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Que Venham os Merecedores do Corpo!

Posted on 02 abril 2010 by admin

Que venha aquilo que não é homem, aquilo que o sucederá, aquilo que está além do homem! Eles dividem o mesmo corpo, mas não a mesma mente. Este misero que é o homem nem realmente pode chegar a conceber aquele máximo que está a vir, pois ambos partem de dois conceitos completamente diferentes que nunca poderão se encontrar. Qual a prova? Um corpo que já é o seu potencial, com uma mente que pouco lhe toca. O potencial do homem nada se aproxima do potencial do corpo, do potencial que a terra lhe oferece.

A mente do homem: que insulto ao corpo! Sua filha, com certeza, mas sua filha retardada. O máximo potencial do homem, aquele encontrado naqueles que são os últimos homens, nada mais é que ser um ser para si e por si, limitado ao que é e não ao que pode, ou ao que poderia caso não fosse sua mísera condição.

O último homem só ama ao homem. Até chega a entender o corpo, mas só o faz pelo homem e não pelo corpo, não ama o corpo. Não ama o corpo e como homem renega na ignorância tudo que lhe é oferecido. O corpo, por sua vez, lhe dando a liberdade de escolha, ou melhor a liberdade de se provar capaz de seu uso, o deixa morrer na limitação de seu amor por si mesmo.

Os homens mesmo buscando se exaurir numa orgia de últimos homens, nem a isso se aproximam. O homem é ainda o macaco, o homem é o que acredita nas fadas do além, o homem é o que se masturba sem fim em sua própria mente. O corpo lhe deu a capacidade de luta, a capacidade de questionar o que é, e o que não é, e por fim a capacidade de se matar. Aqueles que não lutam, que morram no câncer de sua mente doentia! Que morram a deformar o corpo que prefere a putrefação, que o insulto! Macacos a repetir as decisões de outros, piadas a entregar sua ação a resultados de um não vida, idiotas a se afogar num mar de papel picado.

O corpo, enojado com o homem, constantemente está a se suicidar, pois espera a chegada de um homem realmente capaz, merecedor do que faz parte, para fazê-lo por sua vez. Aquilo que sucederá o homem, não virá do homem, mas de seu suicídio. O além do homem virá do homem que escolher morrer como homem e não como rato. Morrer, deixando seu corpo para algo inteiramente novo, muito além de seus desejos, esperanças, virtudes e alegrias, talvez uma completa oposição a estes. O além do homem não amará seu corpo, ele simplesmente será um com ele.

Definições ou Escadas ou Pastéis

E a terra deu o corpo.
E o corpo deu a mente.
E a mente se fez eu.
E este eu é um caos.

Tudo que a mente é, é devido ao corpo. Todo eu só existe devido ao desejo do corpo de um eu que se componha consigo como um. O corpo é uma composição constante de estímulos, sensações, inclinações, operações e decisões. O eu é uma emaranhado inconstante do que o corpo lhe deu, ou melhor o forçou a ter quando o criou, misturado com o que este próprio conseguiu desenvolver, ou que outros o obrigaram a aceitar. O eu, como criação do corpo, é em si seu campo de testes. Testes a buscar um bom parceiro a simbiose. Pois, a terra trabalhou muito para lhe dar um bom habitante, mas deixou para este a escolha do seu ser.

A terra deu vida ao corpo e lhe disse: “Viva, te dou espaço, mas também te dou movimento; te dou tempo, mas também te dou a habilidade de se multiplicar; te dou fome, mas também te dou luta; e mais que tudo, te dou a potencialidade de ao caminhar sobre a minha face fazê-lo sem erros.” E o corpo, em retorno, rosnou e correu para a floresta. Muitos anos se passaram e o corpo se viu estático, não conseguia avançar de nenhuma maneira além do que a terra lhe tinha dado no momento de criação, era necessário mais para poder avançar. Então, correu e bateu de cara numa árvore. Nesta ação, nasceu sua primeira e única filha, a mente. A mente, deveria explorar todas as possibilidades dadas pela terra ao corpo, devia movê-lo a campos ainda não explorados. Porém, ela nasceu retardada e sua primeira ação foi mover o corpo correndo para outra árvore e dar de cara com ela mais uma vez. Muitos problemas começaram dai, em vez de soluções como era esperado.

Mente bem estúpida, devo dizer! Em vez de buscar soluções, se afogou em besteiras. Quando não se perdia em delírios de que todos os problemas que estava ali para resolver, seriam solucionados num mundo mágico após sua morte, ou encontrava as mais mirabolantes formas de negar seus problemas, ou evitava-os, em vez de confrontá-los, se acreditava sozinha e via o corpo como um crime a sua pessoa. O corpo, bem irritado, para dizer a verdade, as amaldiçoou perante tamanhos insultos: “Que não morram, que se destruam, que se afundem em si próprios sem o meu amparo!” A partir de então a mente foi deixada sozinha a vazar suas deformidades para um corpo abandonado. Homens caiam ante as doenças mais ridículas, quando não se matavam tentando tratá-las com elementos exteriores. Homens se enchiam como balões até estourar. Homens viravam pedras a carregar mais pedras por preferirem a submissão a dominação. Alguns, porém, perante o câncer que se tornará a raça humana, começaram a reagir. Reagir contra a doença que se espalhava, pulando de mente em mente, a devorar tudo aquilo que encontrava. Assim, nasceu o homem em luta, que primeiro virou camelo e quis colocar sobre suas costas todo o conhecimento que conseguiu encontrar, depois virou leão, e viu o quanto todo esse conhecimento não passava de repetição e devaneio, achando melhor formular seu próprio conhecimento, por fim, chegando a criança, e vendo que sua posição em si inibia-o da visão real de tudo que buscava, que era necessário esquecer de tudo, para realmente lembrar como enxergar, como sentir o que precisava solucionar.

O corpo viu este homem que luta e foi até ele, cutucando-o no ombro, para lhe falar: “Obrigado por não me insultar, mas devo dizer-lhe: o caminho ainda é muito extenso, mas você não pode dar mais um passo como aquilo que é.” E o homem perguntou-lhe: “Como, se já consegui tudo que queria e derrotei o câncer?” E o corpo respondeu-lhe: “Sim, mas ainda há muito mais, e seus desejos em nada se comparam ao que está por vir.” E o homem curioso, perguntou-lhe: “O que tenho a fazer?” E o corpo respondeu-lhe: “Morrer. Não podes ser aquilo que virá, mas podes ser aquele que o dará vida com o seu sangue!” O homem ao escutar isso permaneceu mudo, mas depois disso rosnou e saiu correndo pela floresta.

Assim falava Nietzche.
E assim ele babou pelos últimos dez anos de sua vida.

Conclusões: O eu pode ser eu e se achar sozinho na ignorância do pertencer ao em si. Porém, esta própria ignorância pode ser uma desistência do em si sobre o eu, que o deixa se afundar em si próprio.

