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Sangue, Pipoca e Amor

Posted on 25 novembro 2009 by admin

sangue, pipoca e amorDesde os tempos em que nos encontrávamos a comer insetos em cima de árvores, ou quanto fomos para os lagos tentar ser peixes, e por fim quando acabamos a correr desesperadamente pelos campos pintados de sangue a exterminar da face da terra qualquer coisa que aparentasse ser uma ameaça, o homem para atingir seu potencial necessitou de rituais imagéticos. Talvez ainda não tivéssemos desenvolvido a capacidade de reproduzir imagens em nossa cabeça, talvez só um ou outro indivíduo o tivesse, e o resto devesse ser domesticado dessa forma, mas a reprodução das imagens em movimento sempre foi necessária. Se você quisesse matar um grande animal, ou atravessar um rio infinito cheio de mistérios, você não o faria sem antes ter experienciado o evento através de imagens numa caverna, ou na areia da praia.

Com o tempo, muito mais potencial foi encontrado nesse mecanismo. Templos, igrejas, o que hoje conhecemos meramente como instrumentos de mentes ilusórias para a adoração de deuses falsos, foram um dia muito mais: eram máquinas. Máquinas a serem usadas pelos melhores indivíduos da sociedade para alcançar em suas mentes, através de símbolos, imagens em seqüências a brilharem com luzes artificiais no meio de arquiteturas grandiosas, lugares, idéias, que nunca poderiam tocar em seu cotidiano entre os homens comuns numa existência abstrata a fingir-se de concreta.

Chegamos então aos dias atuais, e a essa porta ainda aberta através do cinema, talvez ainda alguns anos antes dela ser por sua vez aberta por um fio diretamente em nosso córtex cerebral. Vivemos numa sociedade globalizada há mais ou menos uns dez mil anos, mas só agora as imagens em movimento começam a fluir de forma a criar uma chave, a dar a possibilidade da liberdade a qualquer indivíduo, que por acidente possa receber o fluxo de informação certo em sua cabeça. Não mais a liberdade está limitada a uma terceira geração de filhos de comerciantes e guerreiros, agora até aquela garoto sujo de sangue das entranhas de um porco, escondido em um porão, pode ter a chance de receber a informação certa que o colocará a caminho do infinito.

Numa nação de escravos, infestada de subserviência, comportamento de vítima, de fracasso, o filme certo, para a pessoa certa, no momento certo, pode mudar tudo. Livros, quadros, músicas, não tem esse potencial. Talvez só histórias em quadrinhos tenham um potencial maior, porém talvez por isso mesmo acabem marginalizadas. E é claro, nem tudo tem um único lado, para cada novo indivíduo salvo, milhares são condenados a só servirem como veículo das fluxos inúteis de informação. Mas talvez esse seja o pagamento para alguns, em quantidade cada vez maior, não mais terem de abaixar a cabeça a reis, a ladrões de excelência, que só deveriam receber uma lamina em suas jugulares.

É claro, porém que deve ser lembrado que o cinema é só uma chave. Uma chave que deve ser deixada na porta, após esta ter sido atravessada. A vida não foi feita para ser assistida. Após o ritual imagético inicial de nascimento, ela deve ser vivida. A existência só é entediante para o indivíduo entediante. Pois, qualquer um, em qualquer lugar, com a pessoa certa ao seu lado, com a motivação épica certa em seu interior, pode produzir uma verdade que nunca poderia ser tocada por uma imagem.

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Adeus, alô, alô, a carne vai!

Posted on 23 junho 2009 by admin

Maio, 2008

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Dançar o carnaval, brincar de carnaval, pular carnaval, o período para se livrar de suas inibições… é… ah… quem sabe… não! É preciso primeiro ter inibições para delas se libertar. Dificilmente algo diferente do que faço toda semana, não? É… tem mais dias. É… tem mais pessoas, mais tipos distintos, mais tipos indistintos, mais variedade em um só lugar. Coelhas, fadas, diabas, anjas, escocesas, professoras de bioquímica…

Desloco-me para lapa. Ando nas ruas cheias, entro em festas, conheço pessoas, estendo meu copo vazio para ser preenchido por garrafas alheias. Arcos brancos, luzes amarelas, grama verde. Brinco, claro, brinco com belas garotas. Olho, olha. Falo palavras soltas, sorri. Agarro-na pela cintura, beija-me. Nada novo, nada que o mesmo não seja, só que por mais dias seguidos. Sim, cinco. Bem produtivo, bem prazeroso, bem colorido.  Já tentei algo diferente, não? Sim, segui blocos, o mesmo que muitos fazem. Segui uma bola preta a correr num rio branco. Massa de gente, calor suor, marcha. Encontro amigos, perco amigos. Uma onda corre para um lado, uma onda corre para o outro. Assumo parte de uma massa orgânica a deslizar num mar de suor composto de corpos, a seguir uma música, uma batida indistinta, uma batida de coração de mãe a ecoar nas mais distantes memórias. Algo novo por trinta minutos, algo novo por uma hora, algo velho logo depois. Tédio, nada mais a massa orgânica tem a me dizer. O rio seca, só sobra um bola batendo de um lado para o outro. Mas tento, persisto, ou sou obrigado a tentar e persistir, pois encontro uma beleza a quem aquilo parece ainda algo dizer. Lábios grandes rosados, purpurina sob olhos verdes. E a bola vai para um lado, e ela a segue, e eu sigo a seu lado. E a bola vai para o outro, e ela a segue, e eu sigo a seu lado. Rua eternamente igual, eternamente a mesma. Música eternamente igual, eternamente a mesma. Som de poucas frases, de pouca inspiração, escrito por aqueles que já foram, e logo nada foram com o que escreveram. Não posso me embriagar, pois preciso estar sóbrio. E estando sóbrio, cansa, mas vale a pena, pois em vez de acabar depois alegremente num canto sombrio a analisar meu tédio, acabo em um quarto vermelho, a degustar a garota que me fez seguir aquela bola de pingue-pongue. Rato de laboratório por um dia, a testar a sua resistência de fazer o mesmo sem parar, correndo de uma lado para o outro em um corredor, para no fim ganhar o queijo.

Batida, corpos, bebida, múltiplas fantasias. Há aqueles que estão sempre lá, mas não sabem o que querem. Vão, por ir, por ser o que todos fazem, por não terem alternativa, e por quererem a ter fora do que geralmente fazem. Culpado, talvez se encontre aquele que narra. Há aqueles que vão como turistas nas ruas as quais passam todos os dias. Turistas por suas ruas, agora exóticas. Vão para a repressão da apreensão, para rir embaraçadamente no primeiro momento que lhes é sugerido algo verdadeiro sutilmente no ouvido. E há também aqueles que realmente tem um grupo de inibições. Inibições que assumem orgulhosamente, para então desinibi-las. Vai o papai, vai a mamãe, vai o vovô, vai a titia. Todos finalmente a realizar seus desejos reprimidos de por alguns dias do ano beber numa rua movimentada, em vez de num bar parado, e andar de um lado para o outro, apertados entre si ao som de música ruim. Um sonho encantado. Provavelmente, na Uruguaiana nunca foram. Pelo menos, não para cantar, só para comprar. Pelo menos, cantam. Cantam para comprar a desinibição da apreensão pela inibição. Todo ano estão lá, e todo o ano fazem do mesmo, o novo. O novo mesmo! Pego carona com o papai bêbado de uma das beldades que conheci. Papai bêbado dançando no carro do Centro a Tijuca, e clamando para o mundo que está sóbrio. Danço o samba rodoviário.

Presente, pois era passado. Presente sem bloco, só arco. Primeiro chegue lá, por favor! Sim, sim, terrível transito até lá. Trinta minutos parado do lado do sambódromo, observando a procissão. Sambódromo, made in Brazil, para not made in Brasil. Lugar que nunca vou entrar, pelo menos durante o carnaval. Não sei sentar, nem assistir. Não faço em casa, imagine pessoalmente. Não sei também vestir uniforme e seguir marcha. Claro, entendo o conceito de pular a batidas, mas não faço esse tipo de coisas num quartel. Não sou um soldado de poucas roupas, nem gosto de treinar um ano para isso.

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Enfim, lapa! Saio a procurar meus amigos: anarquistas; homossexuais; roqueiros heavy-metal; o que aparecer primeiro. Encontro irlandeses e uma garrafa de vinho. E andando mais um pouco, encontro uma coelha loira de olhos azuis. Esqueça Alemanha, esqueça os escandinavos, eu amo o Rio Grande do Sul! Mais vinho, com os anarquistas. Algum whisky com os homossexuais. Os roqueiros já estão inconscientes. Chove! Corro entre gotas d’água que brilham no ar entre os poucos que se atrevem a fazer o mesmo. Medo de derreter? Minha coelha gaúcha fica no seco, com sua amiga abelha recém surgida. O sul também produz mel. Mel nada doce, a reclamar de tudo. Irritante. De onde sai esse tipo de gente? A abelha é mesmo uma abelha, e nada se compara com a minha coelha, mas é tão irritante, insuportável, desagradável. Fico excitado. Quero está, quero aquela, perco todas, acabo no Espírito Santo.

Lapa vai, Lapa vem, os dias passam, faço o mesmo, faço igual, mas faço por mim, a partir de mim, será? Já notaram como a população de mendigos quadruplica na lapa nas semanas após o carnaval? E também de turistas.

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História a falar, a contar, a ninar

Posted on 21 junho 2009 by admin

5205Para você, não foi escrita! Para você, não foi inventada! Para você, não foi falseada! Pare de perder tempo contestando o que foi feito para outros. Pare de esperar igualdade daqueles que não são iguais. Pare de opinar sobre a opinião daqueles que como você a podem formular por si próprios, só porque aqueles que não a podem são tão suscetíveis a qualquer uma que lhes taquem na cara. A história não foi feita para ser conhecida. A história foi feita para ser escrita. Informação, desinformação, verdade. “Devia ser mais fácil!” Do fogo, veio. Na água, se compôs. Na terra, avançou. Ao céu, se formou. É mitologia a deslumbrar, é cenário a brincar, é história a ninar. Se algo for clamado pelo nome de verdade, saiba que é mentira. Se algo for clamado pelo nome de fato, saiba que é opinião. Se algo for clamado pelo nome de história, saiba que é mito. “Devia ser mais fácil!” Concreto, absurdo, sincero. A mão só pode tocar o que realmente pode ver. O olho só pode ver o que realmente pode questionar. A questão só pode ser feita por aquele que brinca no jardim. Outros não podem colocar a mão no fogo por você. Outros não podem naufragar no oceano por você. Outros não podem se sujar de lama por você. Salvação não virá daqueles que o fizerem, e se estes a oferecerem, saiba que é para seres pedra a construir, e nada mais. “Devia ser mais fácil!” Aqueles que batem suas asas já foram embora, a ninguém abandonaram, pois em ninguém chegaram a se importar, e deles nada nunca saberás. Aqueles que batem suas asas, únicos a uma verdadeira história pertencer. Aqueles que batem suas asas, únicos capazes de a uma escrever. Única, própria, nunca compartilhada. Todo o resto é para os que não têm asas, para os que não têm pernas, para os sem passado, sem presente e sem futuro. Resized_CrocosmiaxcrocosmifoliaHoneyAngelsDSCF0085Múltiplos, diferenciados, perdedores, predadores. A história dita única pelo cego é escrita para perdedores; toda informação dita única pelo cego é determinada para perdedores; qualquer pensamento real só pode predominar após ser feito de mitologia para perdedores. Àqueles que andam sobre a terra, os perdedores são a lei. Àqueles que têm pernas e querem voar, aos perdedores tem de tocar. Àqueles que querem a lei, a dos perdedores tem de subjugar, para a estes enfim abandonar. Perdedores a predar a perdição. Informação, desinformação, jogo. No jardim deita a inevitável falta de conclusão, na brincadeira deita todo o contraste de tudo que pode ser sabendo muito bem que não é, no desfrutar deita a capacidade de poder brincar o quanto quiser com o quanto quiser. Mito, na sombra, a tocar. História, na areia, a se misturar. Conto, no sol, a determinar. A mão, pelo jardim, avança. Sabendo que é mito, cria. Sabendo que se encontra na sombra, dá sol. Sabendo de seus próprios movimentos, escreve. E o fogo se fez, se espalhou e tomou. E a água cobriu, misturou e ejaculou. E a terra confrontou, esmagou e obrigou. E tudo foi escrito. Foi escrito, pois o que realmente foi, pouco interessa!

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Sentenciado, executado, pegue-me se for capaz

Posted on 21 junho 2009 by admin

“Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.”

Franz Kafka

Kazuhiko+Nakamura,+«Metamorphosis»+(homage+to+Giuseppe+Arcimboldo+and+Franz+Kafka),+2005

O culpado acorda uma manhã. Grande, falsa, interrogante. Nascido em um mundo ao qual não criou. Responsabilidade pela vida a qual não tem. Condenado por uma mão a qual não vê. Quer liberdade? Mentira, mentira, mentira. Acorda para parar, acorda para cair, acorda para seguir. Acorda a pouco fazer, a pouco responder, a muito culpar e a tudo aceitar. Culpado sinceramente! Estás aqui, pois aqui decidiu se encontrar? Ou estás aqui, pois outro decidiu que aqui devias decidir se encontrar? Quer liberdade? Pronto a luta estejas então, pronto ao avanço estejas pois não, pronto a decisão estejas é claro! “Sim! Aponte-me o culpado e contra ele lutarei!” Pois o aponto, e como se sentes? “Enganado! Aponte-me a outro, por favor!” Só há um. Só há um e enganado não pode ser, só enganado pode se fazer. Nascido em um mundo ao qual criou. Responsável pela vida que tem. Condenado pela mão a qual não quer enxergar. “Mas ninguém me deu as respostas!” Pois ninguém formulou as perguntas! Mais fácil o papel de servo que o de senhor. Mais fácil obedecer que tomar decisões. Mais fácil se dizer livre quando outro definiu esta liberdade. O culpado morre nas portas da lei. Grande, falsa, exclamante. Tenta sair, não entrar. Tenta fugir, não encontrar. Tenta se entregar, não tomar. Verdade, verdade, verdade. O guarda olha com vergonha aquele que quer fugir. O culpado nem decisão quer tomar sobre sua própria deserção. A lei se aborta, esperava ser constituída, não renegada por outra. “Mas tomo decisões!” Claro, claro, imagina! Pois não dormes como te deitam, dormes como agüentas. Pois não comes como te enchem, comes o que te oferecem. Pois não respiras como te intoxicam, respiras como necessitas àquilo que te mandam fazer. Pois não procrias como te dizem, mas como fazem questão de não te dizer, afim de resultar em outros culpados iguais a ti. Pois não compreendes como te mandam, compreendes o necessário a dissertes igual aos que não te contam a verdade. Imagina, culpado não és! “Exatamente!” Imagina, és livre! Livre como a multidão a multiplicar-se. Livre como a multiplicação a diferenciar-se. Livre como a diferenciação a aniquilar-se. Livre como um pássaro que fugiu para dentro, a sua própria ilha habitar. Pássaro gordo, cujas asas perderam a capacidade de voar. Nunca animal tão gordo e relaxado aparentou ser tão magro e miserável. Um miserável a morrer fugindo da decisão de constituir a sua própria lei, a implorar ao guarda da sua própria dignidade que lhe deixe sair, desesperado a entregar toda a responsabilidade a qualquer outro que não seja si mesmo.

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