento inútil e o mais inútil em fusões para o ainda mais inútil. É apontar o inútil através do próprio inútil é ridículo, pois a inutilidade do objeto se torna irreconhecível perdida na inutilidade da estrutura. Limite só tem a oferecer duas horas de pura limitação, somadas a mais algumas horas de contemplação a fetichistas entusiastas. Nota especial para a bela fotografia de Edgar Brasil. E nota aterradora para o uso de musica clássica como tema. Com a imagem pouco dizendo, a ação da música acaba por profundamente irritar.

Em contraste temático, pode-se dizer que Limite tem muito mais conteúdo, além de uma estrutura estética muito mais elaborada, mas isso não muda em nada o fato de ser intragável. Sendo, então, completamente inútil. Não é a arte pela arte, é o inútil pelo inútil. Porém, Ganga Bruta, apesar do entretenimento oferecido por suas belas imagens, a natureza e a atriz que deveria ter sido mantida muda, além do teor cômico, também neste esquema poderia ser considerado inútil. Mas talvez não, se comparado a maior inutilidade de muitas produções contemporâneas.
Humberto Mauro, por fim, é um exemplo de criador no cinema. Consciente da realidade em que se encontra, nada o impede de fazer seus filmes. Toma quantas posições forem necessárias na produção, não se prende a mitos da necessidade de gastos financeiros exorbitantes, mantendo sempre uma marca estética característica, sabe aprender e avançar.

Mario Peixoto é o completo oposto, que provavelmente nunca teria feito seu único filme, sequer realmente exibido para um publico de verdade, caso não tivesse fortuna própria para gastar desvairadamente. Sua criatividade não é natural. é mais um produto de um fanatismo cinéfilo e da leitura precisa de manuais gráficos alheios. Sem nenhum contato com a realidade, limitado no mundo de sua própria auto-limitação, cai perante qualquer empecilho do caminho e não completa mais nenhum filme.

O inútil de Ganga Bruta é o inútil de uma era, que nada diz respeito ao seu diretor. O inútil de limite é o inútil de Mário Peixoto, que só diz respeito aos amigos e entusiastas para quem ele mostrou o filme.

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Um comentário:

Clara Campos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.