Postagem em destaque

Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro: O traficante de Zô - Parte I

Bem-vindo a série de Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro. Começando com uma adaptação do Mágico de Oz. Obs.: Aviso para quem for fre...

terça-feira, junho 17, 2014

7 primeiros capítulos do livro Meu ano sem ela!

Chopadas, festas na Lapa, apartamentos estranhos, fetiches sexuais em salas de aula isoladas, coalas a baforar a fumaça de um charuto, noites alcoolizadas, perdidas, de êxtase, de esperança, de desespero. A descida de um universitário pelo submundo de festas, sexo e álcool do Rio de Janeiro, após o termino com sua namorada. Uma vida de promiscuidade, a qual se entrega, sem saber se realmente ali quer estar. 


Já à venda! 

Segue amostra com os 7 primeiros capítulos do livro.

1. Uma noite qualquer


Chupa-me descontroladamente, parece querer me engolir para dentro de si, enquanto eu me entrego a um misto de prazer e dor. Nunca fiz isso assim ao ar livre, especialmente contra uma parede na parte de trás isolada da faculdade. Não imaginei que a noite iria acabar deste jeito, fui àquela chopada por outras razões. Mas aqui estou, com esta garota, que conheci há apenas uma hora, ajoelhada à minha frente, me chupando como se esse fosse seu único motivo de existência. As coisas raramente acontecem na vida de forma planejada.

A chopada é de economia, a faculdade, a UFF, Universidade Federal Fluminense, na famigerada terra depois da poça, também conhecida como Niterói. Obviamente, não sou um aluno de economia - que tipo de pessoa seria isso? E obviamente ser da faculdade da chopada não importa a ninguém aqui, isso é uma chopada, só uma desculpa para todos de diferentes faculdades se encontrarem, se embebedarem e se pegarem sem muitas conseqüências – quase função primária de se estar numa faculdade. Chego cedo e o lugar ainda está meio vazio. Ocorre basicamente na área ao redor de um prédio velho do campus, um prédio construído antes dos grandes blocos de concreto frios que agora compõem a maioria da universidade, com um espaço à sua frente de jardins, onde as multidões logo poderão se aglomerar, se apertar, esmagando a grama e urinando nas árvores. Como é usual no começo de qualquer chopada, pequenos bolsões de pessoas se dividem entre o lugar. Não vejo ninguém que conheço, logo ligo para meus amigos. Todos ainda estão longe. Faço o que sempre faço em qualquer festa, me desloco até um desses círculos de pessoas, e começo a falar, perguntas básicas sobre o óbvio para me enturmar e passar o tempo até que alguém que eu conheça chegue. É um jogo de números, alguns já estão tão fechados nos seus clubinhos que olham estranho qualquer um que apareça, outros estão tão à procura de algum novo fator interessante em seu dia a dia que se abrem acolhedores para qualquer estranho.



Converso, converso, bebo, bebo, e logo o lugar está insuportavelmente cheio, um formigueiro, banhado de música ruim e álcool. Vários amigos chegam, e como nunca gostei de ficar parado no mesmo lugar, me desloco de um grupo para outro constantemente, me embrenhando pela massa, sempre olhando para todos os lados, sempre esperando ver alguém que não está lá. E aí no meio disso encontro um amigo meu, um amigo que também é amigo dela, o Carlos, é... o Carlos. Começo a falar com ele e logo pergunto.

- E aí, sabe se a ... vem hoje também para cá?

- Ah não, ela me ligou, decidiu não sair, amanhã é o aniversário do pai.

Esta é a razão para eu estar ali: esbarrar com ela, esbarrar, tropeçar, me debruçar. Não estamos mais nos falando direito, mal nos vemos, mas mesmo assim algo em mim sempre diz que a próxima vez que for esbarrar com ela as coisas serão diferentes. Então, já que não tenho mais nada a fazer ali do que originalmente pretendia, faço o que todo mundo está fazendo, vou à caça, atrás do esquecimento, atrás da anestesia, atrás de qualquer outra garota que me faça de alguma forma me esquecer da que quero, afinal essa é a norma, nada vale, nada importa. A primeira é uma baixinha peituda, chamaremos de Jéssica por conveniência, cabelo encaracolado, cara de perdida, mas que assumiu o papel que sabe onde está, já que se passa o dia se preocupando com uma faculdade, deve se divertir alguma hora, deve se divertir como todos aparentam também estar se divertindo – todos sorriem, não? - e onde está, é meio maluca, numa roda de maconha. Não participo, nada contra - só sou contra os juízes que acham que devem proibir algo e às velhas que discutem a degradação da juventude na sala de espera de oftalmologistas -, já desisti de fumar qualquer coisa assim - só sinto algo quando estou extremamente bêbado, e mesmo assim não sei se isso é de verdade, ou um papel que assumo, logo não faz diferença. É rápido, a agarro, a levanto no ar, chupo sua língua, chupo os seus lábios, aperto sua bunda, ela faz o mesmo nos meus, me desinteresso, sigo a fila. A segunda é uma paulista, Paula, nem na faculdade ainda está, é uma colegial do terceiro ano, visitando uma amiga. Nada de muito interessante para falar, beijo, pego o seu telefone.

- Mas eu sei que você nunca vai me ligar.

- Claro, que vou!

Estranho ser questionado no papel que estou interpretando, apesar de ser verdade, nunca vou ligá-la. Sigo a fila. Na verdade, não posso me focar em nada naquele lugar, pois ainda penso nela. Encontro o..., é... Carlos de novo. Ele é do tipo paradão, que não faz nada e que se diz que só está ali para desfrutar da companhia dos amigos, ou seja, não sabe lidar com as mulheres. Mais conversa fiada e depois de mais umas citações do nome dela, nada que desse muito na telha, ele faz o comentário que puxa a conversa que eu quero ter.

- Sabe, foi uma surpresa vocês terem acabado.

- É, a gente tinha muito problema. Muito intolerante um com o outro em algumas coisas, com as nossas diferenças. 

- Sei como é... dava para ver pelo temperamento dela que poderia ser assim.

- Sim, mas sabe uma coisa que aprendi recentemente, isso não deve importar em uma relação, talvez amar outra pessoa seja também amar suas diferenças e saber lidar com elas - única coisa útil que tirei de uma aula de Sociologia e Psicologia, me fez muito sentido na hora, é incrível quando você só entende os clichês quando eles se apresentam em lugares estranhos, em certas condições mentais.

- Vocês não acabaram bem, não?

- Não, por mim agora ainda estaria com ela. Você me vê aqui conversando com todo mundo, com tanta facilidade, pegando várias garotas, sabe por que eu estou assim? Porque ela me disse para fazer isso, disse que seria melhor se eu conhecesse mais pessoas, fizesse amizade com elas, me ajudaria a esquecer do passado. É isso que estou fazendo. E sim, eu pego outras garotas, mesmo ainda querendo ficar com ela. Mas o que vou fazer, quando quem eu quero me rejeita, ficar em casa olhando para o ar? 

- É, você tá certo, mas eu sou diferente. Tive um problema também com uma garota há um tempo atrás, a gente namorou algumas semanas, mas não deu certo, logo a gente perdeu o interesse. Mas isso não é uma necessidade da minha vida, eu prefiro ficar sozinho. (Ela, a ela que estava esperando, havia me falado sobre isso. Tinha lhe dado conselhos de como se comportar com uma mulher, como ela disse, da forma que eu não fazia, ou seja, lhe pague um jantar num restaurante, lhe encha de elogios. Uau, que poder de sedução! É, haviam perdido o interesse, ela primeiro, e ele por falta de outra opção.)

- Também era assim como você, fechado com todo mundo que não fosse do meu núcleo cotidiano, não me aventurando muito fora da caixa. Algumas vezes até achei que esse era o meu estado natural, isolado numa ilha, confortável numa caixa escura, mas agora estou treinado para ser desse jeito, extrovertido, falante, sempre tendo contato com muitas pessoas, me acostumei, isso se tornou o normal, e a caixa, claustrofóbica demais. Antigamente, só ia para as festas, pegava as garotas e nada mais, quando isso sequer acontecia, sempre dependeu muito do meu humor na hora. Agora, eu paro, conheço as pessoas, converso, e não é que as coisas são muito mais fáceis assim, muito mais oportunidades aparecem desse jeito. Mas mesmo dessa forma, para falar a verdade, não sei se isso valha realmente alguma coisa, ainda trocaria tudo isso para estar de novo com ela.

- Realmente, não sabia que você ainda gostava dela. Sempre achei vocês tão bem juntos. Dou a maior força para vocês voltarem.

- Sim, de certa forma a gente era. Mas não sei para onde as coisas vão seguir, ela me contou que já está saindo com um cara. 

- Sim, eu sei.

- Você sabe como ela está com ele?

- Tipo, ela é minha amiga também, não seria certo eu falar coisas dela agora. Mas sabe, quando vocês estavam saindo, ela também me confidenciava coisas, e agora simplesmente não é a mesma coisa, ela não sente do mesmo jeito com ele de quando vocês estavam saindo. 

- É... mas então, vamos esquecer disso agora e vamos rodar por aí, você tem de achar alguma mulher também!

- Vai lá, vou ficar aqui com uns amigos.

- Vamos, eu insisto, você me aponta que eu faço você acabar com ela.

- Não, não, não precisa, eu não tenho a mesma facilidade que você.