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Ser e o Ente que é

Posted on 19 março 2010 by admin

Uma hermenêutica do termo ser na história da filosofia é o que busca fazer Martin Heidegger a partir de seu livro o Ser e o Tempo. O ser não é aquele que é, mas sim aquele que é em relação a outro que julga esse ser, que se importa em julgá-lo. Um ente pode ser um ser, mas nem todo ente é. O ente é o fenômeno, aquilo que existe, a coisa em si mesma, e pode ser julgado ou não por um outro como um ser. O ser-aí é o julgador, o ser que se pergunta se é, que se importa. O ser-aí é quem dita o que o ser foi, é e será.

Uma pedra existe, ou melhor um conjunto de entes é julgado por um ser-aí como um ser ao qual é associada a idéia de pedra, a conjunção de vários entes como um único ser. O espaço e o tempo são usados para posicionar os entes que compõem a pedra no ser que o ser-aí a coloca. O ser-aí pode ser o homem, mas também pode não ser. Pode ser o homem que se assumindo como ser-aí, se importando em fazer isso, tenta buscar a interpretação de seus entes formulando um ser. Um ser-aí numa constante dialética consigo mesmo em busca do ser que melhor representará o seu ente, que melhor lhe servirá de espelho. Mas se o homem não se pergunta que é, logo não é. Ou melhor quem é que deu a interpretação do ser pedra aos entes que a compõe? Foi um homem, mas não é este que a mantêm, mas sim a própria idéia a continuar pelo tempo passando por muitos homens. O ser-aí é a informação passada pelo tempo a ditar os seres há muito afastados dos seres-aí que os interpretaram originalmente. A importância de identificar seres nas coisas em si está longe, mas sua interpretação continua.

O ser-aí enquanto no homem, no homem que se importa em se perguntar de seu ser e sua relação com os outros seres ao seu redor, se importa em interpretar os significados dados aos muitos entes, e ir mais a fundo, desconstruindo estes e construindo outras interpretações, outros seres, para melhor chegar as coisas em si, é a consciência. É a consciência intencional do homem, é ele tomando responsabilidade pela sua relação consigo mesmo e com o seu mundo exterior. Sua responsabilidade sobre sua própria interpretação de si e do mundo. Heidegger considera o tempo com um dos principais pontos de referência nesta relação entre o ser que julga, o ser-aí, o importar-se, e o ser julgado, a interpretação dos entes, o fenômeno intocado. É sua própria mortalidade que organizara as relações do homem. O importar-se é contabilizado e logo composto pelo tempo.

O processo pelo qual o ser-aí no homem e o ser se relacionam é uma angústia. A angústia da fenomenologia, de querer conhecer a coisa em si, o ente que existe, e constantemente se deparar com um ser espelho, o ser de sua interpretação. Uma dialética apontada por Hegel, em que o ser que julga cria o ser que é julgado, e depois ao colocá-lo em par com a existência, e analisando suas incongruências tem de voltar ao seu próprio ser, para através de sua faculdade de ser-aí, poder se julgar a fim de desenvolver um novo ser que melhor será capaz de julgar outros, se aproximar mais deles, porém ainda encontrar incongruências e assim continuar seu ciclo dialético. Sartre vai além e diz que nem o tempo pode ser considerado como um ponto de referência fixo ao ser. Para ele é o nada, ou seja, qualquer coisa, o objeto em que o ser se realiza como ser e começa sua eterna dialética. O tempo pode ser a referência ao julgar, mas dependendo do ser que está a fazer o julgamento, pode ser completamente ignorado.

Um bom exemplo da filosofia heideggeriana aplicada pode ser visto no filme de Hal Ashby, Being There, com Peter Sellers, ou seja, o ser-aí. Neste o protagonista, que além de ter suas faculdades mentais limitadas, também passou a maior parte da vida isolado, é obrigado do nada a interagir com o resto do mundo. E ele o faz, só que não a partir do ser-aí da sociedade, da cultura, mas sim a partir do seu próprio ser-aí, completamente afastado do cotidiano. Sua relação com seu próprio ser e as coisas ao seu redor é única, e todos ao seu redor nem o realmente notam, pois só o interpretam a partir de seu ser-aí da sociedade. O final é bem emblemático, ele caminha sobre as águas de um lago, pois para ele, para o seu ser-aí, o fenômeno que é o lago nem importa, e ele não pode afundar naquilo que não importa.

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Eu, Decartes, Deus

Posted on 27 fevereiro 2010 by admin

Decartes inicia suas meditações para provar a existência de Deus a partir da analise de seu próprio conhecimento. Para isso, usa seu método científico, que consiste em primeiro não aceitar qualquer proposição que não possa ser dada como verdadeira, como tal, sem antes obter provas disso, acima de qualquer grau de dúvida; segundo, dividindo o problema no maior número de partes possíveis, para após poder analisá-las e solucioná-las em separado, fazendo-o de forma que comece pelas questões mais simples, a subir para o conhecimento das mais complexas; por fim, formulando uma proposição completa que não omita nenhuma outra questão. Assim, tendo isso em vista, Decartes inicia sua meditação por uma limpeza de tudo que possa ser opinião falsa embutida em sua mente. Começa por considerar que tudo que um dia lhe passou uma falsa percepção é duvidoso e, logo, mesmo não sendo necessariamente falso, não pode ser dado como verdadeiro. Para não se perder em analises infinitas, ele vai as bases de suas percepções, seus sentidos, chegando a conclusão que estes já o enganaram diversas vezes. Depois, passa para a analise da realidade, do mundo em si, e chega a conclusão que se comparar essa realidade com seus sonhos, não encontra nenhuma diferença de percepção. Nada o impede de sempre estar sonhando tudo ao seu redor. Porém, disso também chega a uma certeza, a realidade é duvidosa, mas suas faculdades perceptivas, não, elas se mantêm numa constante. Tudo que vê é organizado por figura, quantidade, espaço e tempo, o que não pode ser negado. Por fim, Decartes chega a conclusão que nem as proposições mais básicas podem não ser consideradas duvidosas, pois mesmo questões matemáticas como dois mais três igual a cinco, não podem ser dadas como certas, já que a própria lógica que as dá como certas, pode ser produto de uma enganação. O que abre a porta para sua questão, a existência de Deus. Pois um Deus bom não deveria permitir um mundo criado para enganar suas criações.

Descritas a dúvidas universais, Decartes vai em busca do que disso se manteve, e o que sobra é seu próprio pensamento. O pensamento que permite dizer que é, e que existe. Fica estabelecido, que se pode duvidar de tudo isso, logo pensa, e se pensa, logo é, existe. É um ser que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que imagina e que sente. Com toda sua dúvida, mas a partir dessa própria dúvida, isso pelo menos pode dar como certo. Uma certeza, não das maiores, mas o suficiente para começar. Começar concluindo que se há um mundo fora de si, este só pode ser acessado indiretamente, só pela mente e nada mais, por todas as idéias em si. Como prova, Descartes usa o argumento da cera, analisando que por nossos sentidos, nós podemos descrever certas características de um pedaço de cera: sua textura, cor, tamanho; porém ao levarmos esta cera ao fogo, ela muda completamente, e mesmo assim nós ainda a consideramos como cera, logo, não são nossos sentidos que dizem o que é a cera, mas nossa mente, nossas idéias, estas são a única constante. Pois, nossas idéias são as representações das coisas exteriores, não necessariamente sendo estas, mas são a constante que forma nosso conhecimento.

