Na primeira noite não escutamos nada. Só de manhã ao descer nos deparamos com os móveis da sala bagunçados. Alguém os havia empurrado contra as paredes. Meus pais pensaram que havíamos sofrido um assalto, mas nada estava faltando. Colocamos tudo de volta. Acabáramos de nos mudar para lá. Talvez alguém tivesse a chave. Trocamos todas as fechaduras. Na segunda noite, tudo se repetiu. Não fazia sentido. Na terceira noite, meus pais ficaram de guarda na sala. E foi aí, que acordei com os gritos.
Meus pais gritando lá embaixo, alguns sons sem significado, um “não” estridente, portas batendo, pancadas repetidas. Mesmo com medo precisava descer. Segurando forte meu urso pelo braço, levantei da cama e caminhei até o escuro corredor, no fim deste uma luz vindo pelas escadas lá de baixo piscava. Todo o som logo cessou e a luz parou de piscar. Um ar de vazio tomou toda a casa. Andava devagar, tremendo pelo corredor, quando um arranhão se fez lá embaixo e depois desse uma música começou a tocar. Algo que poderia reconhecer, mas não sabia o que era. Nada novo, nada da televisão. Chegando as escadas, me sentei no topo. Não queria descer. A música era estranha, o ar estava estranho, meu estômago se contraia. Olhei para meu urso, me levantei e comecei a descer. No meio do caminho, as gargalhadas começaram. Acompanhando a música, pessoas riam lá embaixo. Pancadas na madeira do chão, vidros se chocando, murmúrios de conversas ininteligíveis. Desci a ponto de poder observar por uma porta a sala. Uma mão apertada no corrimão, uma mão apertada no braço do urso. Vi homens e mulheres, com roupas estranhas, dançando. Não podia ver suas faces. Não podia ver meus pais. Desci até lá embaixo, e no corredor me espreitei pelo canto da porta, procurando ver meus pais. Olhando de perto, algo havia de errado com a pele daquelas pessoas, era cinza e cheia de riscos. Suas faces se revelavam de relance, caídas, como se fossem de cera derretida. Seus olhos, não vazios, só fixos no nada. Foi aí, que notei do outro lado da sala, em oposição a porta, sentado em um pequeno armário, um homem gordo, semi-careca, usando suspensórios, e uma camisa suada. Ele era diferente do resto. Mesma pele cinza de cera, cheia de risco, mesmo olhos, mas havia algo que o distinguia de todo o resto. Ele parecia observar, com seus olhos de nada, um casal que estava dançando num canto da sala. Uma mulher loira, cabelo encaracolado, com um vestido em parte rosa. Ele era o único que não estava em dança, e era o único sem um par para olhar. Como nenhum deles parecia estar se importando com a porta, me inclinei um pouco para dentro a fim de ver o outro lado da sala. Mas nada, nada de meus pais. Nesse momento, notei pelo canto de meus olhos, ele olhando para mim. O homem, não mais olhando para a mulher de rosa, mas direto para mim. Seus olhos riscados, pareciam pular. Ele em questão de segundos, como se eu não pudesse ver todo o seu movimento, levantou e gritou. Toda a festa parou, e olhou para mim. Alguns, olhavam assustados, outros com ar de deboche. Sussurros se seguiram: “crianças não”. O homem veio reto em minha direção, as pessoas no caminho simplesmente se desfaziam enquanto passava. Não vi quando ele me agarrou. Logo, estava no chão, tomado de medo, enquanto era arrastado pela fria madeira. Fechei meus olhos e abracei o urso.
Uma porta abriu, rolei pelos degraus de uma escada, uma porta bateu. Meu urso estava sangrando, e um pouco de seu sangue estava sobre a minha cabeça. Estava no porão da casa, só que a casa não tinha porão. Uma lâmpada amarela no teto, paredes de tijolos, móveis jogados ao redor, dois colchões sujos estirados num canto, muita poeira, meus pais jogados, inconscientes, à frente da escada, e a música a tocar lá em cima. Minhas pernas doíam, me arrastei até meus pais. O sangue do urso também cairá sobre eles. Tentei acordá-los, mas nada consegui. Levantei e carregando meu urso ferido, subi dolorosamente a escada. No topo, tentei abrir a porta, mas estava emperrada. Sem chaves, só emperrada. Tentei entender onde esse porão se encontrava, e foi aí que encontrei, estando em pé no segundo degrau da escada, uma pequena aresta que me permitia ver a sala. Saia rente ao chão. Podia ver sapatos dançando. Durante alguns relances, só os sapatos pareciam dançar, sem pernas. Sem aquelas pernas cinzas de cera, cheias de riscos. Do outro lado da sala, continuava o homem lá sentado. Observei, e observei, até o momento em que ele se levantou e em rápidos relances já estava em cima do outro homem que dançava com a mulher de rosa, o socava. E ela chorava. Por alguma razão, também comecei a chorar nesse momento, não parecia poder me controlar. Parei de olhar pela aresta, e me sentei naquele degrau, abraçando meu urso ferido. Acho que dormi, acho que vi uma menina loira da minha idade tentando roubar o meu urso enquanto dormia. Acordei com a pancada da porta do porão batendo, e vi meus pais sendo jogados escada abaixo, e caindo no chão, exatamente como estavam antes. Comecei a descer as escadas para ir até eles, quando meu pé se prendeu em alguma coisa, ou algo me agarrou, cai das escadas e apaguei mais uma vez. Ao voltar a consciência, meu urso sumira.