Olho para os lados, vejo uma roda com garotas atraentes, puxo conversa e puxo também o meu amigo junto. O apresento rapidamente para uma das garotas e me foco na outra, a alta de lábios grossos. Linda, alta, cabelo encaracolado – sim, isso me é um vício - aluna de psicologia. Chama-se Joana, nunca fiquei com uma garota chamada Joana, e por alguma razão isso dá um outro ar de inovação. Esqueço completamente o meu amigo e me foco nela. É fácil para mim conversar com gente de psicologia, uma das formas que usei para sair da minha antiga caixa foi ler livros sobre comportamento humano. Milhares de tópicos podem ser seguidos. Mas o que isso importa, logo estou a me agarrar junto do seu corpo e a beijar os seus lábios. Não sou uma pessoa tímida, e que bom, nem ela, a alguns segundos de lhe beijar, já estou apertando forte sua bunda, já estou a lhe levantar no ar enquanto a beijo - outro dos meus vícios. Andamos e nos beijamos, bebemos e nos beijamos, conversamos mais um pouco e nos beijamos. A cada intervalo, seus olhos brilham mais, a cada beijo, ela fica mais excitada, seu corpo cada vez mais quente e vibrando de tesão. E do nada, estamos a caminho da parte de trás do prédio da faculdade. Inicialmente só pretendo jogá-la contra uma parede para poder lhe beijar mais, morder seu pescoço, lhe apertar toda com o meu corpo contra a parede. Mas disso, logo se segue a minha mão a correr por seus seios, seus pequenos, mas apetitosos seios, e logo minha boca está sobre eles, a sugar daqueles mamilos grandes e arrebitados, inversamente proporcionais aos seios, enquanto minha outra mão desce para dentro de sua calça. Algumas vezes pessoas passam e a gente pára, fingimos que só nos beijamos. Seu olhar para mim é algo que me dá prazer, ela está encantada de tão excitada, toda sobre o meu poder. Passada as pessoas, logo meus lábios estão de novo a chupar os seus seios e a minha mão com dois dedos a penetrar a sua vagina molhada, se contraindo. Quero penetrá-la, enfiar meu pau naquele corpo quente, abaixo minhas calças, mas ela é sim, um pouco tímida, se desconcentra com a possibilidade de alguém passar ali e nos avistar. Logo, se abaixa, fica de joelhos à minha frente e com meu pau grosso e ereto em sua mão, começa a chupá-lo. Digo que esse fato é digno de nota, pois nunca nem antes, nem depois, alguém me chupou como ela. Sua boca é como uma bomba de sucção tentando engolir o meu pau. Mal sei definir se o que sinto é prazer ou dor. Mal sei dizer se desfruto de tudo, ou se temo que aquilo quebre o meu pau de alguma forma. Meu músculo peniano se contrai várias vezes sem ejacular. Pára quando eu não posso aguentar mais, alguém se aproxima. Voltamos para o meio das pessoas, eu arrumando as minhas calças, ela o seu top. 

- Você é um diabinho safado com cara de anjo! – diz ela.


Sugiro um motel, mesmo não conheço nenhum em Niterói, nem tenho possibilidades de pagá-lo, simplesmente me parece o certo. Ela diz que não, que precisa se controlar. Mora naquela terra mesmo, mas em outro bairro. Diz que está com as coisas na casa de uma amiga, precisa buscá-las para depois ir para a sua. Ofereço-me para acompanhá-la, parte de mim espera que algo vá acontecer na casa da amiga, mas não dá, já tem muita gente lá. Vamos até o terminal rodoviário, onde pego meu ônibus para atravessar a poça e ela um táxi. Pela janela do táxi ainda posso ver aquele olhar de desejo para mim, deve se perguntar se ligarei para ela de volta, se nos encontraremos mais uma vez. É engraçado, a noite foi excepcional, mas nada ali vejo senão sexo, e não é só isso que eu quero, quero me importar por alguém, quero cuidar de alguém, mas a única pessoa por quem tenho tais sentimentos não está ali, não está comigo. Acabamos há uns três meses, depois de quase um exato ano de namoro, e pior, fui eu quem acabou com tudo, eu tomei a decisão. Acabara com a única pessoa que já amara e que ainda amo.

2. O último dia do resto da minha vida



Estou deprimido, há uma semana estou enclausurado no meu quarto. Acordo tarde, vejo filmes, não saio da cama, durmo cedo, ou melhor, me contorço na cama cedo. Nos falamos só pelo msn, nos falamos pouco já que nenhum assunto temos mais. Minto para ela, digo que tenho passado o dia estudando, fazendo algo de produtivo, não sei se acredita nisso ou não. Só sei que algo tem que mudar na minha vida, o caminho que estou seguindo não dá mais. No nosso último encontro, mal nos tocamos, não por falta de tentativa minha, ou por qualquer tipo de repulsa dela a isso, mas simplesmente por puro desinteresse, ela prefere o filme - esse não a traz tantas desilusões quanto nós estarmos juntos. Nossa última briga foi horrenda, agora nos fingimos de bem e ela presta mais atenção ao filme na tela do cinema que a mim. Que tipo de pessoa vai com outra ao cinema para ver o filme? Saio de lá pior que estava antes. Não aguento mais, sinto que toda nossa relação está sobre os meus ombros. Tudo só acontece se eu o faço, e ela só se dá o trabalho de concordar ou discordar. Nas noites que se seguem nas nossas conversas pelo msn, minha distância se faz aparente. Mas que diferença isso faz, não é como se ela fosse tomar qualquer atitude por causa disso, ela só reclama, reclama e reclama e mais nada, a única pessoa que pode tomar atitude aqui sou eu e mais ninguém. Mas eu não quero, já estou cansado demais de fazer tudo sozinho, e a ela só resta a pergunta.

- ..., você quer acabar comigo?

E eu me irrito.

- É claro que não, eu te amo, você é o amor da minha vida. Para de besteira e vamos falar normal.

E as conversas se seguem sem vida.

Faz uma semana que não nos vemos, ela acabou de fazer uma operação para tirar um siso. Pensei em visitá-la antes, mas para quê? Para ficar parado olhando para o ar na sua casa, enquanto ela se foca em outras coisas, igual fez no cinema. Quero ficar com ela, mas não como um adorno, não cumprindo só um papel. Porém, apesar do desânimo, decido que não posso ser assim. Só há uma certeza na minha vida e essa é que eu a amo. Logo, me reergo, acordo cedo, arrumo o meu quarto que está uma bagunça abandonada. E começo a planejar como posso consertar tudo, como devo me focar em outras coisas, como na minha escrita e meus filmes, além do estudo para logo arranjar um trabalho. Sei que com dinheiro as coisas ficarão mais fáceis. Sim, nós temos problemas, mas é só mais um pouco de esforço, que logo tudo irá se consertar, logo ela irá realmente entender o quanto eu a amo e as brigas pararão, logo ela terá total orgulho de estar comigo. Até imprimo algumas imagens de paisagens e grudo na parede para dar um ar de mais vida ao meu quarto, quero que ela se surpreenda na próxima vez lá. É bobeira, mas eu sou bobo. É uma quarta, nos veremos amanhã, na quinta. A conversa de msn é monótona como sempre. A verdade é que qualquer assunto mais marcante, eu mesmo já corto, pois sei que vai acabar em confusão, com ela discordando de algo, logo é mais fácil evitar. Vou dormir. Trinta minutos depois, ou mais, não sei, já estou dormindo, o telefone toca.

- ..., entra no msn!

- O quê? Por quê? O que houve?

- Eu preciso falar algo com você.

Entro no msn.

- Você está estranho, tá distante, eu não sei o que fazer.

Logo penso, lá vem confusão de novo. É típico dela, me tragar pelos conflitos interiores dela até três horas da manhã. E eu sempre acompanho, mas nesse momento estou cheio daquilo.

- ..., por favor, vamos falar amanhã. Amanhã a gente vai estar junto, é melhor.

- Não, mas eu quero falar agora. Você parece distante demais, corta tudo que eu começo a falar, não parece se importar mais.

- Meu deus, por favor, eu tô cansado, vamos falar amanhã. Eu não tô diferente com você, eu te amo do mesmo jeito.

- Não tá não, e eu sei disso.

- Sério, eu tô quase desmaiando aqui. Amanhã, a gente vai estar junto e tudo vai estar certo.

- Não, você não teve nenhum problema em passar uma semana sem me ver, e eu queria você.

- E por que não pediu?

- Não sou eu que tenho de pedir algo, você me vê se quiser me ver.

- Sei... Então, amanhã a gente vai se ver.

- ... você ainda quer ficar comigo?

E é isso, é a terceira vez na semana que ela me pergunta isso, eu não aguento mais. Tudo eu, eu e mais eu. Mas se eu tomo todas as iniciativas, ela mesmo assim está insatisfeita e não concorda, me traga ao inferno até por pura sorte eu adivinhar os desejos que ela se vê incapaz de falar. “..., eu te amo, não te quero distante de mim!” Não, isso é difícil demais. É mais fácil um “Você não se importa comigo, você não me ama!” Então respondo a sua pergunta:

- Não.

- Eu já sabia disso!

- É, você sempre sabe de tudo.

- Para com isso!

- Não, eu tô cansado. Eu não agüento mais passar por isso. Eu quero alguém na minha vida que esteja comigo, não que fique me reprovando, não que só me acompanhe distante.

- Para com isso!

- Não, eu cansei. É isso que você queria, então aí está.

            - Não, eu não queria isso.

- Você queria, sempre perguntando a mesma coisa, eu não aguento mais.

- Eu te amo!

- Sei...

Ela me liga.

- O que você tá fazendo é idiota. Vamos conversar melhor amanhã sobre isso!

- Não, não quero mais te encontrar amanhã - digo isso querendo encontrá-la, porém sei a realidade, nada do que eu estou reclamando terá alguma importância caso eu esteja frente a frente a ela. No momento que olhar em seus olhos, tudo estará perdido, serei dela mais uma vez para fazer o que quiser, me torturar com milhares de dúvidas, nunca acreditar em mim, me colocar o peso de decisão de tudo, só para logo depois discordar. Sei que se for, ela vai me perguntar de novo o que eu quero, e assim eu em um misto de raiva e paixão, vou dizer: “Eu quero a minha mulher do meu lado! Quero que você deixe de besteiras e seja ela!”; ela só vai me olhar com desejo, não vai responder nada, nem se responsabilizar por nada, e eu vou beijá-la, um beijo longo e forte. Mas eu me recuso a passar por isso de novo sem antes ela demonstrar de alguma forma verdadeira que se importa, que quer realmente melhorar as coisas, e não deixar como sempre tudo para mim.