Estabelecidas suas certezas, que é e existe, já que duvida, e logo pensa, e que tudo no seu pensamento é feito de idéias, que podem ser representações de coisas exteriores, Decartes vai em busca da prova de Deus. Para isso, primeiro conclui que existem três tipos de classes de idéias: os desejos, os sentimentos e os julgamentos; e estás podem ser analisadas por questões de causa e efeito, podendo ser tanto de proposições falsas, quando somos enganados por nossos pensamentos, ou verdadeiras, quando não o somos. Estabelecido isso, também busca a possível origem de cada idéia, chegando também a três categorias: a das que sempre tivemos, que se originaram conosco, a das que criamos, que inventamos e a das que vem do exterior. Chegando a conclusão que todas essas idéias tem de ter uma causa primaria, uma causa a que representam mesmo que imperfeitamente. Até as inventadas, já que só podemos inventar algo a partir de algo existente. Tendo as idéias uma causa, e supondo que não há um Deus enganador, que nos ofereça uma lógica falsa, chega-se a conclusão que as idéias mais perfeitas, que mais se distanciam a qualquer dúvida, são idéias que representam as coisas exteriores com mais clareza. Pois, o quanto mais perfeita a idéia, mais próxima está ela daquilo que representa. Assim, se estabelecem as bases para a prova de Deus. Nós temos a idéia de Deus, que é um infinita e perfeita substância, logo está idéia deve ter uma causa, já que nada vem do nada. Uma causa que deve ter uma realidade formal tão perfeita como sua idéia. Só o perfeito pode causar a idéia do perfeito, logo, se não somos perfeitos, não podemos ser a causa do perfeito, não pode ser uma idéia que inventamos. Sua causa só pode ser uma também infinitamente perfeita, assim, há um Deus.

O primeiro argumento para existência de Deus parte, porém, da idéia que nossa lógica nos permite reconhecer certamente as idéias, e que não somos enganados por uma força exterior. Assim, outro argumento se faz necessário, um que prove que há um Deus, para provar que esse primeiro argumento não é um produto de uma enganação. Para formular o segundo, um acima de qualquer dúvida, temos que voltar, então, ao início, a certeza básica, que se alguém dúvida, pensa, deve existir. Se isso é dado como certo, logo essa existência deve ter uma causa. Primeiro, esse ser não pode ser a causa de si próprio, pois se dúvida e não sabe de tudo, não é perfeito, e não faria sentido ele ter se criado imperfeito. Segundo, não pode ter sempre existido, porque nada indica uma existência continua, além da presente. Terceiro, nada diz a origem a partir do  mundo exterior, a paterna, que nada prova além de um regresso infinito de perguntas sobre essa origem. Quarto, não pode ser originado de algo menos perfeito que Deus, pois se o fosse, tal coisa não daria a idéia de algo tão perfeito como Deus. Logo, esse ser que existe só pode ser originado de Deus. Com isso, se estabelece que se existe um ser que pensa, logo existe um Deus que o criou, um Deus perfeito e bom, que não lhe oferece uma realidade enganadora. O segundo argumento tanto sustenta o primeiro, como também serve de prova ontológica definitiva para existência de Deus.

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O Absoluto e o caminho da Natureza para ele, segundo Schelling

Posted on 27 fevereiro 2010 by admin

Schelling vai contra a nova vertente do realismo empírico, o idealismo empírico, ou seja, a união da relação causa efeito com a relação do afetar, para estabelecer o idealismo absoluto.

Baseando-se que o absolutamente ideal é também o absolutamente real e que fora disso só há uma realidade sensível e condicionada, uma particular, busca, tendo o saber como objeto, excluir todas as contingências, que muito bem podem ser estudas por outras ciências, para alcançar o incondicional e o absoluto desse objeto, alcançando o saber absoluto, ou o próprio absoluto em si, já que esses não se distinguem.

Estabelece, assim, que o objetivo da filosofia é alcançar este absoluto, com o absoluto ato-de-conhecimento, um saber em que o subjetivo é o objetivo, e não opostos, já que estes no absoluto são um. O absoluto é, enfim, tudo que tem identidade pura, só é igual a si mesmo, independentemente de subjetividade e objetividade, sem deixar de sê-los, sendo matéria e forma, sujeito e objeto. É a totalidade como idéia, eternamente, mesmo quando forma, como objeto, mesmo quando essência, como sujeito. E essa passagem de um para outro, não sai do absoluto, pois este é em si, esse agir. Sua forma é também essência e sua essência é forma. Reconhecendo-se na ação de gerar a partir da objetividade e da finitude, a subjetividade e a infinitude, atingindo uma unidade essencial entre elas, e na ação de dissolver sua objetividade em essência, chegando ao que realmente é: uma essência idêntica de ambos. É o sujeito, dissolvendo a forma na essência, e o objeto, formando a essência na forma, sem distinção, ou seja, num transforma a essência indivisa em forma, no outro, a forma indivisa em essência, é a total identidade, pois eternamente forma unidade consigo mesma. O absoluto é esse agir eterno, puro e uno, é a absolutez que só produz a si mesma. Tendo isso em vista, estabelece-se que as idéias são nada mais que sínteses da identidade absoluta e que as coisas singulares são apenas momentos do ato eterno de transformação da essência na forma. Logo, as coisas em si, são as idéias no eterno ato-de-conhecimento, e como as idéias no absoluto são só uma idéia, também todas as coisas são só uma essência.

O absoluto, porém, mesmo sendo um só, compreende dois lados, um real e um ideal. O real, é figuração do infinito no finito, é a unidade distinta, é, enfim, a natureza. A filosofia, então, é a ciência do absoluto, e a filosofia da natureza é a ciência que estuda seu lado real. O lado real do agir eterno, que é o espírito trazido à luz na objetividade, a essência introduzida a forma. A natureza ao se corporificar acaba por assumir uma forma particular, deixa de ser a natureza do absoluto que é una à do mundo ideal, e passa a ser um símbolo desta, estando fora do absoluto. Como símbolo, a natureza ganha uma vida independente daquilo que significa, e só é conhecida como forma. A filosofia da natureza apesar de sair do idealismo absoluto, acaba por se desenvolver por um idealismo relativo, já que compreendendo só um dos lados do ato-de-conhecimento, não pode alcançar o absoluto. As três potências encontradas no agir da filosofia da natureza, as que distinguem seu desenvolvimento, são a estrutura do universo, a figuração do infinito no finito; o mecanismo universal, a re-figuração do particular no universal ou essência; e o organismo, a uni-figuração do real ao ideal. No mais completo organismo, apresenta-se a completa imagem do absoluto, ou seja, na razão que o contempla apresenta-se a mais completa imagem real e ideal desse absoluto. Enquanto isso, a designação dessas mesmas potências no lado ideal, a partir da essência, transformadas segundo a forma, está fora de nossa esfera de conhecimento.