Meus pais ainda inconscientes aos pés da escada, a música ainda tocando lá em cima, e meu urso sentado no colo de uma garota loira de minha idade em cima de um dos colchões sujos do canto. Lá estava ela, sentada de pernas dobradas, com uma mão sobre o meu urso, a me olhar. Sua pele ainda era branca, mas tinha riscos como a dos outros. Seu olhar era triste. “Qual seu nome?” perguntei. “Isabela” respondeu. “O que está fazendo aqui?” “Eu moro aqui.” “Você sabe como eu posso sair daqui?” “Ele não vai deixar.” “O homem gordo?” “Você não deveria chamar ele assim.” Nesse momento, algo deu uma grande pancada lá em cima, na parede junto a escada. “Não vá” disse ela. Mas subi para olhar pela aresta. O homem gordo estava batendo na mulher loira. A música continuava, mas além deles, a sala estava vazia. A mulher chorava e sangue caia de seus olhos. O homem gritava, mas eu não conseguia entender o que estava falando. Ele jogava ela de um lado para o outro. Num momento, ele puxou uma mesa, colocou ela de bruços sobre esta e começou a arrancar seu vestido. Observava isso, quando colocaram uma mão sobre meu ombro. Virei, era a garota. “Você quer o seu urso?” “Sim.” “Mas eu não vou te dar” disse e abraçou com força o urso. Depois estendeu uma mão para mim. “Venha comigo.” “O que vai acontecer com ela?” “Não se preocupe, ela vai embora pela manhã.” Fui. Descemos as escadas, passamos por meus pais, e sentamos no colchão. Ela depois pegou uma caixa, colocou em seu colo, e começou a procurar recortes de pessoas. No topo da caixa havia uma foto em preto e branco dela, sentada entre o homem gordo e a mulher loira. “Ele é seu pai?” “Não. Ele é meu mais novo tio.” Ela tirou os recortes de pessoas da caixa e disse para eu escolher metade. “São todos dançarinos em um baile.” Por alguma razão simplesmente pareceu normal brincar com ela. Tudo corria de uma forma estranha enquanto brincávamos, me sentia meio zonzo. Algumas vezes ela toda piscava à minha frente, outras, todo o porão parecia se escurecer e sumir do nada, para logo depois voltar. Ela por sua vez produzia um zumbido da música lá de cima enquanto mexia nos recortes. Seus olhos tristes mantinham-se fixos em sua brincadeira. Paramos quando mais uma vez, a porta do porão foi aberta com violência e meus pais foram jogados como bonecas de pano pelas escadas, ficando estirados ao pé dessa.
“Quando eu vou poder ir para o meu quarto?” “Logo que a festa acabar.” “Quando a festa irá acabar?” “Em breve.” Não acreditava nela, e não queria que meus pais fossem jogados da escada de novo. Então, levantei e fui até eles, queria trazê-los para o colchão. Tentei virar o meu pai, que estava com o rosto grudado no chão, coberto do sangue de meu urso, mas não consegui, era pesado demais. Não consegui nem mover sequer o seu braço. O mesmo com minha mãe. “Não se preocupe. Eles já foram embora de manhã.” “Como?” “Não se preocupe.” “Como?” “Minha mãe sempre disse que o que causa os problemas é a preocupação. Se você não se preocupa com nada, não há nenhum problema a resolver.” Voltei e sentei ao lado dela. “Você é um fantasma?” “Não. Mas eu acho que a minha mãe é. Não sei se meu tio sabe. Mas pare de perguntar coisas, e vamos continuar brincando.” Não queria mais ficar ali, não queria mais meus pais imóveis no pé das escadas, não queria mais ouvir aquela música, não queria mais estar naquela casa. Comecei a chorar. “Ah… pare, você não quer brincar porque não conhece os convidados. Olhe esses dois” disse pegando um casal de papel. “O namorado dela morreu na guerra, mas ela encontrou o amor de novo nele. Ele era o melhor amigo do namorado dela. Porém, ele sempre está a dançar olhando para os outros dançarinos, nunca em seus olhos. Na verdade, ele amava o amigo, e ela de certa forma se tornou algo que ele tomou de recordação. Porém, com o tempo ele começou a ficar desinteressado pela situação, começou a sumir de vez em quando, e ela sabe disso. Mas ela descobriu uma forma de mantê-lo ao seu lado. Pretende contar no meio da festa que está esperando o bebê dele.” E pegando outro casal continuou “Ah… e olhe estes, outro casal apaixonado. São casados. Só que ela não sabe que ele só se casou, porque se apaixonou por sua pequena irmã e sabia que assim podia ficar mais perto dela. Meu tio conhece ele e há algum tempo contou a verdade para ela.” “E eles dois?” interrompi, pegando a foto de sua mãe e de seu tio. “Ele a ama desde criança, e finalmente pode concretizar seu sentimento quando ela reapareceu na cidade com sua filha. Ela procurava um soldado forte, mas precisa de um local para morar. Mas desistiu de esperar depois de uma festa, foi embora deixando a filha.” Ela colocou a foto de lado e depois pegou mais dois recortes “Estes dois são uma bagunça! Meu tio alugou a casa para eles e toda hora eles estão a desarrumar a sala. Ele é um velho que não pára de pensar no passado, na amiga de infância e na irmã da primeira esposa. Ela simplesmente foi deixada pela mãe com ele.” Ela colocou eles de lado e depois pegou todos os outros restantes. “Vamos lá, quer saber a história de mais algum dançarino? É só escolher que lhe conto.” “Não, não quero, quero ir para meu quarto.” “Você não sabe mesmo brincar. Ah… e esqueci de falar, esse último casal também tem um filho, ele é um urso.” “E eles sempre trancam ele no porão durante as festas” completei.























