Ela chora, depois fica irritada.

- Você vai se arrepender, escuta bem o que eu tô te falando!

O que só me deixa com mais raiva, não dela, de mim mesmo, porque eu vou, e exatamente por isso eu me entrego mais a raiva. Tenho certeza que o que estou fazendo é o melhor para mim, estou me sentindo sozinho com ela, e não posso deixar o meu amor por ela arruinar a minha vida, logo deixo toda a frustração me tomar, e começo a listar tudo que a gente têm passado que eu não gosto, cada coisa que fiz, e cada coisa que ela não fez em retorno. 

Nesse momento, uma parte quer ter certeza que tudo está destruído, para que a outra que passou por tudo aquilo não possa voltar mais. A conversa acaba, a gente concorda que vai dormir, pensar melhor e falar no dia seguinte. Apago todas as nossas fotos do orkut, tiro o nosso status de namoro – hoje em dia você só pode ter reações emocionais reais, se elas são compartilhadas em uma rede social - e depois choro.

Não durmo, só me contorço na cama. Começo a escrever uma carta, tentando dizer na melhor forma possível, que não agüento mais e ela tem que tomar alguma atitude, tem que lutar pela gente, ser uma mulher que me acompanhe, não só a minha companhia, fazer como eu que sempre tento estar junto dela e a suportar.

Sua resposta é dizer que eu não preciso dar explicações porque estou acabando com ela. Já é comum ela não entender nada. Mas eu não estou mais interessado em explicar algo. Nos falamos no telefone mais uma vez, ela insiste que nós devemos nos ver, e eu insisto que não, vê-la é voltar para alguém que não se importa, ela mais uma vez me chama de idiota e diz que eu vou me arrepender. Acabo a ligação, mais uma vez choro.

Choro até me dizer o quanto é idiota tudo aquilo, que ela não vale isso, que devo seguir a minha vida, continuar com os mesmos planos que só vinte e quatro horas antes havia feito para me melhorar como pessoa, melhorar para ela, mas agora sem ela. Sinto-me com a vida a seguir. Que vida, ainda não sei. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, começa a tocar o relógio da bomba.

3. No começo, fez-se a luz


No centro do sistema solar, uma entre muitas estrelas a percorrer a Via Láctea, o sol. Ele queima e de sua superfície são emitidos bilhões, trilhões de fótons a correr em linha reta pelo espaço. Em alguns minutos alguns batem na terra. Batem contra a atmosfera, alguns são absorvidos, outros passam, batem sobre a água da baía de Guanabara, batem contra árvores, batem contra paredes, cada vez sendo absorvidos em uma quantidade e refletidos em outra. Cada nível de reflexão, uma interpretação diferente. Batem sobre um casal atrás de um prédio de uma faculdade, num jardim. Batem e refletem para a lente de uma câmera. Batem sobre o sensor de imagem dentro da câmera. Os fótons são convertidos em impulsos eletrônicos que são convertidos em pixels. Pixels organizados em um arquivo JPEG. Aquele momento do tempo é copiado numa imagem bidimensional para dentro de um disco rígido. O casal sorri, parece feliz.

A cada dia a Terra dá um giro completo sobre seu próprio eixo, a cada ano a Terra dá uma volta completa ao redor do sol. O sistema solar contorna o centro da Via Láctea a uma velocidade de 828 mil quilômetros por hora. A cada segundo que passa, aquele momento registrado na câmera não se afasta só no tempo, mas também no espaço. O exato local onde ocorreu está a milhões de quilômetros de distância dos dois que o dividiram. Os dois não estão mais juntos, e nem em seus neurônios aquele momento é mais o mesmo, novas camadas de interpretações foram adicionadas em cima dele a partir das experiências que tiveram desde então. Só naquela organização de pixels guardada em um arquivo dentro de um disco rígido, tudo se mantém igual.

Copio todas as nossas fotos em um DVD, depois as apago do disco rígido. Tic-tac, tic-tac, ... 

4. Dia dos Namorados

Sábado é o dia dos namorados – dia inventado para marcar emocionalmente os bolsos dos floricultores de todo o mundo. Pensar que há um ano tinha passado o meu primeiro com uma namorada, e agora ela está longe de mim, quem sabe, nos braços de quem sabe quem. Não, não foi um dia bom, foi marcado também por uma discussão. Mas a realidade não importa, só o coração batendo forte de um floricultor ao receber uns R$ 4,00 em troca de rosas. Hoje não quero mais pensar, quero beber e esquecer, quero me fingir um pouco vivo. Vou para uma festa, não posso ficar na caixa. É a típica festa lotada que com 400 pessoas na lista amiga, só tem 10 quando você chega, e quando sai no máximo umas 40 apareceram. Como acabei num lugar desses? Imagino onde ela possa estar, com quem possa estar se divertindo. O quanto não deve estar perdendo o seu tempo pensando em alguém que não está lá. Converso com um grupo, gays e garotas gordas, só para passar o tempo enquanto o lugar não enche. Falar é bom, mantém a mente girando, ficar num canto esperando as coisas acontecerem só estagna a mente. Como sempre, falo qualquer bobeira que venha a minha mente, sou atraente, logo as pessoas escutam. Logo o lugar está cheio, me desfaço do grupo e vou atrás de outro, agora com alguma garota atraente. Como sempre, sou bem recebido e converso, não venho com cantadas baratas. Beijo a mais bonita, mas ela fica ofendida por botar rápido demais a mão em sua bunda. Querer ela quer, mas como sempre, com esse tipo de garota o que importa é que tipo de imagem ela está passando para as suas amigas ao redor. E aquele não é um grupo em que se coloque a mão na bunda apenas em uns 10 minutos após conhecer. Tem de se conhecer pelo menos de uns 30 minutos à 1 hora para poder fazer isso. Digo que vou parar, mas me canso e faço de novo. Ela se vai, e eu me vou atrás de outra.

Ando pela boate, subo suas escadas, é um casarão antigo na Rua da Carioca, nunca fui antes, para mim naquela rua só existiam o Cine Iris e o Ideal. Mas também fazer uma festa não necessita muito, só espaço, bebida e música. É claro, também uma pré-disposição cultural da sociedade para considerar aquilo como entretenimento, uma forma de dizer que se está aproveitando a vida. Se ainda estivesse com ela, talvez estivéssemos em uma festa. Não, provavelmente não, já que sempre fazia um escândalo para sair à noite. Tinha que ser algo sempre muito bem programado uma semana antes. Ou talvez estivéssemos cada um em sua própria casa, não estando juntos, mas no conforto de saber que tínhamos um ao outro. Estou no banheiro, é grande, e nele posso ficar sozinho, é nele que deliro sobre o passado, e quando paro fico tirando fotos da minha cara. Não sei, não sei se gosto do que estou me tornando. Tento capturar no estático do digital algum sinal de vida em mim, de gosto por todo esse jogo. E nas fotos, nas poses que faço, nas poses que apresento as presas da minha caça, aparento estar vivo. Diferente do que olho no espelho quando não estou interpretando um papel, na imagem em movimento, sem público. Mas isso não importa, porque o que fica registrado no cartão de memória do celular é a verdade, e caso a foto não fique bem, posso apagá-la. Subo para o terraço, mais pessoas se concentram lá. Cansei de falar, começo a dançar, olho uma garota, bela, vestida de punk. Só pergunto seu nome e a beijo. Não gosto como beija, muito afobada. Ela quer pegar uma água no bar em baixo, não quero sair dali. Ela vai, prometo esperar, mas logo estou olhando outra. Essa nem pergunto o nome, só agarro, aperto contra meu corpo, aperto a bunda. Logo estou a sugerir em seu ouvido para irmos ao banheiro do lugar.

Há algum tempo nós voltamos a nos falar, pretendia reavivando nossa amizade a fazer me desejar de novo. Acompanho-a até o ônibus. No caminho fala-me de uma amiga, de como ela agora está namorando.

- Ai, logo não vou ter mais ninguém para sair. Todo mundo com namorado, me sinto excluída.

- Sério que você está falando isso comigo aqui do seu lado. Você muito bem poderia ter um de novo agora.

- Pare. E se você quer falar comigo tem de ouvir essas coisas, é isso que vem a minha cabeça.

Sinto-me patético por estar ainda atrás dela, mas mesmo assim a acompanho, mesmo insultado, mesmo mais uma vez tendo tudo que tivemos juntos ignorado. Estou lá porque quando conversamos antes, perguntei o que sentia por mim, e ela não soube o que falar, disse que estava confusa e não sabia o que queria da vida, não sabia o que sentia realmente.

Entramos no banheiro, a agarro contra a parede, passo a mão por seu corpo, por debaixo de suas roupas. Afrouxo meu cinto, desço as minhas calças, ela afrouxa seu cinto, e eu desço as suas calças, se vira contra a parede, bato em sua bunda antes de penetrá-la. Está toda molhada, seu corpo treme de prazer, geme contra a parede, rosno em seu ouvido. Alguém começa a bater na porta do banheiro. Tentamos ignorar, mas não para. Temos de nos vestir e sair. Na porta era só um cara, quando vê que estava com uma garota, ele pede desculpas. Decidimos ir para um motel. É, no dia dos namorados todos estão lotados. Ainda mais se só posso pagar em cartão de crédito. Ficamos quase uma hora indo de motel em motel tentando achar um com um quarto vazio creditável. E lá nos entregamos um ao outro. Uma, duas, três vezes, isso para mim, quem sabe quantas para ela, sempre sou o menos a ganhar numa relação. 7 horas da manhã, estou exausto. Em duas horas tenho de estar me preparando para uma apresentação de uma peça ao ar livre. Conversamos no ônibus. Descubro seu nome, é Cíntia, curiosamente trabalha numa editora. Ela é a segunda mulher com quem faço sexo desde a minha ex-namorada. A primeira a qual tenho algum prazer fazendo isso. Prazer pela ação e mais nada, sei que não me interessa vê-la de novo. Mais uma vez imagino como seria se ainda estivéssemos juntos.