Conclui-se que a completa exposição do mundo intelectual nas leis e formas do mundo, ou o conceber completo dessas formas a partir do mundo intelectual, em parte já foi realizado pela filosofia da natureza, ou está em via de ser realizado por ela. A filosofia da natureza parte de princípios certos em si, sua direção está contida nela mesma, assim os fenômenos, por si mesmos, são colocados no único lugar que podem ser compreendidos como necessários, e este lugar é a única explicação que ela pode nos fornecer sobre eles. Desta forma, estabelece-se que a filosofia só pode seguir em seu caráter idealista, com um retorno a interioridade, para alcançar o mundo real, a partir do desmantelamento das finitudes criadas ao redor da natureza, buscando a objetividade de seus segredos, para na totalidade objetiva, com a completa identidade absoluta, unificar os mundos real e ideal.

Resumindo, o que Schelling conclui, é que tudo que é, é determinado por um único elemento, ao qual ele chama de absoluto. Um absoluto que é uno, mas que para nossa compreensão precisa ser dividido em dois, em real e ideal, apesar desses ainda serem os mesmos. E que nós, com a nossa razão, temos contato com uma versão simbólica do real, ou seja, temos um contato com os fenômenos e não com a coisa em si. Assim, para alcançar o saber absoluto, ele estabelece que o homem, através da filosofia da natureza, deve conhecer esses fenômenos em sua totalidade, para dai, através de uma constante mutação entre subjetivo e objetivo, ir buscar a coisa em si, a natureza, o real, e desta, o ideal, já que são os mesmos, por fim, contemplando o absoluto.

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O Homem Afetado

Posted on 27 fevereiro 2010 by admin

O homem é afetado por objetos exteriores e é nesta afetação que nasce a distinção entre bem e mal. Pois, segundo Espinosa, todo ser tem um conatus, um esforço que faz para continuar a existir, tanto em termos de extensão, tanto em termos de pensamento. E este esforço é o que faz o ser se aproximar de objetos exteriores que lhe beneficiem, e repudiar os que contribuam para sua destruição, é o que dá vida a nossos conceitos de bem e mal.

O homem como qualquer ser é feito de muitas partes, e estas partes interagem de formas diferentes com os diferentes objetos ao seu redor. Estas interações são necessárias, e ajudam a manter o equilíbrio do ser. Como exemplo temos os apetites: a fome, a sede e o sexo; pulsões corporais que necessitam de objetos exteriores. O conatus é a consciência que regula essas interações com o exterior, é o que determina a potência de agir de cada parte com o mundo, de manter sua força de existir em meio a este. E esta potência, nessa interação com os objetos exteriores que a afetam, pode aumentar ou diminuir dependendo do objeto. A consciência dessa interação, desses apetites que afetam o homem, é o desejo. Segundo Espinosa, o desejo é a essência do homem. O desejo é que no conatus causa paixões com os objetos exteriores. Paixões que podem aumentar a nossa potência de agir, as paixões alegres; e paixões que podem diminuir nossa potência de agir, as paixões tristes. Neste esquema, os objetos que causam paixões alegres, são aqueles que consideramos como bons, e os objetos que causam paixões tristes, são aqueles que consideramos como maus.

Para atingirmos nossa potência de agir, segundo Espinosa, é necessário um esforço racional. Só com a razão entendemos as nossas paixões, e assim, podemos melhor distinguir as alegres das tristes, buscando as primeiras e evitando as segundas. A liberdade no homem é essa consciência de evitar o que diminui a sua potência e buscar o que a aumenta. Sabendo que é necessário manter um equilíbrio, não se deixando obcecar por nenhum objeto único, pois este mesmo causando uma paixão alegre em uma das partes pode prejudicar as outras, e sempre aumentando o número dessas paixões alegres, afim que todas as partes encontrem o seu equilíbrio.

As paixões podem ser fortes ou fracas, e o que determina isso é nosso conhecimento sobre o objeto a que se referem. Pois, o que as define como fortes ou fracas é seu nível de realidade, o quanto delas realmente conhecemos, e o quanto deste conhecimento é verdadeiro. Outros fatores importantes são sua presença ou ausência, e sua necessidade ou contingência. É mais forte a paixão por aquilo que necessitamos e se encontra ausente.

Opondo-se a liberdade, há a servidão, que é a falta de ação na potência de agir, uma passividade aos objetos que nos afetam. Pois a interação do conatus com os objetos exteriores, implica uma alteração em ambas as partes. Uma alteração que com a razão pode implicar tanto um equilíbrio entre o ser e o objeto, tanto a destruição do segundo em benefício ao ser. A destruição do ser em benefício do objeto, ou sua completa alteração, é o estado de servidão. Como exemplo o suicídio, em que o ser é levado por forças externas a se destruir, não agüentando a afetação de objetos exteriores sobre ele, ou se alterando ao ponto de acreditar a sua destruição como benéfica.

O homem é livre quando sabe reconhecer as idéias e as paixões adequadas à sua essência. Pois se somos determinado a partir de fora, somos escravos, estamos em servidão, e se o que nos ocorre provem da nossa auto determinação, somos livres. O bem e o mal não existem como verdades absolutas, nós é que determinamos o que há de bom e mau no que experienciamos. O bom e o mau são dois modos de existir não polarizados, modos qualitativos e subjetivos. Aquilo que é experienciado por um dado indivíduo como bom pode ser menos bom para outro, muito menos bom para um terceiro e assim sucessivamente, até que se chega ao que é experienciado como mau. Assim, o indivíduo livre é aquele que tem potência para agir e escolher as interações que lhe convêm, as boas interações, enquanto que o indivíduo fraco é o que busca a escravidão, que não tem suficiente força de existir para escolher as boas interações e por isso as vivencia de maneira aleatória.

Do mesmo modo que determinamos os conceitos de bom e mau a partir de nossas interações e conhecimentos sobre estas, também o fazemos para os conceitos de perfeito e imperfeito. A validade do conceito de perfeição só pode ser dada havendo o conhecimento além da obra também das intenções de seu criador. Senão este conceito ficará a margem aleatória da interpretação de quem com ela interage. Como exemplo uma árvore, cujo nível de perfeição só pode ser julgado pelo conhecimento de seu papel evolutivo na natureza. 

