O Homem de Ferro de Jon Favreau

Posted on 18 fevereiro 2010 by admin

Tony Stark não tem um vizinho tocando funk em uma de suas janelas, outro tocando forró na outra, e o esgoto passando por baixo de seu chão. Não! Nem passa o tempo vendo filmes, assistindo tevê, indo para lugares insólitos fazer coisas para outros, ou escutando outros lhe falando o completo inútil. Não! Ele acorda e faz armas. Ele acorda e expande a sua mente ao horizonte. Tony Stark é dono de seu mundo! Quando não está construindo a realidade ao seu redor, ele sai e a divide com o resto, aproveitando o meio tempo para saborear jovens jornalistas com um bom vinho.

Mas qual é o ponto de construir mísseis, se você não tem a chance de atirá-los? Qual é o ponto de comer pizza, escutando o último cd de Pete Yorn, enquanto escreve um comentário sobre o filme Homem de Ferro? Qual é o ponto? Para Tony Stark e suas armas é uma questão de morte e renascimento. É tirar alegres fotos com jovens soldados, que nunca tiveram a chance de questionar para onde estavam indo, só se perguntar se iriam ou não poder comprar o DVD do filme, no caso de ainda terem visão ao voltarem para casa; e então ser subitamente, no meio de um mar de balas, suas próprias filhas, retirado deste mundo, e arrastado pela poeira do deserto, para ser reinserido no útero. É necessário um grupo genérico de terroristas, de olhos frios, homens maus, não tanto quanto velhas senhoras de igreja, para quebrar seu mundo alegre de vinho e o retornar ao buraco escuro da onde veio para repensar a sua vida. E, assim, com um cientista fracassado como consciência e bando de funcionários revoltados do McDonalds lhe apontando suas próprias criações, ele finalmente vê como tudo o que fez até então afetou as massas impotentes que nunca souberam como ejacular para o horizonte.

Tony Stark, então, com um eletrodo em seu peito, a impedir que os estilhaços de sua vida passada acabem com seu coração, tem de construir um novo corpo, para finalmente sair do útero e atirar suas próprias armas. Finalmente se tornar o homem que não só passa o seu tempo inventando novas armas, e degustando jovens jornalistas, mas que também toma responsabilidade por suas criações e sai por aí batendo nos outros que não as usam direito. Deixar de ser só um potencial a oferecer potência a sociedade, e passar a assumir esta potência para si, tomando a responsabilidade por todas as conseqüências do que faz. Claro que isso não é suficiente, para completar sua transição para um novo homem, um homem de ferro, ele também tem de matar o seu pai, aquele que distribui sua potência para qualquer um, e não toma nenhuma responsabilidade, a força que o condicionou a sua vida passada. Isso para poder finalmente assumir sua própria paternidade como um herói. Um homem dono de seu mundo e do mundo ao seu redor, que passa seus dias a criar poder, a mastigar jovens jornalistas, e atirar, ejaculando não só no horizonte, mas também na cara de quem o possa contrariar.

O Homem de Ferro é um bom filme, e já chega com o selo de qualidade de Robert Downey Jr., que além de um bom ator, sabe escolher os papeis que faz. A direção de Jon Favreau, que também faz uma ponta no filme como um dos executivos de Stark, é capaz. E o roteiro é bem equilibrado entre ação, reflexão e emoção, respeitando a história original de Stan Lee, Jack Kirby, Larry Lieber e Don Heck, que já continha toda a trama do filme. Resta ao espectador após obter seu entretenimento, chegar em casa e morrer de vergonha por não ser capaz de construir em seu porão seu próprio propulsor eletromagnético, com capacidade de o levitar no ar.

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