5. Além do homem


O que está morto deve se manter morto. Não posso mais pensar nela, é errado, é blasfêmico, é retornar. Junto às fotos no DVD, qualquer outro arquivo referente a ela. Mil imagens estáticas, cem mil palavras sem razão. Não posso apagar, não quero contato com aquilo, mas ainda sei o quanto tudo aquilo é precioso, e uma pequena voz em mim ainda me diz que é só uma questão de tempo até tudo estar de volta, tudo estar certo, tudo ser como deveria ter sido, como nunca realmente foi. Junto o dvd com outras coisas nossas, guardara muita coisa nossa: cartas, entradas de cinema, notas de sorvete, penas de suas fantasias. Cada uma com sua história, cada uma, símbolo de um momento cavado em meu cérebro. Resquícios, fragmentos, de momentos que deveriam compor algo grande e belo. Agora, resquícios, fragmentos, de um fracasso, de uma dor, de uma obra que não deveria ser. Coloco tudo em uma caixa e guardo no topo do armário, entre a poeira, entre aquilo que não deve ser visto, ou se fazer ver. No computador, num arquivo de excel, que chamo de Planejamento, organizo como serão minhas próximas semanas. Preciso de ordem, serei um monge estóico, me açoitarei caso me desvirtue do caminho. Acordarei cedo, farei exercícios físicos, comerei bem e saudável, estudarei para as provas de concurso que estão por vir, e no meio tempo ainda manterei minha prática de escritor com alguns contos. Tudo com um horário certo, tudo numa quantidade equilibrada, tudo com um objetivo, uma quota a alcançar. Devo ser uma máquina para alcançar meus objetivos, não uma esponja tomada e amassada pela situação. Porém, nem tudo está certo, as conversas rapidamente começam.

- Estou escrevendo, você vê! Vinte páginas nos últimos dois dias. Lembro quando te encontrei naquela festa e você me disse que tinha lido todos os contos que te enviei. Fiquei impressionado, pensei que tinha os ignorado como a maioria faz. Achou-os estranhos. Você preferia quando escrevia coisas normais, e agora estou fazendo exatamente isso, histórias com início, meio e fim, sem elefantes rosas, sem vômitos de pipoca, sem torres de mil olhos. Nesse último ano com você, acho que só escrevi umas nove páginas de ficção. Eram para você, algo no gênero que você gosta, e você demorou um mês para lê-las. Sempre tinha algo mais importante. Você sabe o que vai acontecer agora? Vou mandar essas histórias para concursos e vou ganhar eles. E aí você vai ver o quanto elas não eram ignoráveis.

Nada me responde, ali do meu lado muda, uma imagem, mas seus olhos me desafiam por mais. De vez em quando falo com a real no msn, de volta as conversas monótonas, dela já não vem nenhum esforço para voltarmos, é como se nada nunca tivesse acontecido.

- Tenho estudado.

- É, eu também.

Já não me esforço mais para manter o fluxo de palavras, não luto mais contra os espaços vazios, deixo a conversa morrer, volto uma, duas horas depois para falar até mais, mandar beijos, fechar a tela. Passando uma semana, decido sair, ir a uma festa. Ficar em casa, com o convívio diário com os meus pais e só algumas conversas pingadas na internet, é o certo caminho para loucura. Decido ir ao Cine Cachaça no Odeon, centro do Rio. Uma hora de curtas, depois uma cachaça de gengibre horrenda, porém grátis, e festa. Engraçado que fui muitas vezes convidado por uma garota para essa festa, Juliana. Mas essa era a primeira vez que estava realmente indo. Gostava dela, mas tínhamos pouco contato e estava sempre perdido em outras confusões – garotas - para entender que ela estava também interessada e por isso sempre me chamava. Fiquei com ela uma vez antes de começar a namorar, numa noite alcoolizada na lapa, mas ainda estava pensando em outras coisas – Fernanda, outra longa história -, e ela também tinha algumas confusões – algum indigente que não me importa -, logo não deu em nada, não tinha cabeça para dar em algo. Agora saio, mesmo sem convite, pois é preciso sair, é preciso retornar a humanidade que não seja ela, ou seu fantasma.

Três badaladas. Vejo os filmes, sozinho numa sala cheia. Última vez tinha ela ao meu lado. Só uma hora, não o suficiente para enlouquecer. Usual coletânea de voyeurismos de uma classe média sem direção, sobre uma idealização sem fundamentos de uma classe pobre exótica, é o bom selvagem, é o bom trabalhador. Olhe, um trabalhador com olhos grandes que canta! Por que os revoltados cariocas tem de seguir justamente Rosseau e Marx? Não poderiam ser dadaístas? Saio amassado na multidão de amontoados ao redor da mesa da sagrada pinga. Horrível, mas se tomar o suficiente, dois copinhos a gosto de gasolina, talvez faça o zumbido parar na minha cabeça. A música toca, grupinhos conversam, paro em um, a esmo, gente com cabelos saltados ou barbas longas, sem garotas gordas de preferência. Não estou tão enferrujado quanto acredito, falamos dos curtas, faço comentários sem valor qualquer: onde será que isso foi gravado, nunca tinha visto o Mussum cantando assim antes. Sei que se abrir minha boca demais vou incitar conversas que não saberei sair, nem me interesse em rebater. Tudo parece tão sem sentido, não gosto desses rituais de acasalamento mascarados de evento cultural. Se é para se agarrar, porque fingir o resto. No segundo andar, ao lado da pista de dança, ao me amassar pelas multidões, vejo sentada num canto, com algumas pajens ao seu redor, uma rainha. Bela, olhos fixos na pista, muda, entre as duas conversando ao seu redor. Como posso falar com ela? Mal consigo me escutar pensando aqui, e ainda há as pajens no meio do caminho. Terei que interagir com as pajens também, mas é tudo tão apertado, serei um obelisco estranho a adentrar na conversa. Começo a andar na direção delas, a rainha me vê indo a sua direção. Quando do nada, ela liga, meu coração bate, atendo. Rumo a um canto silencioso do lugar, ou o mais parecido a isso possível. Está com raiva. Estávamos conversando antes no msn e lhe disse que ia sair, queria mostrar-lhe que estava vivo.

- Ignora o depoimento que te mandei pelo Orkut!

- Como assim?

- Nada, só ignora.

- Fala! Já que ligou fala tudo agora.

- Eu tenho problema, a gente não tá mais junto, sua vida não me diz respeito.

- Porque você quer!

- Pára. Só não faz mais isso, não me diz que você vai sair, eu não quero saber.

- ..., o que você quer? A gente acaba e você só sabe me atacar e reclamar.

- Nada, você tomou a decisão certa de acabar com tudo.

- Hum...

- Eu vou te deixar em paz agora.

Desligamos. Rodo pela festa irritado. O zumbido aumenta, a gasolina só o pode parar se eu quiser que ele pare, e vamos ser sinceros, eu não quero. Vejo a rainha de novo, cabelo à la Ana Karina, olhos verdes, lábios carnudos e vermelhos, rosto na melhor linhagem de modelos ucranianas. Odeio tudo isso. Odeio rituais, odeio jogos, quero só falar a verdade, mas a verdade vai contra a natureza humana. São milhares de anos de uma evolução para jogos, jogos de acasalamento, não para a verdade. Mas o que é a verdade? Não só mais uma ilusão de quem não quer aceitar que só se move como a peça de um jogo. Sei que ela me quer de volta, mas não move um dedo para isso. Sei que ela quer que eu volte correndo dizendo que quero ficar com ela. E eu quero fazer isso, como já fiz várias vezes antes. Mas chega, não agüento mais. Agora é a vez dela, se a gente têm de estar junto, ela tem de fazer o esforço. Rodo mais na festa tentando apagar o zumbido, indigentes já se agarram em algumas paredes, não agüento, ligo para ela.

- Fala como você tá!

- Não importa, já disse que isso é problema meu.

- Importa sim, eu tô aqui na festa tentando seguir a minha vida, mas você acha que eu consigo me focar em algo depois de uma conversa assim com você.

- Tá, desculpa, eu sou boba, eu não devia ter ligado.

- Não, você não é boba, não por causa disso. Droga, o que você quer? Você só sabe reclamar comigo, ou ser conformista com tudo.

- Nada, eu não quero nada, absolutamente nada. Volta lá para sua festa.

- Não, agora eu quero falar. E nem tô mais na festa, já sai e tô a caminho do ônibus.

- Ela já acabou?

- Não, eu fui embora, não fazia mais sentido ficar lá.

- O que você quer comigo?

- Não, você que me ligou, você me diz o que você quer comigo!

- Olha ..., eu te entendo, eu entendo a sua decisão, você mesmo disse que quer encontrar outra pessoa.

- Não, eu disse que quero encontrar alguém que fique do meu lado, que eu suporte e que me suporte, não que só me acompanhe como uma estátua decorativa.

- Isso, então, vai lá procurar!

Estou no ponto entre a Praça Mahatma Gandhi e a Igreja da Lapa, engraçado o lugar para se ter esse tipo de conversa. Não será a primeira, não será a última. Nem serei o primeiro ou o último a tê-la. Esse ponto é uma terra ruim para casais, muito sangue de amores destroçados já correu nele. Mas isso não interessa no momento, entro no ônibus.

- Droga, para de ser tão conformista. Meu deus, droga, só me diz uma coisa decente e você pode me ter de volta.

 - Não, eu não quero. Você estava certo na sua decisão.

- É isso que você quer então?

- Não interessa o que eu quero.

- Droga, me fala.

 - Nada, se você não tem nada a me falar, eu também não tenho nada a falar.

- Meu deus, eu tô chegando ao ponto aqui de te pedir diretamente, me fala uma única coisa decente e você me tem em dois segundos do seu lado.

- Eu não quero.