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Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças de Michel Gondry

Posted on 18 fevereiro 2010 by admin

ou Brilho Eterno de uma Memória sem Pontas

Joel acorda. Acorda para perceber o mundo, pondo em movimento um constante ato de contemplação, que é em si esta própria contemplação do plano de sua representação do mundo ao qual habita, somada a sua ação perante a este. Acorda e começa o seu dia, percebendo as coisas ao seu redor, que são apenas, para si, para sua apreensão destas, imagens que representam as coisas em si. Imagens que são menos que estas próprias coisas, mas que são mais que as representações apreendidas por Joel. Pois ele, na sua percepção consciente, só percebe o que quer, o que está acostumado a perceber. Sua percepção se limita a uma pobreza necessária, não pode captar todos os detalhes das imagens a ele oferecida. Nota o amassado do carro, nota as folhas faltando do caderno, nota específicos, não a imagem completa, sua memória habitual não procura registrar mais que isso, sua percepção, no seu movimento de contemplação, subtrai todo o desnecessário. Assim, seguindo os movimentos de sua memória habitual, repetindo as suas tarefas diárias, se arruma e vai para o trabalho. Porém, na estação, na representação desta apreendida por ele, aflui-lhe, inesperadamente, subindo a partir do seu inconsciente, uma fatia de memória pura, fatia ascendida pela contemplação desta estação, que interagindo com sua percepção em movimento, o faz pegar outro trem, um para a praia.

Na praia, Joel conhece Clementine, a imagem dela é percebida por ele, que reconhece na representação, que se forma, detalhes de seu interesse. Interesse originado da interação entre sua memória pura, com sua memória habitual, produzindo junto a contemplação dela, uma ação, que dá vida a uma relação. Como duas imagens em movimento, Joel e Clementine começam a escrever a memória um do outro. Os dois vão para casa, ela sai para pegar sua escova de dentes, Joel fica, alguém bate na janela do carro, ele não reconhece quem é, há um certo ar de estranhamento da pessoa que bateu na janela. Corta, muda o tempo da história.

E assim se inicia o filme, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry, sobre o esquecer do passado, o se arrepender perante sua óbvia necessidade, reconhecida tarde demais, e, por fim, o constante aprender no agora, a receber do constante afluente das memórias, dos quadros eternos. Tudo parcialmente analisado a partir das teorias sobre memória e tempo do filósofo Henri Bergson.

Assim, com a seqüência inicial do filme apresentada, o espectador tem sua primeira percepção da imagem, ele captura a representação do seguimento que lhe interessa e pistas lhe são apresentadas sobre o futuro desenvolvimento da trama, mas sem memórias a relacioná-las, ele não as reconhece. O estranho que bate a janela, como para Joel, não lhe diz nada, não há nada a interligá-lo. No máximo, uma memória pura aflui-lhe, reconhecendo o ator, como o de Senhor dos Anéis, não só mais um figurante sem importância.

Segue-se a trama de Joel e Clementine. Há um pulo, supostamente de ordem linear, para o fim da relação dos dois. Eles brigam, e Clementine num impulso passa por um procedimento médico que apaga-lhe todas as memórias de Joel. Joel decide fazer o mesmo. No período de uma noite, o procedimento procurará em sua mente as memórias de Clementine e as apagará. Como num movimento de rotação, o computador investigará na sua memória inconsciente, os fragmentos mais recentes de Clementine, e a partir deles, a partir da unidade, girará para trás buscando seu seguimento decrescente, buscando a multiplicidade de memórias ligadas a ela, para por fim apagá-las, uma por uma. Joel a perguntar ao médico se o procedimento pode lhe causar algum dano cerebral, recebe a resposta que este é exatamente isso.

Começa o procedimento, a trama passa do mundo exterior, onde impera a percepção de espaço-tempo do real, através da interação da memória pura, afluída na necessidade da ação, com a memória habitual, na contemplação do plano de representação do mundo; para o mundo interior de Joel, onde impera a percepção da sua memória pura, onde até o espaço-tempo passa a ser relativo.

A memória é em si atemporal, sempre se encontra no presente, não conhecendo história, nem passado, nem futuro. As memórias armazenadas no inconsciente, as memórias puras, só ganham realidade ao afluírem no ato do movimento de contemplação, pertencendo, assim, a este. Não percebemos nem passado, nem presente, nem futuro, só percebemos o quadro de ligações do atual que está sempre em movimento. Joel ao passar pelo procedimento que apagará algumas de suas memórias puras, descendo numa espiral decrescente, não viajara pelo tempo, se manterá sempre no atual, mantendo o seu quadro no seu constante movimento, só apagando algumas de suas ligações.

Joel começa revivendo o fim da relação, sentindo a dor que o fez aceitar passar pelo procedimento. Suas memórias são lentamente apagadas, como num museu em que as pinturas vão lentamente desaparecendo, em sua mente as representações apreendidas das coisas são lentamente excluídas. Ele corre nessa espiral de memórias decrescentes por um espaço construído não a partir de um espaço real, mais a partir das partes desse espaço que mais lhe interessaram, as marcas que na pobreza necessária foram apreendidas. Porém, depois de todo o sofrimento ter ido embora, o quadro do atual muda. Não há mais ressentimento, não há mais dor, só há seu amor por Clementine. O quadro atual que fez ele aceitar o procedimento, não mais existe, só existe o quadro atual que ama ela, e que vai se manter existindo até a última memória desse amor. Não delimitado pelo espaço-tempo cotidiano, Joel começa a fugir pelas memórias de seu passado mais distante, todas a fazer parte do seu constante atual, do seu quadro. Tentando manter seu interesse por Clementine, ele começa a sobrepô-lo com interesses passados. Ela passa a ser a garotinha de sua infância, a tia que lhe dava conselhos. Caçado pela máquina, tendo as últimas de suas memórias dela apagadas, ele tenta se prender a qualquer traço que o leve a ela. A praia, o local onde se conheceram, é o que fica. Um encontro na praia, só isso, não há mais Clementine no quadro atual de Joel.

Joel acorda. Acorda para perceber o mundo, pondo em movimento um constante ato de contemplação, porém tudo a partir de um quadro sem Clementine, num mundo cheio de referências que ele não mais reconhece. O início do filme não era o início, era o fim. Vimos-no como início, como Joel o viu, agora vemos-no como fim, tendo mais referências que ele, mais ligações com a nossa memória pura que não tínhamos antes, nosso quadro atual ganhou novas extensões. Joel segue seu último comando de memória da noite, ir a praia, e lá ele conhece Clementine, e ela conhece ele. Eles voltam a escrever suas memórias. De novo, se relacionam, não porque se lembram de seu amor passado, mas porque o que fez eles se amarem da primeira vez, não foi apagado, sendo parte deles muito antes de seu primeiro encontro. Vão para casa, ela sai para pegar sua escova de dentes, e o ator do Senhor dos Anéis bate a janela. Joel não o reconhece, mas nós sim, agora ele é o assistente do médico que fez o procedimento. Ele está lá porque querendo se relacionar com Clementine, tentou reproduzir a relação dela com Joel, a partir das anotações e objetos deixados do procedimento. Não deu certo, pois a relação dela com as ações tomadas durante a relação, não eram com as relações em si, mas com Joel, e o assistente não pode reproduzir Joel.