Minha bateria de celular acaba. Ao chegar em casa há um depoimento no Orkut, falando o que ela já tinha dito, para eu não mais falar para ela da minha vida. Ela ainda está online, mas nada avança daquilo que já tínhamos conversado. Tudo é um disco quebrado, e as peças acima dele não tem casas a avançar, só sabem girar.

As provas de concurso público vão chegando, mas perco o interesse, prefiro mais escrever do que estudar aquilo. Quero dinheiro, mas a possibilidade de perder oito horas do dia, cinco dias por semana, num trabalho inútil de escritório que não me atribuirá nenhum valor real, me horroriza. E pior, é trabalhar para o governo, trabalhar para ladrões, só que sem a honra de ladrões que se admitem como tais. São ladrões ratos, fedidos e deformados, covardes, que se alimentam de outros covardes como eles, mas sem a inteligência o suficiente para roubar que nem eles. Meu plano original, quando comecei tudo isso, era entrar em algum concurso público e assim pagar um apartamento para que ficássemos juntos, sem aturar suas frescuras de vir a minha casa, ou a repressão que tinha dentro da sua. Agora não tenho mais razão para me esforçar, o que eu quero é escrever, não me vender. Além disso, não consigo mais pensar direito após ela ter falado comigo. Sinto cada vez mais, que é isso, ela não vai fazer nada.

- Desculpa, ... Eu te amo, eu te quero do meu lado, não importa o quê, eu faço tudo para te ter de volta! – seu fantasma diz para mim. E se fosse a real, com aquelas palavras, ela me teria para todo sempre como seu escravo, não importando as conseqüências. Mas não é ela, é só seu fantasma. Quero que ele pare de me assombrar.

Repito a conversa que tivemos várias vezes, com alternados fins, com alternadas conclusões, com alternadas ações... reações suas. Tento me focar em outras coisas, nas provas, nas famigeradas provas. Se comecei algo, preciso acabar, preciso estudar e fazer as provas. Provas, provas, provas, estudar, estudar, estudar. Que mentira, olho para o teto. Mas fá-las-ei. Com isso nem penso mais em tentar apagar tudo da minha cabeça com alguma outra garota, ou com o álcool. Não há espaço, tem prova toda semana, e mesmo me lixando, tenho que me passar à imagem que estou tentando. Era isso que fazia ao seu lado, não? E é numa dessas malditas provas inúteis que nos encontramos. Ou melhor, eu mando uma mensagem falando para ela me esperar na porta da escola do concurso depois da prova. Como sempre, saio primeiro e fico esperando. Não sei o que quero com aquilo, fico calmo até o momento que a vejo, meu coração estoura. Ela me parece feliz, sem preocupações e não tem nada para me dizer.

- Como foi na prova?

- Bem!

- E você?

- Bem também.

Acompanho-a até o ponto. O ponto, hum... Outro ponto. Pontos de ônibus parecem ser lugares de muita significação numa cidade. Pelo menos, para quem é pobre, não tem carro e tem de se ver amassado em latas para chegar aos lugares que deseja. O ponto na frente da escola da prova é exatamente o nosso ponto de encontro, o ponto que marca a encruzilhada de caminhos entre a sua terra pós-poça e a minha terra pós-apocalíptica. Imagina, ter só um ônibus entre nós, não, tem de ter dois, e eu tenho de sempre encontrar ela na porta do seu, para levá-la ao meu. É isso que um namorado faz, que piada. Pelo menos, era assim. Agora é só um ponto ao qual eu a acompanho por acompanhar, não mais o no qual nos beijávamos, não mais o com aquela grade de metal contra a qual eu lhe agarrava, onde ficávamos grudados um ao outro até o seu ônibus chegar. Agora, estamos lá longe um do outro. Longes esperando seu ônibus. Ele chega, ela se despede me abraçando, me abraça forte. Não esperava isso, me sinto estranho, fora da vida em que deveria estar, fora das respostas que preciso.

Lua sobe, lua desce, vou a uma festa na faculdade, a outra que faço. Diz a lenda que talvez faça seis, mas não há tantas faculdades públicas assim no Rio para fazer, e vamos ser sinceros nem morto, eu pagaria por aquilo. Chego cedo e vejo os vários bolsões de pessoas se formando. Conheço mais essa gente que na outra faculdade, posso perceber como se amontoam em círculos de seus próprios cursos, fechados no mesmo, querendo o mais. O meu círculo não tem a melhor fauna feminina - certas matérias não atraem espécimes com hábitos alimentares muito saudáveis. Quero me infiltrar em outro grupo, mas me vejo incapacitado de conversar qualquer coisa além de assuntos pueris - transferência de informação usada. Esqueci-me como falar do que gosto, do que me entusiasma, do que me vende como ser humano ainda vivente. Foi muito tempo sendo cortado nessa área. Viro um antropólogo e me confesso como tal. Não há nada mais feio que uma fileira de garotas bonitas dançando coreograficamente um funk. É a marcha dos idiotas, ela está vindo! Não sei por que estou aqui, mas também não sei onde estar. É engraçado quando paro para conversar com um dos espécimes e falo de música. Gosta de outras, mas funk é o que dá para dançar. Ou seja, funk é o que vêm com uma coreografia pré-programada que ela possa seguir como a maioria ao seu redor. Seguir sem pensar, não que houvesse algo a ser pensado. Bebo tentando desligar a maquininha lógica em minha mente, retardar os motores, sair de dentro, ir para fora. Converso com mais uma, mal sei o que falo e do nada a estou beijando, nem sei como começou. É mais um não há mais nada a fazer mesmo. É... estou ficando com ela, seria de pouca educação ir embora agora? Vejo à distância uma amiga chegando na festa, Elisângela. Uma garota por quem já tive uma obsessão sem sentido quando mal a conhecia, na vida de um em mim que morrera muito antes de conhecer a minha atual ela. Uma garota com quem nada fiz, mas pude experienciar concretamente num certo período de tempo a transformação de uma atração, numa total repulsa, não pessoal, mas atracional. Uma garota que por fim entrou entre as fileiras das minhas psicólogas. Vem acompanhada de sua irmã menor, Elisa. Uma garota a qual eu cultivo uma estranha simpatia, estranha pois acredito não ser sexual, acho. Falo a garota com quem estou ficando que vou falar com minha amiga e parto.

- A festa tá boa né, ...! – fala Elisângela para mim.

- É... está ok.

A conversa se segue, pergunto como vão, comento a festa, nos sentamos num canto, divido minhas analises antropológicas para ambas, até que:

- E a sua namorada, ..., o que houve com vocês?

- A gente não dava certo junto, tínhamos problemas toda hora. Até que chegou num ponto que não deu mais.

 - Vocês pareciam tão felizes nas fotos – nas fotos, porque em nosso um ano de namoro, ela só conheceu um único amigo meu, e isso por acidente, já que toda vez que marcava para sair com ela e meus amigos, sempre o lugar era longe demais, ou o horário pouco propício demais para ela.

- Sim, mas isso não importa. Era um momento alegre, outro ela me questionando, arranjando problema do nada, dando ataques. A gente era muito diferente, e não importava o quanto eu fazia para deixar tudo certo, ela sempre achava alguma falha. Era...

E aí se seguiu a matraca.

 - ... e tipo, eu sempre chegava cedo nos nossos encontros. Eu nunca quis deixar ela esperando, porque eu odeio isso. Enquanto isso, chegou à vezes que me deixava até 1 hora esperando, senão mais. Sim, morava longe, mas isso tanto quanto eu dos lugares que a gente marcava. Sim, tinha trânsito, mas não era para nenhum lugar que ela nunca tinha ido antes, nem em dias que ela nunca tinha ido. Logo se ela se importasse, era fácil calcular o horário necessário que ela saísse para chegar cedo. Porque é isso que eu fazia, eu pensava antes para não deixar ela lá parada que nem uma idiota me esperando. Mas isso importava a ela? Não. E ela chegava como se nada tivesse acontecido, e ainda ficava contrariada porque eu ficava com raiva. Como se aquilo não fosse um prazer para ambos, como se eu esperar ela fosse um privilégio, e eu não valesse nada ali. E o pior, e o pior, eu sempre esperava, todo encontro, que aquele dia fosse o diferente, que naquele dia ela fosse chegar no horário. Então, eu nunca mudei nada, porque eu não queria deixar ela esperando caso esse fosse o caso. E tão raramente foi.

 Continua a matraca. Interrompem a matraca.

- ..., aquela garota que você tava ficando parece tá te procurando.

- Ah..., ela alguma hora me acha.

Continua a matraca.

- ... sabe, até para carregar ela no colo em público ela tinha problema. Uma vez deu ataque só por causa disso e ficou muda. Sendo que ela disse que tava cansada.

 - Sabe o que eu acho, ... Eu acho que você ainda ama ela, e vai amar por um bom tempo!

- Não, não, acabou, eu não quero mais nada. Tudo foi um erro, e acabar tudo foi a melhor decisão que eu podia ter tomado.

 - Eu acho que daqui a pouco você vai se arrepender de tudo isso, tá na cara.

- Não, eu to seguindo a minha vida! Tô bem!

- Sabe – começa Elisângela -, se lembra daquele garoto que eu tinha ficado antes daquele tempo em que você vinha atrás de mim, o Roberto. Então, eu mal escutava tudo que você me falava porque mesmo eu tentando ignorar, ele era tudo na minha mente. Quando via ele na rua o tempo parava. E tinha sido eu quem me afastara dele, porque achava que ele não queria o mesmo que eu. Passou um ano, quase dois, e nada mudou, ele não saia da minha mente, e acho que eu também não da dele. Teve até um outro garoto aqui da faculdade mesmo nesse meio tempo que gostava muito de mim, e eu achei que ele seria bom para mim, mas não deu porque não era nele em quem eu pensava. Ai, aconteceu, a gente voltou a ficar, eu e o Roberto, e dessa vez durou até mais tempo que dá primeira vez, mas acabou do mesmo jeito. Não era para dar certo. Mesmo assim, ele sempre de vez enquanto volta aos meus pensamentos. Tem certas pessoas que sempre vão estar com você.

- Não, eu discordo, é tudo uma questão de costume, de achar alguém certo que te faça esquecer do passado, que te faça criar novos momentos na sua vida. O que você tem é que até agora ninguém apareceu que te desperte isso. Sim, eu penso nela, mas é porque tá recente, logo isso tudo some.

- É..., bem que eu queria que fosse assim. Mas acho que vou acabar como uma velha numa casa cheia de gatos.

A garota a qual abandonara na festa reaparece.

- Você sumiu hem... Então, estou indo embora agora, depois a gente se fala pelos corredores!

E eu me pergunto por quê. Por que alguém se interessaria a continuar aquela troca sem sentido. Ela vai, e eu logo vou também quando a festa já está acabando e minhas amigas decidem ir.

Tudo se mantêm seguindo, começam as aulas na Uff. Depois de um ano juntos, é agora ir para lá sem segurar a sua mão, sem entrelaçarmos os nossos dedos. Quem sabe possa conhecer nas aulas alguma garota interessante que ainda goste do que está fazendo. Mas ainda a vejo, temos uma única aula juntos, terça-feira. Na primeira aula, sento ao seu lado e no final a acompanho até um shopping onde vai almoçar. A vejo subir pela escada rolante indo embora, sozinha, sem mim, me sinto estranho. Está tudo errado, mas esse é o certo, esse é o melhor. O estranho é natural, vai passar. Na segunda, conversamos normalmente no intervalo, depois ela fica para fazer um trabalho por lá mesmo. Na terceira, ela fala normalmente, me cumprimenta, e depois se afasta para conversar com outra pessoa, como se eu fosse só mais um entre todos. Um que ela cumprimenta e depois deixa.

É isso, se adaptou, em vez de lutar por mim, ela desistiu, a vida seguiu e ela começou a se afastar. Começo a me sentir mal, está acabado, tudo está acabado. Tudo que tivemos juntos não vale de nada para ela. Todas às vezes que tivemos problemas, eu fiz de tudo para que ficássemos bem, muitas vezes ignorando o que eu estava sentindo e o que eu achava certo. Eu sabia que ela era naturalmente negativa, sempre vendo a pior alternativa, isso era ela, era isso que via transbordar em cima de si de seus pais na sua casa, logo era melhor eu sempre estar bem, para que ela também estivesse bem com tudo, se não as coisas só poderiam piorar. Eu lutei e lutei e lutei para ficarmos juntos, e agora no meu primeiro momento de hesitação, no meu primeiro momento de dúvida, ela não pode mover um dedo para ficar comigo, não pode me dizer uma única palavra boa, só me criticar e desistir. Já não chorava há duas semanas, soltei algumas lágrimas no ônibus para casa, mas me controlei. É engraçado que o dia que se está caminhando para o buraco, culmina com o dia em que o ônibus pega o maior trânsito, o motorista decide fazer turismo quando a pista está livre, indo lentamente, e há alguma dupla de matracas de voz rançosa atrás de você discutindo como a tv lhes explicou que a vida é miserável, há perigo por todo lado, a economia vai mal, o clima está se deteriorando e eles não podem fazer nada, além de repetir a mesma reclamação um para o outro 8 vezes durante a viagem. É engraçado, mas me agüento, durante todas às 2 horas, me agüento também quando chego em casa, quando sigo pelo corredor até meu quarto, quando abro a porta do quarto, quando acendo a luz pressionando meu dedo sobre o interruptor, quando fecho a porta girando sua maçaneta. Não agüento mais. Meu corpo dói, tudo dói, não posso me controlar, quebro. Tic-tac, tic-tac, boom!

6. Boom!

Sou emocionalmente retardado. Demoro vinte e oito dias e quatorze horas para realmente sentir qualquer coisa realmente profunda, um sentimento de real impacto ao meu ser. Explode, tudo explode. A garota com quem eu planejava passar o resto da minha vida não está mais comigo. Ela me esqueceu na primeira oportunidade. Mal giro a maçaneta, caio, meu corpo não pode mais me sustentar, caio para a própria porta, chorando. Um choro mais profundo e sentido que qualquer outro tido desde o início daqueles vinte e oito dias. Tudo fora uma mentira, tudo que ela disse que sentiu por mim evaporara num passe de mágica. Há um buraco no meu peito e ele gira engolindo tudo que o cerca, destroçando e pedindo por mais.

Estava anestesiado quando acabamos, essa é a explicação. Não esperava mais nada, estava conformado com a apatia com tudo que esperava ter junto dela, a partir dela, e nunca tive. Pensei que todo aquele nulo pela vida que se formara em mim se manteria exatamente assim, com ela ou sem ela, e que a resposta era encontrar alguma nova força para me movimentar. Tive essa força me movimentando para longe dela. Só que passado esse mês longe, essa apatia foi-se, a terra foi limpa pelo vento. Todo o desejo de estar com ela, a garota que amo, estava escondido em baixo da terra, dessa raiva por todo o meu esforço inútil, e assim com a ventania veio mais uma vez a superfície. Todos os músculos que reforçara na minha mente ao seu lado, mais uma vez estavam lá amostra em carne viva, só que agora sem o material que os compunha: sua presença. Agora, só buracos, buracos a doer. Buracos cheios de perguntas.

- Como alguém depois de tudo que passou comigo pode deixar tudo de lado?

- Como ela, depois de toda a luta que tive contra seus problemas para que ficássemos juntos, não podia ver nessa situação, nada mais que si mesma? Meu deus, o quanto eu me joguei fora em todo esse tempo que estávamos juntos, para dar prioridade a nós dois estarmos bem, e agora, ela não pode ceder nem um centímetro.

É insanidade esperar diferença no que sempre foi a mesma coisa. Raiva e sofrimento se amontoam, e faço, o que sempre fiz de melhor, escrevo uma carta. Detalho tudo, cada coisa que fiz por ela, e que esperei de volta, só para ficar olhando para o ar. Detalho sua falta de esforço por lutar pelo que é certo. Detalho com raiva, querendo uma reação, qualquer reação, qualquer coisa diferente daquilo que não tive nesse mês vindo dela. Não digo que a amo, não digo que a quero de volta, não posso dizer isso, não posso dizer o quanto sofro sem ela, não assim, não grátis.

Quando estávamos juntos não houve um dia que não falasse com ela, que não perguntasse como estava. Passara um mês sem fazer isso, não com ela, só com o fantasma. Mas agora, não havia mais possibilidade de espera, precisava de todos as respostas, e precisava de todas elas imediatamente. Mando o email e fico na frente do computador, a eternamente apertar reload, esperando a sua resposta. Imagino onde possa estar, se já leu e não quis responder, se o email realmente foi, ou se deu algum erro. Se mandasse de novo, seria paranóico?

À noite, depois de horas de imobilidade, da impossibilidade de fazer qualquer coisa senão esperar, e esperar contando cada milésimo de segundo, ela responde, diz que estou certo de tudo que escrevi e que eu estava certo em acabar, não questiona, não desenvolve uma única linha, e completa dizendo que espera que a gente possa se manter amigo. É pura conformidade. Imediatamente começo a escrever outro email, apontando essa sua conformidade, como não luta por nada. Preciso de respostas, a máquina de sofrimento tem de fazer sentido. Ela me responde por msn, pergunta o que eu quero, fala para ligar para ela. Ligo e discutimos no telefone, continuo como o disco quebrado a repetir tudo que fiz e tudo que não fez. E ela agora reage, mas reage para falar o quanto eu tinha problemas e o quanto ela se adaptou a eles.

- Fui eu que me neguei a mim mesma para ficar do seu lado. Eu que fiquei aceitando ação sobre ação sua que era insensível quanto a mim. Esperar um pouco porque me atrasei, gastar comigo como se eu fosse uma princesa, é isso que todo homem faz por sua mulher. E você sempre me disse que gostava daquelas festas!

- Não, eu gostava de estar com você. Para mim, aquelas festas eram me empanturrar de salgadinhos, pois não tinha nada melhor para fazer – ela falava das festas a qual ela me levava, festas de casamento, festa de família, coisas assim. Sim, ela conheceu um amigo meu por acidente numa festa, eu conheci toda a família dela e todo mundo que ela conhecia, pois se ela me chamava para algo, eu dizia sim, já que o que eu queria era ficar com ela, não importa onde, enquanto que toda festa que eu a chamava, recebia um é muito longe, mas esse horário não dá.

Discussões são como um disco que cada vez que uma faixa gira, a agulha arranha e volta para trás, retomando tudo, mas avançando no fim um pouco mais para arranhar de novo e retornar ao começo. Se você repetir a mesma coisa várias vezes, talvez, cada vez lembrando de algo novo, ou talvez rearranjando a ordem das palavras, ou falando algumas mais alto que você falou da última vez, a outra pessoa vá entender o que você está falando. Todos devem acreditar nisso, pois não haveria outra explicação para enormes discussões que em nada ninguém concorda. Ela começa a chorar e me pergunta o que eu quero.

- Isso não interessa aqui, é você que tem de me falar o que você quer!

- Não interessa.

- Droga, por que você tem de ser sempre assim.

- É você que tem de me dizer o que você quer com tudo isso. Senão me deixa em paz.

- Não, você sempre faz isso, você sempre quer sair ganhando, você sempre quer que eu faça tudo – começo a chorar.

- Ok, então é assim que eu sou, não gosta, me deixa em paz.

- Droga, eu te amo!

- E o que isso quer dizer?

- Eu... eu... te quero de volta.

- Me deixa em paz. Por que você tem de fazer isso comigo, por que tem de me torturar desse jeito? Eu só quero ficar aqui no meu canto quieta.

Sua mãe toma o telefone e fala que ela está mal, e para eu não ligar mais. Me controlo, digo que ela está certa e desligo.