Outra assistente do médico que descobriu também ter tido suas memórias apagadas, manda para Joel e Clementine fitas com eles narrando suas relações. Os dois se amam, mas não sabem como reagir diante de registros pessimistas de memórias que não têm. Seu amor impera, decidem começar de novo, reconstruir seu quadro atual juntos. Pois, ao apagarem suas memórias, eles retrocederam o movimento de seus quadros atuais, apagando uma etapa, que terá agora de se repetir, por ser necessária nessa construção.

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O Evangelho Segundo Immanuel Kant

Posted on 18 fevereiro 2010 by admin

O homem nasce, se desenvolve e morre no mundo sensível. No mundo de experiências empíricas, de afetações com os fenômenos que o cercam e de afetações com o próprio fenômeno que é. Um mundo de inclinações, sensibilidades, ditadas pelas leis da natureza, seu instinto imposto, sua determinação que lhe oferece todas as suas necessidades naturais. Entretanto, por causas estranhas, por motivos além da fronteira de sua própria capacidade perceptiva, tem a razão, e nesta tem a capacidade de se determinar como inteligência. Assim, acaba por habitar também um mundo inteligível. Este que é só um conceito que se vê obrigado a tomar para atuar como prática fora das afetações dos fenômenos. Pois, para determinar, por sua intuição, leis objetivas sobre a sua própria natureza, necessita de estar livre da consideração de fatores externos, experiências empíricas.

À capacidade de se determinar é dado o nome de vontade. Esta que é em si a razão posta em prática, na sua faculdade de escolher o que lhe é necessário, ou não; ou melhor, do que é fundamentalmente bom, ou não. A existência dessa razão, sua causa, se encontra nela mesma, ou seja, tem o fim em si mesma. Assim, quaisquer outros fins a ela derivados, acabam por ser imaginações, formulações hipotéticas, que nada lhe dizem respeito, estas como as idéias de felicidade, de perfeição e de divindade. E nisso se encontra a vontade, na sua autonomia de escolha. Pois, a autonomia da vontade se dá pela ação de agir sob leis conforme esta própria vontade. Uma legislação própria que por sua natureza só pode ser lei universal, cujas leis têm causa em si mesmas. Assim, tem a causalidade da vontade, o efeito que chamamos de liberdade.

A liberdade é seguir, independentemente das determinações do mundo sensível, das suas inclinações impostas, as leis formuladas pela autonomia da própria vontade, as leis morais. Pois, não há nada mais digno que seguir a legislação que formulamos e que por nossa natureza racional, acaba por ser universal. Isso, é claro, levando sempre em consideração um ser completamente abstraído de inclinações do mundo sensível. No entanto, a liberdade ainda não passa por ser uma mera idéia, que o homem não pode subjetivamente explicar, e só vale realmente como pressuposto necessário da razão num ser que julga ter consciência de sua vontade, do seu uso nas suas ações e omissões. Sendo esta, por fim, também o fio condutor proposto entre as ações pela autonomia da vontade no mundo inteligível, e os deveres conforme essa autonomia no mundo sensível.

As leis morais seguidas pelo homem são representadas por imperativos categóricos. Estes que são formulações para exprimir a objetividade dessas leis à capacidade subjetiva do ser racional. Categóricas, por não poderem ser provadas empiricamente, se encontrando só no mundo inteligível, pois são sempre fins em si mesmas. As outras leis, as que só são meios para fins, e por isso podem se derivar de inclinações do sensível e serem provadas, são as hipotéticas. Porém, concluindo, ainda se apresenta a dúvida, que essas leis morais, essas liberdades tomadas na razão a partir da autonomia da vontade, por não poderem ser provadas, acabem por ser puramente hipotéticas, ou seja, só meios para fins, os quais nossa capacidade racional ainda não pôde questionar.

O homem, tendo consciência de si mesmo, acaba por ter de representar-se na sua condição de uma maneira dupla, tanto como objeto afetado pelos sentidos, tanto como inteligência, como independente, no uso da razão, das impressões sensíveis, ou seja, como ser livre. No mundo sensível, sua liberdade, seu seguir das leis morais formuladas por sua vontade autônoma, é o dever, é a obrigação de seguir essas leis, mesmo em face de inclinações do momento que a contradizem. E essas leis morais devem seguir os seguintes imperativos: nunca devem ser só meios, devem ser sempre fins em si mesmas, do mesmo jeito que a todos a quem elas dizem respeito, que devem ser também sempre tratados como fins e nunca como meios; devem ser sempre universais, máximas que não sirvam só para inclinações do momento, mas para todas; e devem ser formuladas por aqueles que tem vontade, sendo estes legisladores universais, que a partir destas possam julgar a si mesmos e as suas ações. No fim, conclui-se que o desejo dos seres racionais seria livrar-se de todas as inclinações sensíveis e estabelecer um Reino de Fins, uma ligação sistemática desses seres por meio de suas leis objetivas comuns.

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Caramelo e batatinhas, com Jesus Cristo e Cia.

Posted on 18 fevereiro 2010 by admin

A indústria preda onde há maior confusão entre as pessoas: na miséria.

Ter uma vida feliz é basicamente seguir uma ética, regras que determinem minuciosamente ações diárias. Nas nações isso não existe, o governo, não importa qual, nos dá leis que raramente fazem sentido prático e constantemente oscilam para grupos de interesses temporais, que têm pouco interesse no geral. Além disso, a maioria da população só têm contato superficial com essas regras, não havendo nem muito esforço desse mesmo governo para domesticá-los direito. Na confusão das nações, as pessoas acabam sendo condicionadas a regras que lhes são impostas à esmo, às vezes até por grupos opostos, impondo-lhes uma vida confusa e infeliz. A indústria é o que submete a pessoa a só uma ética. Uma ética em parte baseada em regras tradicionais, ou seja, que tenham pelo menos de 100 à 150 anos, sobre família, trabalho, hábitos alimentares, comportamento em geral. A indústria enfim é a fuga da confusão, é o atingir dessa vida de regras fixas. Uma ética, é claro, não construída pelo indivíduo, completamente alheia a ele, e enfim, condicionada a sua situação temporal e suporte de um grupo. Logo, extremamente frágil a perturbações. E num mundo de ética, mesmo essa alheia, não existe o acaso, pois tendo a pessoa como agente ativo, a tudo pode ser atribuído um conteúdo metafórico, podendo ser interpretado de qualquer forma, desde com anjos e demônios, a ursinhos e palhaços. 

Não há acaso, só diferentes interpretações dos fatos, sendo, então, o próprio acaso, uma dessas diferentes interpretações. A ética tanto liberta, quanto aprisiona. Liberta, sim, da confusão, mas aprisiona na situação. A indústria dá o suporte, o conteúdo alegórico, que mantém a situação. Impossibilitando, assim, tanto o fim desta, como uma reação a esta.

A indústria não só procura prover a pessoa com a ética, mas também procura mantê-la entretida. Pois, sendo o indivíduo sem uma ética própria extremamente frágil, e resultando esta ética alheia, baseada na família, no trabalho e no comportamento moral, num gigantesco tédio, como tudo aquilo que é alheio, são necessários reforços, passa-tempos, que o impeçam de cair para outros meios mais ativos. É necessário um espetáculo, com um herói e com um vilão. Sobre tudo, um espetáculo variado, que atenda múltiplos gostos, proporcionando múltiplas opções, em múltiplos horários para toda a família. Um espetáculo interativo, em que o participante possa caminhar ao lado do herói e possa lutar contra o vilão. E o mais importante de tudo, um espetáculo com o máximo de adrenalina possível, a mais viciante e pungente adrenalina, com todos pulando e cantando alegremente, repetindo interminavelmente palavras-chave, que melhor assimilem as regras oferecidas. E este espetáculo deve não só servir para avigorar a ética imposta, mas deve possibilitar a interação entre aqueles que a sigam, que a reforçam, e que dependendo do programa do horário, possam ter outras coisas em comum.

Toda indústria começa pequena e maleável, facilmente se adaptando aos desejos de seus clientes. Porém, quando esta cresce, e estes já criaram uma dependência do produto oferecido, novas diretrizes estruturais começam a florescer: novas instalações, maior especialização dos contratados, tratamento diferenciado para cada tipo de cliente. Quanto maior a máquina corporacional, maior burocracia e por fim, maior competição com outras indústrias e uma grande hostilização contra produtos pirateados. 

A indústria, em si, foi criada e desenvolvida por pessoas, indivíduos reais com propósitos reais. Entretanto, com o tempo, apesar desta em muito necessitar de indivíduos isolados, que por sua retórica, por sua habilidade comercial, consigam atrair o público e movimentar o produto, quanto mais esta cresce fora do controle destes, acaba por se tornar uma entidade viva e ativa por si só. Uma entidade que acaba por criar e desenvolver os indivíduos aos quais devia obedecer. Assim, mesmo sem a presença das indústrias, em situações específicas, ou seja, mais agravantes que as situações cotidianas, essa entidade toma espontaneamente seus consumidores, que a festejam e, à vezes a moldam para atender interesses de grupos específicos. 

É possível também que algumas dessas entidades acabem por sobreviver muito além a morte de suas indústrias produtoras, sobrevivendo assim nas gerações de seus consumidores. Ganhando tom de identidade, quando estes são hostilizados pelos grupos dominantes. E, por fim, colocando-se na defensiva para poder sobreviver na constante luta contra as outras entidades, as cujas indústrias ainda se mantêm. Indústrias que as marginalizam e as colocam no papel de vilão. Entidades, porém, que também tentam sobreviver por copia-las, as dominantes, pelo menos no sentido da modernização de suas indústrias. Geralmente, sem sucesso, tanto pelo seu teor de complexidade, que não cai bem ao consumidor moderno, tanto pela prática de tradições anteriores as tradições aceitas pela sociedade de então.  

Com a expansão das novas indústrias, essas entidades marginalizadas acabam servindo de alvo fácil no desenvolvimento do ideário popular para os meios de comunicação que compactuam com essas indústrias. Meios que as maleficam, tanto quanto santificam as novas que apóiam as tradições dominantes. 

No fim, a questão se resume não numa necessidade natural de indústrias, mas numa necessidade natural de uma acomodação sob regras específicas. E do instinto, regras determinadas, a razão, regras fabricadas, o melhor ainda é renegar qualquer tipo de indústrias, pois estas sempre se baseiam em situações temporais. O tempo não é um lago parado, assim, como esse, o indivíduo não pode ficar parado, mas sim deve se manter correndo como um rio, a se moldar como a água, as diferentes pedras que se encontram pelo caminho.

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O Caminho da Consciência: A História segundo Hegel

Posted on 18 fevereiro 2010 by admin

Hegel estabelece que a história é o percurso do conhecer para o saber absoluto, é a formação da consciência filosófica. Sua tese se baseia que na busca para um saber absoluto primeiro tem de se estabelecer qual a relação entre a consciência, o ato de conhecer e o absoluto.

O caminho entre a consciência natural e a filosófica é unicamente marcado pelo ato de conhecer. Toda a ciência da experiência da consciência se baseia neste ato, no que ele é e no que pode oferecer ou enganar. Pois, conhecer é uma faculdade determinada, cuja natureza precisa ser analisada, tanto quanto suas limitações. Para Hegel, o princípio desta analise é a dúvida que é quase um desespero, em oposição a uma dúvida que é só um vacilo contingente de algo dado como verdade. Logo, se temos uma dúvida que nos leva a questionar o que percebemos, há uma separação entre o absoluto e o ato de conhecer. Não colocaríamos em questão aquilo que nos afeta, caso isso fosse diferente. E também não colocaríamos em questão o próprio ato de conhecer, caso também não houvesse uma clara separação entre nós e ele. Mesmo assim, podemos estabelecer o ato de conhecer como verdadeiro, mesmo este não dando caminho direto para o absoluto. Pois presente a dúvida, este não deixa de ser uma verdade do absoluto, mesmo não sendo este. O ato de conhecer, que tanto pode ser um instrumento para contemplar o absoluto, tanto uma passividade para receber o que deste é emitido, é verdadeiro, e mesmo não podendo ainda nos dar uma visão do absoluto em si, pode nos dar verdades. Verdades que não são o absoluto, mas que também podem se encontrar neste. Cria-se uma questão, se só o absoluto pode ser dado como verdadeiro, ou só o verdadeiro pode ser dado como absoluto. A ciência da aparência, a da consciência natural, atua nesta questão, procurando verdades sem a necessidade de um absoluto.

A ciência da aparência é um passo, mas não pode ser dada como verdadeira. Primeiro, porque enquanto palavra, não passa de uma representação contingente. Segundo, porque em prática, como experiência, não revela realmente um saber, mas só mais uma aparência. Não apresenta verdades, só o efeito de alguma verdade não aparente. Assim, como a citação acima aponta, não é uma ciência livre, só um passo. A consciência natural só oferece um conceito de saber, um saber não real. Hegel conclui que a consciência precisa através de uma experiência de si mesma, romper vários níveis de aparências aos quais seu ato de conhecer a limitou, para enfim alcançar o conhecimento que é em si mesmo, ou melhor, o conhecimento que pode, como coisa que é.

O próximo passo que Hegel oferece no desenvolvimento da consciência é estabelecer o cepticismo como modo de ação para examinar o que é verdade. Pois, não importa se o exame é próprio, da opinião, ou alheio, da autoridade, e sim que o cepticismo seja genuíno, incidindo na consciência fenomenal e levando a um desespero sobre as representações, pensamentos e opiniões pretensamente naturais. O cepticismo atuará sobre a visão unilateral da consciência natural e retirará dela o puro nada que é. Nada que apontará com seu conteúdo as inverdades da consciência não verdadeira. A determinação do conteúdo do nada, acabará por levar a um abismo vazio, que assim impulsionará a consciência a sua oposição, a determinação do que não é nada, o que é o outro. Este outro, que não é nada, acabará por levar a consciência a ir além de sua limitação, além de si. Pois, na sua carência de conhecimento, a consciência acaba por se levar violentamente a sair de si para buscar esse outro. Neste momento, segundo Hegel, pode acontecer da consciência tomar medo da verdade e aceitar a sua limitação como esta própria, se prendendo numa inércia de determinar o ser para si e nada mais. Cabe a razão lutar contra essa adequação.

Estabelecido por um cepticismo a busca de um nada, que por fim levará a conclusão da necessidade da busca de um outro, Hegel apresentará um método de desenvolvimento para prosseguir, a necessidade de uma base como padrão de medida para comparação. Um padrão que deve ser aceito para na comparação determinar a validade dos resultados. O aspecto determinado da consciência que se revela no relacionamento entre esta e o ser em si, é o ser de algo revelado pelo saber. Nossa medida, então, é o saber fenomenal do ser de algo, que entra em oposição com o ser em si. O em si é a verdade. Porém, esta investigação não nos oferece no final este ser em si, mas sim, o ser para nós. Um ser cuja medida estaria em nós e não necessitaria de validação. Entretanto, esta medida em nós, implicaria a consciência, e a consciência tem a determinação do seu ser em si, logo servindo de medida para um outro Em-si.

Na consciência e na sua relação com o outro podemos, então, estabelecer o saber como conceito, ser-para-um-outro, e a essência como objeto, ser-em-si-mesmo. E o exame nela, como a correspondência do conceito ao objeto, ou vice versa. Um exame que nesta etapa só tem como medida a consciência em si, e compara o momento em que o ser é em-si para ela, com o momento do seu saber sobre o ser. Caso não haja correspondência, a consciência tenta adequar seu saber sobre o objeto. Porém, ao fazê-lo, este novo saber altera sua visão do objeto, que se torna um outro, que não mais pode corresponder a este saber. Assim, o em-si não era em-si, era em-si para a consciência. O exame se revela como a experiência para determinar tanto o saber, tanto o seu padrão de medida. Por esse movimento dialético que avança pelas várias aparências do objeto, é que prossegue a consciência. Cada aparência revela o conteúdo do nada que impulsionará para o outro da próxima aparência. O saber do objeto se torna o ser-para-a-consciência do Em-si, que por fim se torna uma nova figura do objeto a ser examinada. Esta série de experiências da consciência tem por objetivo se despir da aparência de si própria, através do conhecer do outro, ela busca seu verdadeiro saber, e com este sua verdadeira essência. Conhecida sua essência, a consciência pode finalmente buscar o saber absoluto.

Resumindo, a consciência natural só pode nos oferecer suas limitações e um campo para questionamento, com o cepticismo essas limitações são reveladas, e a inverdade do que percebe ou a afeta, acaba por apontar para um outro que esta além dessas limitações. O outro não pode ser conhecido em si, porém pode servir de espelho para o próprio em si da consciência, revelando através de experiências que esta faz, sua visão errada do objeto. Cada aparência atravessada, não faz por chegar mais próximo do objeto em si, mas sim, do saber da consciência em si. Quanto mais inverdades ela encontra na sua relação com o outro, mais a consciência se vê. Findadas as aparências, a consciência atinge o seu em si, e alcança seu estado filosófico, podendo finalmente como verdade que se reconhece dentro do absoluto, buscar o saber desse absoluto.

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Sobre escadas

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

escadas

O erro na história da ciência é a teoria científica, questões e respostas, que não mais pode ser aceita no processo de constante revisão da razão que a desenvolveu. É o impedimento, porém também o necessário. Pois, ao reavaliar-se teorizações sobre, ou para, percepções e experiências empíricas, pode-se superá-las, corrigindo também o próprio processo da razão, impedindo assim repetências, um perder-se em labirintos.

A verdade sempre é, não se constrói, só sua compreensão se encontra em constante movimento. A razão se constrói por erros e acertos, erros que na simplicidade foram acertos, e acertos que na expansão poderão ser erros. Aquilo que é dado como certo e inquestionável por um espírito velho, é o degrau na escada para a verdade em que se projeta o erro como fim, é o que se faz fatalmente de muro para qualquer avanço. Um degrau a ser derrubado pelo espírito jovem, que ao superá-lo, irá construir novos degraus onde esse antes se encontrava, novos com uma estrutura mais capacitada a subir que a dos anteriores, mas que, por fim, no envelhecimento desse espírito, pararão e se farão de muros. Os subseqüentes muros que se apresentam no caminho para a verdade, crescem em complexidade no constante movimento de re-interpretação do que se acreditava grande, crescem por destruir seus anteriores, ou por reduzi-los a meros degraus, no processo forçado pela visão de algo ainda maior, de mais caminho a avançar. Pois, a total compreensão da verdade é como um objeto distante, escondido no topo de uma alta montanha. Uma montanha cujos caminhos o homem não foi habilitado naturalmente a seguir, mas que mesmo assim, pelo desenvolvimento de sua razão, tenta alcançar, construindo a escada que é a sua ciência. Escada ainda imperfeita, em constante movimento de reestruturação, pelo constante movimento de reformulação da razão que lhe dá vida.

bachelardSegundo Gaston Bachelard, a epistemologia tem como principal função, reconhecer esses erros, obstáculos ao avanço do conhecimento, muros a serem demolidos ou reduzidos a degraus, julgando-os, revelando seus limites aos homens que fazem ciência. Pois, só é pela razão, através do desenvolvimento científico por ela proporcionado, que se caminha para uma maior visão da verdade. O epistemólogo deve analisar as questões e respostas apresentadas, interpretá-las por suas épocas, e posicioná-las na construção da racionalidade. Deve compreender a estrutura e desenvolvimento das escadas que se constroem em direção a uma maior compreensão, reconhecendo seus erros e acertos, esquematizando-os para que se haja sua suplantação. Escadas que eventualmente proporcionarão, a partir de seus acertos, os degraus que pavimentarão um caminho sem empecilhos para a verdade. O epistemólogo, por fim, será aquele que proporcionará o quadro geral a ajudar os cientistas a questionarem suas teorias mais elementares, como: é a atual escada, a mais propícia para o atingir da verdade, ou seria necessário uma ruptura para outra completamente diferente?, é o corpo do degrau, resposta, o suficiente para sua base, questão? ou é sua base, suficiente para o desenvolvimento de um corpo?, haverão trechos da escada com necessidade de reparo, de atualização, sob os novos métodos de construção?, pode a estrutura atualmente usada no avanço, suportar o suficiente de degraus necessários?, …

Logo, para chegar a verdade através da ciência, deve-se armar uma permanente guerra contra os agentes que preferem o saber mergulhado na inércia, que se sujeitam a respostas por demais finitas, por degraus que por sua ambição ilusória se fazem altos demais para qualquer avanço subseqüente. E é o epistemólogo, o soldado desta guerra, a assistir, defender e, se necessário, corrigir, os operários que constroem essa escada, os cientistas.

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