Falamos de novo na internet, ela fala que sua mãe lhe tomou o telefone, mas que tudo que queria falar já falou. Imploro-lhe para conversarmos pessoalmente. Ela aponta que ela queria fazer isso quando acabamos, e eu não aceitei. Diz que não está com tempo livre para ficar se deslocando até mim. Mas depois de muita conversa, aceita, vamos nos encontrar em dois dias, numa quinta. Não durmo naquele dia, como também não durmo no dia seguinte. Passo o dia imaginando o que vamos falar, sei que do mesmo jeito que não poderia me controlar a sua frente naquele dia após termos terminado, olhando para os seus olhos, sentindo que ela sente, igual ao que eu sinto por ela, me entregando totalmente a ela, talvez agora seja o mesmo, e falando tudo olho no olho, tudo se acerte. Porém, ao mesmo tempo tenho medo que ela fale comigo de alguma forma nesse meio tempo, seja pela internet, por mensagem, ou me ligando, temo que possa encontrar alguma desculpa para cancelar nosso encontro, que vá mudar de ideia, sabendo o que um encontro assim possa despertar.

Chega o dia, tomo banho, faço a barba, tento tirar um pouco a minha aparência de morto. No ponto de ônibus, os ônibus passam e nada do que eu preciso pegar, começo a desejar para o senhor dos ônibus que ele venha a tempo, que chegue lá na hora certa. Sei que se a criatura que controla os transportes me entregar lá na hora certa, falarei o que quero falar e tudo vai dar certo. O ônibus que quero chega. Não paro de encenar em minha cabeça nossa conversa. Marcamos em sua terra, depois da poça, em um McDonalds. Chego mais cedo, como sempre e a espero. 20 minutos atrasada, ligo para ela. Está alegre, conversa com alguém.

- Dois segundos, só deixa eu responder aqui.

- Oi, ..., teve algum problema para vir?

- Não, não, já estou a caminho, tive que resolver umas coisas, mas já estou a caminho.

Ela chega, senta a minha frente e me pergunta o que eu quero falar, tento segurar suas mãos sobre a mesa, mas ela as afasta. Quando faz isso, uma nova bomba estoura, começo a chorar. Falo que a amo, que a quero de volta. Ela é fria, seus olhos são frios. Não há nada neles. Diz que eu tenho lágrimas de crocodilo, me pergunta se não consegui ficar com as garotas que queria nesse meio tempo. Diz que não me quer de volta e que seguiu com a sua vida. Saio de lá morto, pego trânsito.

7 – Início

Comprei uma maçã. Ok, pode ser meio ridículo, mas quero lhe dar uma maçã. Acho que uma maçã pode representar o que sinto por ela. Esse será nosso terceiro encontro, e já quero pedi-la em namoro. Será muito cedo? Sim, se só nos conhecêssemos desses dois primeiros encontros, mas a gente se conhece há dois anos. Dois anos falando, eu já sei muito bem o que eu quero. Quero ela. Marcamos de nos encontrar na porta das barcas. Ela atrasa meia hora, cheguei lá quase uma hora antes do marcado, não querendo me atrasar, mas não me importo em esperá-la. Chega, a beijo, seguro sua mão. Vamos ao Mam ver uma exposição. No caminho, lhe revelo a maçã.

- Não gosto de maçãs, pode ficar com ela.

Pode se dizer que foi uma longa jornada até esse ponto. Como já disse, a conheço há dois anos, e muita coisa ocorreu nesses dois anos. A conheci numa festa da faculdade. Era uma caloura, um período abaixo do meu. Confesso, que não me despertou interesse imediato, mas tivemos uma boa conversa sobre filmes, tinha um bom gosto, parecido em alguns aspectos com o meu. Nada aconteceu nessa festa, nem poderia, nesse tempo só havia uma pessoa em minha cabeça e essa era Elisângela. E como gostava infinitamente de Elisângela, eu só ficava com outras garotas quando ela fazia alguma coisa que me frustrava além dos limites, e esse não era o caso naquela semana.

Acredito que se passaram uns quatro meses, quando decidi seguir o conselho de minha amiga Clara, uma das minhas psicólogas de plantão. Ela me disse que meu problema era que só me interessava pelas pessoas quando tinha motivos ulteriores, não fazia amizades, ou melhor não fazia amizades com garotas por quem poderia naturalmente desenvolver sentimentos. Nossas conversas mesmo eram um exemplo disso, eu usava Clara para falar dos meus problemas com garotas, e ela me usava para falar de problemas com o namorado. Precisava de amizades sem esse sentido utilitário, precisava disso para esquecer Elisângela. Logo, comecei a garimpar nos meus conhecidos do dia-a-dia e do Orkut, quem eu poderia desenvolver uma amizade. Umas cinco a oito pessoas com quem poderia desenvolver uma amizade sem objetivos imediatos. Tanto de mulheres, quanto de homens, logo que amigos homens poderiam eventualmente me apresentar a grupos com mulheres as quais eu também poderia desenvolver uma amizade sem fins utilitários. Também não excluindo mulheres pouco atraentes, ou gordas, já que essas também poderiam me apresentar a amigas atraentes. E assim foi que comecei a falar com ela pelo msn. Naquela festa em que a conheci e também conheci outros calouros, ela fora a única pessoa que achara notável de alguma forma. Isso, sem ter me despertado um interesse inicial, o que era estranho. Logo, estávamos tendo longas conversas no msn.

Começando um novo semestre, nos encontramos em três matérias juntos. Conversávamos no msn, conversávamos nas aulas, conversávamos no intervalo, e meu interesse crescia. Só que seu interesse era estranho. Ela se interessava pelas conversas, às vezes esperava por mim para caminharmos juntos até as barcas no fim do dia, e quando chegava, e eu já estava em algum lugar sentado fazendo alguma coisa, vinha até mim. Isso de um lado, do outro, sempre recusava todas as minhas propostas de sairmos e fazermos alguma coisa, sempre dava alguma desculpa esfarrapada:

- Vamos numa festa?

- Eu não gosto de festas.

- Vamos tomar uma cerveja num bar?

- Eu não gosto de tomar cerveja.

- Vamos tomar um café numa lanchonete?

- Eu não gosto de café.

- Vamos tomar um chá então?

- Eu não gosto de sair para lanchonetes, sou agitada, prefiro festas!

Quando tentava tocá-la de alguma forma que lhe demonstrasse o meu interesse, ela tinha a tendência de se afastar, literalmente, andando para trás se estivesse em pé e pulando de cadeiras se estivesse sentada. Logo, o que poderia fazer? Não era naquele presente espaço de tempo o tipo de cara que chega para uma garota e fala: eu gosto de você!; mas sim o cara que nota em seus olhos o desejo, a beija e só uns meses depois pensa em falar algo. Porém, não tinha muita escolha e meu corpo não deixava de demonstrar o que estava acontecendo, um dia vendo a chegar, vinda em minha direção, meu coração começou a bater forte. Nos encontramos numa festa da nossa matéria uma noite, foi nessa que me revelou que tinha lido todos os textos que lhe mandei. Pensei: pode ser hoje! Mas no meio da conversa, chegou um outro amigo seu, e do nada, seu interesse foi-se todo para ele. Os olhos que estava esperando há tanto tempo para mim, lá estavam para ele. É... ok, foda-se tudo aquilo, fui embora. Tinha Fernanda, e as coisas com ela pareciam estar caminhando numa direção boa.

- Não me lembro de ficar andando para trás.

- Ah, mas você fazia isso.

- Eu já gostava de você, mas te achava meio maluco, imprevisível.

- Você teria ficado comigo naquela festa?

- Não sei, talvez, minha cabeça tava em outro lugar naquele dia.

 - Você também tinha falado um tempo antes que tava com aquela roqueira, vocalista de uma banda.

- Eu não falei isso, eu só disse que fui num show dela.

- Mas você tava com ela.

- Não era sério.

Estamos andando pelo Mam, me afasto para ver um quadro. Ela chega ao meu lado, e segura a minha mão. Meu coração bate forte, é a primeira vez que faz isso, geralmente sou eu que vou de encontro a sua mão, é a primeira vez que faz isso de livre e espontânea vontade, a beijo, ela sorri.

O semestre acabou e Fernanda estava em minha cabeça, fomos nos afastando. Depois houve o que houve com Fernanda, mas mesmo assim não pensava mais nela e no semestre seguinte peguei poucas matérias na Uff, nossos encontros se tornaram raros. Quase um ano depois, outro semestre, pegamos uma mesma matéria. Nas aulas, a observo, como anota tudo com letras minúsculas no seu caderno rosa - um deles, ela tem um para cada coisa de cores diferentes, e trata cada um de forma diferente. Mas não é a mesma coisa, não a vejo como uma opção, não ali, não naquela realidade, se não foi nunca será, não faz diferença. Porém, nos falamos e mesmo não a vendo como uma possibilidade romântica, também não a vejo como o oposto, nunca tomo com ela todas as liberdades que se tomariam com uma amiga, nunca lhe falo de certos assuntos, de certos assuntos que nunca se fala com alguém a quem se tem interesse. Marcamos de ir numa festa, eu, ela, mais alguns amigos. Nada demais na minha cabeça, só companhia para ir numa festa, me socializar e depois ir a caça. É no espaço embaixo do bloco D da universidade, estamos andando entre as pessoas, vem uns marmanjões sem camisa e começam a dar em cima dela. Não penso, reajo imediatamente, me coloco entre eles e ela e falo que já está acompanhada. Perguntam o que eu sou dela, respondo que somos casados. Penso: droga, eu gosto dela! Eu realmente gosto dela! Continuamos a andar pela festa, mas não tinha mais jeito, minha cabeça já estava pirada: o que eu vou fazer?

Aquele ano para mim fora um nulo, tive mais mulheres que em qualquer outro ano da minha vida até ali, mas depois de Fernanda, nada importava. Ficava com as garotas por seus corpos, pelo sexo, mas não me importava com nenhuma. Meu grande orgulho naquele tempo era ter mantido uma relação continua por exatos 4 meses. Fora com três garotas diferentes, mas valia, pois no mesmo dia que acabava com uma, à noite já estava com outra. A questão é que não acreditava mais ter a capacidade de me importar por alguém, de realmente desejar uma garota daquela maneira. E puft, lá estava a verdade se revelando naquela festa: eu gostava dela, eu ainda era capaz de sentir isso por alguém. O que poderia fazer? Me lembrava como tudo não rumara para nenhum lugar da primeira vez, mas também eu não tentara de verdade, quantas garotas naquele ano eu não conseguira ler, não aparentavam inicialmente ter um interesse por mim, e mesmo assim indo a frente, eu acabará ficando com elas e muito mais. Mas também esse não era o único problema, como se chegar numa garota que você conhece, e pior que você conhece há dois anos, que você conhece e que te conhece? Uma coisa é uma completa desconhecida, isso é fácil, mas alguém que você conhece, é insano! Logo, comecei a agir com ela naquela festa como se fosse uma garota que acabei de conhecer. E ela reprisou suas ações passadas e começou a se afastar.

- Eu achei que você estava bêbado e de brincadeira comigo.

Numa hora fui no banheiro, no caminho comecei a analisar o que poderia estar fazendo de errado, o que poderia fazer diferente. Simples, faria o que nunca tive coragem de fazer, chegaria para ela e diria: ..., eu gosto de você! Quando voltei tinha um novo cara em cima dela. Fui afastar ele, mas ela disse que não entendia porque eu estava fazendo aquilo. O cara viu o desconforto dela comigo, e veio me perguntar se eu sabia o que ela queria, já que aparentava que ela não me queria ali. Logo, sentei ao seu lado e lhe perguntei: quem você quer aqui, eu ou ele? E ela respondeu:..., você tá chato desse jeito; Ok, fui embora. Se ela não me quer aqui, chega, não interessa o que eu acredito estar sentindo. Bebi o máximo possível, para ver se isso me surtia alguma efeito, de esquecer tudo, e parar a conversa em minha mente, mas não deu em nada. Sempre tive esse problema, só consigo ficar bêbado, se meu desejo para isso fosse maior que o resto, e naquele momento não era, só queria pensar nela, e pensar o que estava acontecendo. De um lado: eba, eu ainda tenho sentimentos; do outro: ela me acha um chato e prefere ficar com outro. Fiz a única coisa que poderia fazer naquela situação, encontrei outra garota e passei o resto da noite com ela. Wanda, pequena, loira, nem era da faculdade, só estava aqui na cidade naquela semana para o show da Madonna. Lésbica, não ficava com um homem há um ano, só garotas, mas algo em mim despertava algo nela, eu parecia um anjo para ela. A maldição do anjo, sempre ali. A textura de seus seios me fascinava, nunca tocara algo como eles, era de um macio diferente de seios normais. Descobri mais tarde que aquela textura era comum aos seios de garotas magras que já foram gordas. Teríamos ficado mais tempo juntos caso não tivesse que voltar para sua cidade alguns dias depois. Mesmo assim enquanto ficávamos no meio da festa, não deixava de olhar para os lados, de procurar ela nos arredores. Num momento a vi sentada num canto com o cara de antes, decidi ignorar tudo aquilo.

- O cara era muito chato, ele ficou à noite toda falando da tartaruga que ele tinha em casa. E eu não te mandei ir embora, só disse que você tava chato. Naquele barulho nem entendi o que você perguntou. Você não pode falar nada, em nenhum segundo você disse que gostava de mim, para mim você tava bêbado.

Depois daquela noite, nos esbarramos na faculdade, mas ignorei tudo que se passou naquela festa e ela fez o mesmo. Saímos para uma festa, tentei demonstrar que gostava dela, e ela ficou com outro cara, para mim não havia nada mais certo que isso. Foi uma besteira pensar nela daquela forma. Provavelmente em alguns dias, apareceria com um “namorando” em seu Orkut. Isso não aconteceu, algumas semanas se passaram e veio o ano novo.

Dia 1, cinco horas da manhã, andando pela Nossa Senhora de Copacabana, após uma maratona de passar à noite procurando um motel vazio e barato – algo impossível no fim do ano -, acabara de deixar a garota que conhecera na mesma noite em seu ônibus. Marquei de lhe ligar no dia seguinte para irmos no motel que não encontramos. Já durante a espera do seu ônibus, sei que isso não vai acontecer. Perdi todo meu interesse no caminho, não me importo pela garota, não olho para ela e penso, essa é a garota que quero para mim, que quero cuidar, então que diferença faz, para que fazer um esforço de marcar algo, gastar dinheiro num motel, para algo que não fará a mínima diferença no final da história. Não posso negar, gosto dela, e desde aquela festa na Bloco D da universidade, não sai de minha cabeça. Não tenho escolha, foi um ano sem sentir nada, esse tipo de coisa não acontece comigo com facilidade, não posso jogar isso fora, ela tem de ser minha.

Saímos do Mam, fomos tomar um sorvete num McDonalds da Rio Branco, estamos voltando agora para as barcas, e ainda não lhe pedi em namoro, não senti o momento ainda propício para isso.

Da minha decisão para nosso primeiro encontro, foi uma outra jornada de um mês. De muitas conversas no msn, de muitas indiretas até eu me encher, e falar: eu gosto de você!, a passar mais tempo convencendo ela que isso não era uma piada, e que eu não falava isso para uma diferente a cada duas semanas, a eu convencer a amiga dela a me ajudar e a empurrar para sair comigo. Nosso primeiro encontro foi ao cinema, do seu lado da poça, para ver um filme que vira duas semana antes, mas que ela queria ver. Um filme bem longo de três horas, que ela lembrava que um amigo havia falado que não era bom: eu. Nos encontramos na barca, andamos até o cinema, sentamos nas poltronas do cinema e começamos a falar. Tudo vai bem, faço a rir de vez enquanto. Penso: chegou a hora devo beijá-la. Mas não veja aberturas, fico empurrando. Começam os trailer, tenho que achar uma abertura antes do filme, não dá para lhe dar um beijo do nada no meio do filme. E... começa o filme, três horas de um filme que já vi e não gostei, pensando a hora que poderei beijá-la. Acaba o filme, comentamos ele por uns dois segundos, e depois da tortura das três horas, a beijo, seus lábios respondem, e depois ela fica desorientada e começa a correr. Não literalmente, mas levanta e sai andando, como se precisasse sair o mais rápido possível do cinema. E eu vou atrás com um sorriso em meus lábios. Ela diz que é melhor irmos para a praça de alimentação, conversar. E do cinema até lá, anda olhando para os lados como se estivesse sendo espiada. Sentamos e ela me pergunta o que eu quero.

- Eu gosto de você, quero te conhecer melhor, ver em que isso pode se desenvolver!

- Olha, eu sou uma garota séria, não sou de só ficar por ficar. (Vide homem tartaruga, mas eu não sabia disso no momento.) Tem vezes que eu saio com alguém e a pessoa fica querendo ficar comigo, mas eu não me interesso, e não fico só porque saímos.

- Já passei por isso também. Já fiquei plantado uma vez num ponto de ônibus porque uma garota se recusava a pegar o ônibus dela, antes de eu fazer alguma coisa, de beijá-la.

Conversamos mais, dividimos o que cada um espera de uma relação, e no fim vamos para um canto do shopping e ficamos. Saio de lá bem, mas ao mesmo tempo meio paranóico sobre o futuro, ela parece muito incerta. E no final, quando andamos de volta para as barcas, vou segurar sua mão, e ela puxa ela de volta.

O segundo encontro é bizarro, shopping mais uma vez, já saturava minha cota de shopping do ano. (Não tinha a mínima ideia do que estava por vir.) Mas era o único lugar que ela se sentia confortável de ir. Niterói não tem nada, e o Rio é muito longe para ela. Passamos o dia andando no shopping, nos sentando entre brechas de pessoas gordas que aparentavam ser da espécie que mora no shopping. Além dela sempre, no seu estado incerto, alguma horas aceitando tocar a minha mão, outras horas não. Algumas sentindo vergonha de ficar onde estamos, outras não tempo problema. Na maioria até aparentando ter medo de me olhar por muito tempo nos olhos. E tudo isso só me deixando mais intrigado. É um desafio, um desafio só meu.

- Ela era extremamente tímida, conseqüência de repressões no seu ambiente de criação, e sem experiência em algumas áreas de comportamento social, dando a ele um senso de propriedade sobre suas emoções, de construtor de seus momentos. Um senso que o instigava, ainda mais após o um ano de experiências constantes com garotas, que estavam além de usadas e abusadas, e que constantemente vazam traumas de momentos com outros para ele – disse o homem careca de terno branco que se intrometeu no meio da narração.   

Tudo aquilo, apesar de ainda me deixar paranóico, só fortalecia a certeza que a queria para mim. Marcamos o nosso próximo encontro no MAM, e estava decidido que nesse a pediria em namoro.        

Estamos na porta das barcas, é sábado, só há barca a cada 30 minutos, e chegamos exatamente quando a última estava saindo. Logo, tenho 30 minutos para lhe pedir em namoro. Numa hora a abraço por trás, colocando meus braços ao redor de todo o seu corpo, ela pula para fora. Parece mais nervosa do que o normal.

- Você não pode fazer isso, o que você acha que eu sou?

- Por que não?

- Porque não. Ainda não estamos num grau assim de relação.

- E o que falta para chegarmos nele?

- Não sei.

- ..., você quer ser a minha namorada?

- O quê? Você tem certeza disso que você está falando?

- Sim, tenho toda a certeza do mundo, eu te quero como a minha namorada!

Ela sorri, a beijo.

- Isso é um sim, então?

- Sim.

Enquanto esperamos a barca, a abraço segurando-a por trás, meus braços prendem todo o seu corpo contra o meu. No ônibus de volta, como a maçã que lhe trouxe e ela recusou.

Comente com o Facebook:

Nenhum comentário: