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Um Ensaio sobre a Água – Parte 1

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

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O homem está preso numa plataforma de metal enferrujado no meio de um eterno mar tempestuoso. Um infinito céu de trevas a tudo cobre, água escura a tudo cerca e gigantescas ondas para todos os lados batem. Decadente ferro corroído, que pouco ainda pode suportar, sob seus pés, range. Seus olhos, vazios ao olharem para a imensidão eterna, quase cegos por nada verem. Sua mente, a indagar o quanto mais o metal irá agüentar, o quanto mais suas pernas irão lhe suportar, o quanto mais irá ter de esperar a óbvia queda. O nada impera sob o tudo, mas a água do mar se encontra permanentemente a lutar, sempre a lutar, nunca a parar, nunca estática, mas também nunca a lhe oferecer um sólido chão para caminhar, só fazendo por afogar, só fazendo por tragar para a imensidão escura e confusa que o tudo é. A chuva, a bater em seu rosto, desce do céu com fortes gotas de dor, já que não pode mais descer através daquilo que não consegue mais ver. Um singelo púrpura se revela por entre as densas nuvens escuras, a oferecer esperança daquilo que nunca parece se encontrar. Um frio se compõe com sua existência.

O homem se encontra preso num momento estático de espera no topo desta plataforma de metal enferrujado. Balança, range, questiona. Ali não chegou nadando, nem pelas correntezas que levavam a sua verdadeira direção, as certezas que sempre se fazem sendo, nem pelas que levavam a sua destruição, ao afogamento na multiplicidade amorfa. Ali não chegou subindo, nem pelas escadas arquitetadas pelo seu próprio compreender, um amontoado de papel repleto dos cálculos mais profundos, nem pelas do seu instinto de pura sobrevivência, dos cálculos mais básicos. Ali não chegou caindo, nem daquilo que faz voar, daquilo que oferece, que é atemporal, eterno sem a um tempo pertencer, nem da ilusão, de qualquer ilusão que em outro lugar o fizesse se encontrar. Ali não sabe como realmente chegou, só que se encontra preso, preso em um momento sem origem, sem meio e sem fim, um momento a esperar, a esperar o que não pode encontrar. Esperar, como a tudo se espera, porque algo precisa ser esperado, pelo menos é a isso que se acredita, é sobre isso que fracamente se sustenta, a ainda respirar acima da confusão que devora.

Distante, por entre as altas ondas, uma esfera aparece. Uma esfera, não um triângulo, não uma quadrado, pois diferente destes, não tem pontas soltas, não é tomada por constantes desencontros e não se constitui de perguntas que não se fecham em círculos. Uma esfera a deslizar, a se manter una, mesmo sobre a multiplicidade amorfa em batalha. Algo novo, algo vivo, algo mais do que o visto até então, algo a enfim se fazer esperado pelo homem que espera. O homem que vê a esfera, que mesmo sob a tempestade navega em sua direção. Esperança, vontade, curiosidade. E quanto mais a olha, mais ela se faz parte de seu momento, construindo, então, a partir deste, um outro momento, um ao qual pertence. Ainda distante, só olhando, rapidamente, ele se encanta pela capacidade da esfera de deslizar pelo mar, de não se permitir ser devorada pela confusão em luta sob si.

A tempestade continua, com seu céu fechado e ondas a bater, mas a chuva pára, nada mais vaza pela face do homem, nada mais aparenta ter razão para fazê-lo. Seus olhos, ainda a olhar fixamente para esfera que se aproxima, flutuam por aquilo que pode ser com esta. Imaginando como seria com ela deslizar sobre o mar, como seria com ela voar pelo céu púrpura, como seria com ela não mais se sustentar sobre uma plataforma tão frágil. E com este pensamento, por alguns segundos, ele já se sente dentro do atemporal, como se aquilo que espera que seja, já fosse. Porém, logo seus pensamentos, tão rápido quanto voaram, encontram a queda e o espaço se faz por demais temporal. Começa a se questionar se a esfera realmente irá chegar a plataforma, se o mesmo acidente que trouxe-a até o seu campo de visão, a sua área de probabilidade, a tomará por desviar a correnteza de sua direção; ou pior, se ao passar por sua plataforma vai esta sequer notá-lo, lá parado a observá-la. E do temporal, mais uma vez tudo muda e se encontra dentro do momento, pois a esfera se aproxima e ele vê, dentro dela, uma linda garota a observá-lo com um sorriso. Toda a expectativa se confirma, todo o único que ele sabia que só aquela esfera poderia trazer se apresenta.

Chegando à plataforma, no fim de uma rampa que parece unicamente constituída para recebê-la, a esfera pára. Esta esfera, então, melhor vista, não tão grande, pintada de um vermelho escuro e composta de paredes infláveis, tomadas de um ar de vida. O homem vai correndo em sua direção, percorre toda a rampa, e lá se vê face a face, através de uma abertura no meio da esfera, com a grande beleza da garota, que se encontra lá, sentada, a também observá-lo. Fica tonto, mas continua, dá um passo para a esfera. Uma onda vem, a esfera se afasta, ele cai na água, no mar em luta. A garota grita seu nome e tenta estender sua mão para alcançá-lo, nada consegue, a esfera se afasta mais ainda. Ele nada em sua direção com toda a força que encontra em seu ser. Ela também se esforça para tentar mover a esfera em sua direção. Por fim, ele se perde, muita água, muito bater, se deixa ser tragado pelo correnteza. Quando, quase se afogando, duas pernas aparecem à sua frente, ele se agarra nelas. É a garota, que sentada na borda da abertura da esfera, o resgata, prendendo ele entre suas pernas, o puxando para superfície. Ele sobe, ainda entre suas pernas, a vê mais uma vez sorrindo, a abraça e enfim a beija. Seus lábios se unem numa eternidade. Depois se afastam, mas seus olhos se mantêm unidos, um olhando para o outro. “Eu te amo” diz ele. “Eu te amo” diz ela. “E este é  meu coração” continua ela  falando da esfera. Os dois se beijam mais uma vez e caem para trás, para dentro da esfera, onde juntos somem. Assim, segue a esfera sobre o mar em batalha.

Continua!

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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Seguindo a Rua – Parte 2

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

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À minha frente, então, se encontrava mais um grande salão. Um extenso salão repleto de milhares de cadeiras de concreto, fincadas no chão, organizadas em fileiras, viradas todas para uma mesma direção, oposta ao portão, para um distante e alto palanque de madeira. O teto afastava-se por uma distância incalculável e deste só se viam as chamas de um fogo ardente. Grossas pilastras quadradas cortavam o salão esporadicamente. E, assim, na frente de uma, após forçar minha passagem pela multidão, encontrei uma cadeira livre e me sentei, pois me parecia o mais propício a ser feito. Ali sentado, rodeado de olhares distantes, mais uma vez, não sabia o que fazer. Ficaria parado a observar os arredores, ou sairia em seu encalço? Com a primeira opção, poderia garantir que se por minha área de observação ela passasse, eu poderia avistá-la e rapidamente alcançá-la. Mas se por ali ela não passasse, de nada isso adiantaria. Especialmente, se fosse o caso de ela já ter encontrado um lugar para sentar. Com a segunda opção, poderia sair a procurá-la, tendo a possibilidade de cruzar com ela pelo caminho, caso ela estivesse a andar, ou caso também ela já estivesse sentada. Mas, também havia a possibilidade, caso ela estivesse andando, de que quando por um lugar eu estivesse passando, ela estivesse fazendo o mesmo por outro, por um ao qual eu ainda iria passar, ou ao qual eu já teria passado. Havendo, assim, grandes chances de nunca nos encontrarmos no mesmo lugar. Logo, por haver maior probabilidade de encontro, me decidi pela segunda. Levantei. Porém, antes de começar minha perseguição, achei melhor de alguma forma marcar aquela cadeira em que estava, caso a esta eu precisasse voltar. Assim, deixei minha mochila sobre esta. Mochila a qual acabara de notar que trazia em minhas costas e que estava vazia por nada eu ter a carregar senão aquela própria mochila vazia.

Saí, então, entre a multidão, em minha perseguição. Andando; olhando para os lados, atento a cada movimento, a cada cor diferente, a cada sinal de vida; mantendo fixos olhos de caçador, apesar de em si, me sentir realmente como a caça, que corre desesperada para manter-se viva; dobrando-me de todas as formas concebíveis entre as massas que em diferentes áreas se amontoavam fechando meu caminho; pulando por cadeiras, cruzando milhares e milhares de fileiras, me espreitando por detrás de pilastras, deixando-me ser levado pelas correntes de movimento que à diferentes direções me jogavam, voltando ao mesmo lugar várias vezes, parando, girando e às vezes em tédio, dançando. Séculos se passaram e nada encontrei. Desisti, não de definitivamente encontrar, mas de naquele momento em específico fazê-lo. Pois, sabia que eventualmente todos estariam sentados, o que quer que ali fosse começar no palanque à frente, acabaria com o vai e vem da multidão e, assim, nessa quietude, eu poderia calmamente rastrear cada uma das fileiras ao meu redor pelo brilho de vida que ali havia me levado. Logo, segui de volta no caminho da minha cadeira e depois de muito andar, já com mais facilidade por saber minha direção, a encontrei. E nesta, encontrei a linda garota sentada sobre a minha mochila.

Fui até ela e me pus em frente da cadeira. Ela olhou para mim e neste instante, com seus olhos de mel se encontrando com os meus de vazio, metade de minha mente superaqueceu e morreu, sendo reavivada depois a grandes custos pela outra parte.

- Oi – disse instantaneamente com ar de indiferença. – Essa é minha cadeira! – exclamei apontando. E sim, ainda não sou uma criança de quatro anos, mas eu sou o narrador e não aquele bastardo que estava abrindo sua boca e produzindo palavras naquele momento. Eu posso algumas vezes subjugá-lo aos meus desejos, mas nem sempre e nem com muita facilidade. Assim, lá se foi o baralho às traças.

- É dono desta cadeira que encontrei vazia no mar da incerteza? – perguntou com uma sublime voz e com absoluta tranqüilidade.

- Não, mas nela deixei essa mochila – disse apontando para mochila, na qual ela estava sentada.

- É dono desta mochila que nada carrega por nada ser necessário carregar? – perguntou, continuando a olhar-me fixamente. Seus olhos brilhavam, mas brilhando por brilhar e não pelo que estavam a observar.

- Não, mas encontrei-a em minhas costas e usei-a para marcar essa cadeira.

- É dono de alguma coisa?

- Não, não sou – disse sem mais argumento.

- Sim, o é. É dono de seus olhos! – exclamou com autoridade. – E neles vejo agora tudo aquilo que se esconde.

- O que em meus olhos vê?

- Desejo – disse com um lindo sorriso. – Essa parece ser a única chama que os acende, que os é capaz de acender, apesar de ser uma chama muito bem disfarçada, que se fantasia de vazio. Um vazio que grita suplicante, que nunca parece saber o que fazer e que acaba por decidir-se por se comportar como a água. Afogando, assim, o desejo e só revelando deste uma mera imagem embaçada, esta que luta para se fazer vista, só o conseguindo após uma intensa luta que traga todas as suas forças e a faz desesperada. Mas, a pergunta que se faz necessária é: deseja o quê?

- Não sei. Já desejei muito e tudo que alcancei, um segundo depois deixei de desejar, por, então, descobrir ser uma mentira, que não servia em nada em ser desejada. Desejei o que me disseram desejar, desejando aquilo que aqueles, que me disseram, acreditavam ser a verdade, apesar de ser realmente só uma prolongada falsidade. Tão falsa que sua origem já havia sido esquecida. Assim, depois de muito desapontamento, muitas corridas sem chegadas, finalmente entendi o que deveria entender e desejei saber o que realmente poderia ser desejado de verdade. Parei tudo e a essa resposta fui em busca.

- Encontrou-a?

- Sim, desejo o verdadeiro. Mas só isso sei e nada mais. Pois não o alcanço, posso desejá-lo, mas não sei como é e nem posso sabê-lo da onde estou. Só realmente o poderei, após tê-lo encontrado e após por ele ter sido aceito.

- Você o encontra aqui?

- Não sei – respondi, por só isso me atrever a responder. Naquele momento não podia dizer que tinha encontrado o verdadeiro, não sabia o suficiente para fazê-lo. Mas sabia que tinha encontrado o certo. Pois, como há muito tinha identificado, cada ser transmite vibrações, com cada movimento, com cada palavra e com cada olhar. Tudo em conjunto transmitindo o que a pessoa é, ou que se apresenta sendo, ou que deseja ser, ou que se recusa a ser. E essas são vibrações perigosas que no cotidiano devem ser bloqueadas a todo custo, já que qualquer uma pega a esmo de um mar infestado de monstros, pode derrubar a mais forte das criaturas. Porém, quando se vê um reluzente brilho, já que nenhum bloqueio pode realmente chegar a escondê-lo, há de se liberar para que todas as vibrações deste possam passar. E, o que é deste recebido, leva a um estado de puro êxtase exagerado, que faz correr pela floresta com flores. Assim, em seus olhos eu vi o certo e por ele encantei-me completamente. Um certo que até o último momento não me desapontou, apesar de eu ter constantemente implorado para que o fizesse.

- Talvez devêssemos dançar! – exclamou levantando e segurando minhas mãos. – Deixaremos a mochila para marcar a cadeira – disse se pondo comigo à dança.

- Há tanto que eu quero saber – disse, com meu rosto perto do seu, já com meus braços ao redor dela, deslizando pela multidão sem obstáculos.

- Há tanto que quer que eu queira saber.

- Saberá?

- Não, só saberei o que sempre quis saber e nada mais! Do mesmo jeito que danço, porque deve se dançar e eu o sei, e eu o faço. Você também deveria sabê-lo! Você o sabe, não?

- Sim, o sei, mas não o faço.

- Por que não? É tão fácil!

- Porque tudo sempre para mim foi difícil e sempre um esforço foi necessário.

- Precisa ser conduzido?

- Sim, provavelmente sim – respondi, sabendo a resposta ser não. Não preciso ser conduzido, sempre soube como dançar. Preciso, sim, de uma força para meu esforço e essa sei muito bem como eu mesmo posso gerar, pois sempre a estudei profundamente por toda minha vida consciente. Porém, mesmo assim, nunca pude, nunca tive coragem de fazer de fato à teoria. Logo, naquele momento, não era movido por minha própria força, mas por aquela que encontrava à minha frente, aquela que já naturalmente jorrava dos olhos dela. Jorrando por jorrar e não por ter sido inflamada por uma fonte externa que estivesse à sua frente.

- Mente! E é tão óbvio! Faz como se perdido cada passo da dança, mesmo os sabendo perfeitamente. Fantasia-se de vazio, mesmo não o sendo. Por quê? Por quê, eu pergunto.

- Por quê? Porque apesar de só com a dança se começar, raramente começo por ter medo de não dela passar. Não faço isso constantemente. Faço-o a cada cinco milênios.

- Deveria dançar mais! Só passará da dança, após muitas danças. E mesmo assim, engana-se se pensa que estamos realmente dançando. Damos alguns singelos passos e nada mais. Há tantos níveis de dança que este não é nada.

- Sim, eu sei – e sabia, pois antes, há dezenas de milênios, quando desejava sem realmente saber o porquê, ou o que realmente desejar, antes de descobrir que devia desejar o verdadeiro, dancei. Não dei só singelos passos, dancei uma completa dança. Conduzi e fui conduzido. Cheguei até a me debruçar para o que vinha depois da dança. Mas, não o fiz. Não sabia, não sabia nada e perdi tudo. Quando um nada eu era, tive um caminho livre para o tudo. E agora, quando um tudo eu tento me fazer, só o nada se apresenta. Horrível piada! Terrível piada!

- Nossos singelos passos estão no final – disse parando e se encostando em uma das pilastras, ainda segurando minha mão.

- Sim, eu sei – disse me encostando ao lado dela. – Mas não quer avançar na dança comigo?

- Não, não… – respondeu soltando minha mão. – …tenho muito a fazer para perder meu tempo tentando despi-lo de sua fantasia. Meu caminho não tem espaço para tais obstáculos! Nossos caminhos só podem se cruzar, quando o seu não tiver mais impedimentos. E até lá, outras diferentes oportunidades, já haverão de ter se apresentado.

- Então, nós nos separamos agora?

- Sim – disse voltando para cadeira. – Pegue sua mochila vazia – disse jogando-a para mim. – Você não tem a mínima razão para estar aqui, volte para rua e continue a andar! – exclamou e sentou na cadeira, virando para frente e não me dando mais atenção.

Ali acabou, pelo menos deveria ter acabado, se eu fosse mais consciente. Pois, apesar de que eu tenha primeiro seguido o seu conselho, dirigindo-me até o elevador para ir embora, quando, na frente deste fiquei, esperando que sua porta se abrisse, um gigantesco “não” começou a pairar em minha mente, me mandando voltar e tentar, tentar o máximo que podia ser tentado, tudo que eu pudesse tentar. Naquele momento, não havia mais controle e eu não podia me ver desistindo daquilo que eu nem realmente tinha alcançado. Logo, voltei. Voltei e pela frente de sua cadeira passei.

- Voltei – disse a ela.

Continua!

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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A Queda

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

queda

Um homem cai por uma imensidão vazia, olhando o nada que o cerca. Uma garota caindo na direção oposta, agarra-o e senta-se em seus ombros, cobrindo com suas mãos os olhos dele.

- Quem senta em meus ombros e cobre os meus olhos? – pergunta o homem.

- Ninguém – responde a garota.

- Ninguém me acompanha nesta constante queda. Imagino quando haverá alguém para fazê-lo – diz o homem, pensativo.

- Sim, ninguém acompanha-o nesta terrível queda. Sua horrível e interminável queda para todas as direções verticais e horizontais do vazio eterno. Vazio frio e absoluto! – exclama a garota, retirando as mãos dos olhos dele, estes que se fecham com essa ação, e abrindo-as no ar de modo trágico. – Ó, o horror, o horror! – exclama com um profundo pesar.

- Sim, é ruim – diz o homem com certa indiferença, mantendo seus olhos fechados.

- Então, por que está caindo desta vez? – pergunta a garota, voltando com suas mãos para os olhos dele.

- Desta vez! – exclama o homem revoltado. – Esta é a primeira vez que caio – afirma com certa determinação, mas acaba ficando depois em dúvida.

- É claro, claro – responde a garota com certa ironia. – Por que está então caindo desta primeira vez?

- Caio por essa imensidão eterna, simplesmente porque isso é só o que sei fazer – responde o homem, colocando suas mãos sobre as mãos da garota que cobrem seus olhos. – Desde que descobri que podia cair, só isso tenho feito.

- Não sabe voar? – pergunta a garota, tentando levantar suas mãos, mas não conseguindo devido as mãos do homem que as pressionam fortemente.

- Não, não sei – responde o homem tristemente.

- Nem para os distantes picos gelados onde o ar como o tempo reina numa rarefeita solidão, ou sobre os vastos mares azuis que descem para o total desconhecido onde nascem magníficas e complexas criaturas que esporadicamente se apresentam em sua superfície para esporádicos voadores passantes, ou pelas escuras nuvens trovejantes onde pujantes cargas de energia brincam entre si em completa indecisão, ou rente extensas colinas verdes cobertas por uma eterna densa grama onde se perdem os mais inteligentes seres? – pergunta a garota com entusiasmo, conseguindo mover um pouco suas mãos para frente, tentando fazer suntuosos gestos. Todos impedidos de atingir seu completo e perfeito desempenho pelas mãos do homem.

- Não, já disse que não sei. Não me pergunte de novo – responde o homem irritado.

- Não sabe andar?

- Não.

- Nem pelas isoladas praias de litorais infinitos, ou pelas densas verdes florestas repletas de gigantescas árvores de idades há muito esquecidas, ou pelas movimentadas ruas banhadas na escuridão da noite por múltiplos néons de diversas cintilantes cores, ou por vastos corredores de infinitas alturas repletos de livros à luz de velas…

- Não – resmunga o homem, interrompendo-a.

- Nunca soube?

- Não.

- Então, cai da onde?

- Caio do nada – responde o homem irritado, retirando suas mãos das mãos dela. – Por que o interrogatório? Por que ninguém não me deixa cair pelo vazio sossegadamente? – pergunta cansado.

- Tédio. Não tenho mais nada o que fazer – diz a garota olhando para o nada, mantendo as mãos, mesmo agora livres, sobre os olhos do homem. – Então, por que cai do nada?

-  Você não vai parar, não? – pergunta o homem irritado.

- Não – responde a garota sorrindo.

- Vou responder, então – diz colocando suas mãos sobre as pernas da garota que cobrem seus ombros. – Vê se me entende para não ter de me perguntar de novo. Há muito o nada não foi nada. Não que tenha sido alguma coisa, mas mesmo sendo sempre nada, pelo menos por um tempo, que nunca ocorreu, não foi só nada.

- Foi alguma outra coisa?

- Sim e não. O nada foi algo que era nada, mas parecia com alguma coisa que não era nada, mesmo o sendo.

- Você está inventando tudo isso, não? Só para ter algo para me responder – diz afastando um pouco as mãos dos olhos dele.

- Eu posso calar a boca. Quer? – pergunta meio irritado, afastando as mãos um pouco das pernas dela.

- Não, continue. Só não espere que eu o leve a sério! – exclama reaproximando suas mãos sobre os olhos dele.

- Onde eu estava? – pergunta reaproximando suas mãos sobre as pernas dela.

- No nada, acredito.

- A questão é bem simples. Antes não caía, porque no nada que era alguma coisa, mesmo sendo nada, tinha um chão sólido.

- Só um chão?

- Não, tinha outras coisas como paredes, pessoas, paisagens…

- Verdes colinas e ruas à noite banhadas em néon?

- Em algum lugar, provavelmente. Mas deixe eu continuar. Nesse nada por um tempo tudo pareceu-me muito sólido e existente. Não sabia realmente que estava no nada. Andava por muitos lugares e algumas raras vezes até chegava a voar.

- Ó mentiroso! Então, já chegou a andar e voar. Respondera não, só por odiosa comodidade?

- Não, não minto para ninguém. Nunca andei ou voei, só pensei tê-lo feito quando na verdade estava parado no mesmo lugar. Só notei-o mais tarde quando o fatídico me ocorreu!

- Ó, o horror, o horror! – exclama a garota, levantando tragicamente suas mãos para o alto, mas voltando-as rapidamente para os olhos do homem, logo após acabar seu espetáculo trágico.

- Ninguém não é  nem um pouco normal – diz o homem com ironia. – Voltando. O fatídico me ocorreu, vindo de seu oposto, o magnífico. Por um curto período de tempo, alguém que definitivamente não era ninguém sentou-se sobre meus ombros e ali ficou. Até, que por cegueira minha, caiu. Caiu para nunca mais voltar.

- Ó, o horror, o horror!

- Pare! Assim, a culpa pela queda do alguém que não era ninguém, me fez tropeçar e cair para o sólido e existente chão. A falta do peso sobre meus ombros enfraqueceu minhas pernas e me corroeu por inteiro. Fiquei por muito tempo com a cara no chão, mas finalmente quando o meu vazio se cansou de pedir para ser completo, ganhei novas forças e me levantei. Tudo começou a ficar mais claro a partir de então.

- Você finalmente começou a ver a verdade ao seu redor, entender profundamente todas as minuciosidades do ambiente, as complexidades escondidas à vista de todos, o sentido de tudo que não faz sentido fazendo sentido! – exclama a garota extremamente entusiasmada com a história.

- Não, tudo realmente começou a ficar mais claro, sabe, como claridade, mais luz, mais branco. As paredes, a paisagem, o cenário começaram a ficar transparentes, revelando um grande branco fundo vazio.

- As isoladas praias e as escuras nuvens trovejantes também?

- Sim, também. Eu vou parar de falar!

- Não interrompo mais. Pode continuar.

- Então, tudo estava transparente. O tempo foi o primeiro a ganhar minha atenção, com o espaço transparente, todas as páginas do passado, do presente e do futuro se sobrepujaram umas sobre as outras. O segundo se tornou minuto, que se tornou hora, que se tornou dia, que se tornou ano, que se tornou por fim século. Uma eterna lentidão.

- Uma tediosa lentidão.

- Sim, uma tediosa lentidão assombrada pela culpa, pela falta, pela necessidade de completeza.

- Necessidade que nunca se concretizou. A culpa era forte demais, não? O peso do alguém que não era ninguém nunca poderia ser substituído. Não por você?

- Isso não interessa e não faz parte da história. Deixe-me continuar. Então, com o espaço transparente todos os lugares se tornaram os mesmos e o todo se tornou o nenhum. Não importando o quanto eu me deslocasse, quanto o cenário mudasse, sempre estava no mesmo lugar.

- E sempre estará, não?

- Pare! O mesmo lugar, uma massa uniforme que só mudava visualmente e que nada me fazia sentir além de um mesmo frio vazio. Todas as minhas viagens eram sem destino. Movia-me de lugar algum para lugar nenhum.

- Nunca sabendo realmente onde estava – diz a garota demonstrando profunda solidariedade com a questão.

- Sim, você entendeu. Você sabe do que estou falando! – exclama o homem, feliz por ser compreendido.

- Não, era meio óbvio e eu gosto de brincar com a sua mente. É divertido!

- Calo-me! – exclama em fúria, tirando as mãos das pernas da garota e cruzando seus braços.

O homem se cala. Assim, a garota desce as mãos de seus olhos e colando seus dedos indicadores em cada extremidade de sua boca, abre-a.

- Continuo calado.

- Acabou de falar! – exclama a garota.

O homem continua calado. Então, a garota resolve cruzar suas pernas e tenta sufocá-lo.

- Continuo calado.

- Continua a falar – diz ela com convicção.

Desistindo finalmente, ela volta com as suas mãos sobre os olhos dele.

- As pessoas ficaram também transparentes? – pergunta a garota com indiferença, demonstrando nenhum interesse.

- Não, não no começo – responde o homem, voltando a colocar suas mãos sobre as pernas dela. – Primeiro elas todas começaram a se parecer entre si. Tornaram-se seqüências repetidas, padrões de pouca originalidade, números tediosos. Tudo com pouquíssimas raríssimas exceções.

- Nenhum alguém que não fosse ninguém nessas exceções?

- Não e mesmo se tivesse, eu estava corroído demais pelo vazio para poder enxergar e deformado demais pela primeira queda para ser visto.

- Ou talvez você só quisesse estar assim!

- Ou talvez a claridade tenha sido tão grande que o mais simples se afundou na total confusão. Mas isso não importa mais, já que só me resta agora cair. Foi aí que tudo acabou. O tempo deixou de ser transparente para sumir completamente, o mesmo com as paredes, as paisagens, todo o cenário, por fim todas as pessoas e, então, o chão. O chão deixou de existir, deixou como todo o resto de ser importante. Assim, cai.

- Mas o fantasma da culpa nunca ficou transparente, nunca deixou de existir. Você nunca deixou de se importar com ele. O fantasma que é dois: a culpa e a falta. Você nunca mais conseguiu separar os dois, não? Nunca sozinho, isso seria complicado demais.

- Isso não importa. A história acabou, assim cai do nada e continuo caindo. A ninguém mais isso deve interessar – diz o homem soltando as pernas da garota, que por sua vez solta seus olhos e cai para uma direção oposta a dele.

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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O Mais Horrível Monstro da Existência – Parte 1

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

O homem desiste, não mais corre, não mais olha para topos não mais vistos, não mais espera oportunidades a lhe aparecer, não mais sabe o que fazer, e nem mais finge tentar sabê-lo. Deita no chão vazio, sozinho em seu nada, e mais uma vez dorme. Escuridão, folhas púrpuras, som de passos.

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Uma floresta, onde há espaço suficiente entre as altas e grossas árvores para andar, correr, cantar e dançar, se apresenta, e nela caminha um monstro. Caminha abaixo de um céu de folhas púrpuras, pisando uma eterna grama laranja, num dia iluminado por um pouco visível sol amarelo. E este monstro não é só mais um simples monstro, como aqueles que se espreitam por todos os cantos, tentando se fingir de criaturas sãs pelo uso de ridículas fantasias que só servem para enganar os desatentos olhos dos cegos e, por sua vez, só aterrorizam mais os dotados da visão. Mas sim, um monstro muito pior, terrivelmente pior. Na verdade, provavelmente este é o mais horrível monstro da existência. Um tão horrível que sua descrição só pode ser feita a partir da variabilidade de sua distorcida mente.

O monstro continua a andar pela floresta, rumando para um lugar de igual importância ao de onde veio, o que explica sua grande excitação ao andar, que é quase nula. Seu corpo é pintado pelo púrpura das folhas que são irradiadas pela luz do forte sol amarelo. Assim, caminhando, tomado, como sempre, por um gigantesco tédio, ele é surpreendido por uma forte luz rosa. Um espectro plano de luz no formato de um corpo humano, que parece rapidamente vir em sua direção se espreitando entre as árvores, deslizando pela realidade, e que acaba, ao alcançá-lo, por acertá-lo na cara com uma das mãos, lançando-o ao chão. Ele afunda na macia grama laranja, inconsciente, embarca numa profunda escuridão.

Ao aparentemente voltar a consciência, o monstro abre os olhos e se encontra deitado num pequeno bote de madeira velha. O bote é cercado por um mar negro de sombras e tem sobre si um eterno céu de trevas púrpuras. O gondoleiro, que com seu remo navega o bote na direção do desconhecido, é uma alta criatura com uma negra capa cobrindo todo o seu corpo, que ao olhar para o monstro revela, escondida sob seu capuz, sua face de caveira.

- Um esqueleto encapuzado! Para onde há de ter rumado a criatividade, já não bastava o bote no mar de sombras! – exclama ironicamente o monstro, que se levanta e olha para os lados.

- Cale-se! Ainda não navega por inteiro em meu bote. Ainda encontra desculpas para se recusar a tal. Por que se prende a mentiras que sabe muito bem o assim serem? – pergunta o esqueleto, deixando de navegar, colocando o remo de lado e se virando diretamente para o monstro.

- Porque acredito que na sopa de probabilidades onde me encontro, até o mais horrível monstro pode ainda chegar a felicidade. Prefiro optar pelo desconhecido que posso imaginar, do que pelo desconhecido que pode nem realmente existir.

- Ha, ha, ha… Acredita nisso por ser uma verdade, ou por ser nisso que precisa acreditar? – pergunta o esqueleto, apontando acusatoriamente para o monstro.

- Você sabe a resposta, não? – diz sentando-se, por estar cansado e um pouco desinteressado.

- Não – grita o esqueleto com raiva. – A verdadeira pergunta é se você sabe a resposta!

- Sei, sei muito bem – diz abrindo os braços e mostrado com os olhos o quanto não se importa.

- Então, por que não se entrega a mim por completo?

- Talvez, porque ainda exista a possibilidade de nem tudo eu saber – diz olhando para o lado e passando a mão pelo mar de sombras.

- Mentiras, mentiras e mais mentiras. Quando desistirá? – grita o esqueleto, sem esperar resposta. Depois pega seu remo e dá as costas para o monstro. – Simplesmente volte para o lugar da onde veio – diz desesperançado.

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O monstro de novo perde a consciência e do bote cai para o mar. Seu corpo afunda rapidamente nas águas sombrias, sendo sugado por um redemoinho que o leva de volta a profunda escuridão. Ao voltar a consciência, sente seu corpo deitado sobre a grama, e sobre ele sente algo macio, logo, ao abrir seus olhos, se depara com a mais assustadora de todas as coisas, a verdadeira beleza. A garota está sentada sobre ele, debruçada sobre seu corpo, com seu rosto rente ao dele, com seu olhar fixo no dele. Sua boca se faz em sorriso, seus olhos cegam, seu longo cabelo, que cai sobre seus ombros, brilha com a luz.

- Gostou do tapa? – pergunta a garota, ainda sobre ele e passando a mão sobre seu rosto.

- Por quê? – pergunta o monstro, não conseguindo conter o sorriso de ver tamanha beleza.

- Porque o mereceu, ó meu horrível monstro! Eu nunca conheci alguém tão idiota quanto você, e olha que eu só tenho alguns segundos de vida. O que mais me surpreende é que não o tenha tentado por si próprio.

- Eu o faço, constantemente, só que de outras formas.

- Viu, é realmente um grande idiota! – exclama colocando o dedo indicador sobre o nariz dele.

- Quem é você? – pergunta o monstro ainda imóvel sobre ela.

- Uma fada, o que mais eu poderia ser? Deseja me ver por inteiro – diz agarrando as mãos do monstro e levantando-o com ela. Depois, se afasta e dá um giro em sua frente.

- É… fadas não deveriam ser supostamente pequenas? – pergunta o monstro, ao mesmo tempo que se perde do mundo ao observá-la.

- Preferia estar falando agora com uma garota do tamanho de um inseto – responde ironicamente.

- Não. Mas, quem sabe, pelo menos umas asas ajudavam a convencer!

- Repugnante, simplesmente repugnante. Não me vejo tendo duas assas de inseto nas minhas costas. Coisa nojenta!

- Então, o que exatamente te faz uma fada?

- O rosa que paira sobre mim. Fico linda com esse rastro de rosa cintilante que acompanha todos os meus movimentos, não?

- Isso é meio pouco criativo, não acha?

- Mas te excita do mesmo jeito! – exclama colocando as mãos sobre sua cintura e dando um grande sorriso.

- Sim, sempre… Então, linda fada, por que se encontra aqui na minha presença?

- Porque senti uma necessidade de passar a existir, só para te dizer o quanto um grande idiota você é. Afinal de contas, é o mais horrível monstro da existência. Tão horrível e monstruoso que me dá vontade de rir sem parar!

- Não acha que sou horrível e monstruoso?

- Sim é claro que é. Buuuu – diz levantando as mãos e imitando um fantasma. – Então, ó horrível monstro, o que te faz tão horrível?

- Não vê? Não está claro? – pergunta abrindo as mãos e apontando para si.

- Isso é algo físico? – pergunta a garota em dúvida.

- Não, não é…, mas eu não transpiro algo horrível e monstruoso? Não há algo em minha presença que te repugna?

- Por acaso, já teve pessoas correndo desesperadamente de você, ou talvez correndo na sua direção gritando raivosamente e empunhando tochas?

- Não, mas eu não vou ser o que vai incentivá-las a tal.

- Basicamente, o que está me dizendo é que sabe que é um monstro, porque sabes que é um monstro, e não tem nenhuma prova material disso, porque não quer terrorizar ninguém com a sua presença.

- Talvez.

- Sim, você é horrivelmente monstruoso! – exclama a garota, um pouco cansada de argumentar.

- Viu, eu sabia que era óbvio!

A garota só responde com uma cara de raiva, depois respira e recomeça. – Vejamos, já pensou que talvez o que te faça ser a mais horrível das criaturas seja o fato de que acreditando ser tão horrível, acaba por fim sendo-o, quando realmente não o seria, se assim não o acreditasse.

- Talvez. Mas, talvez eu o sou e o sempre serei, sendo que o que me faz mais horrível é sequer imaginar que isso eu não poderia ser.

- Ou ainda talvez, eu deva lhe acertar mais uma vez na cara.

E, assim, ela o faz, com o monstro mais uma vez sendo jogado no chão, mais uma vez embarcando numa profunda escuridão e mais uma vez acordando no bote. Porém, dessa vez ao abrir os olhos, ele se depara com este ancorado na areia de uma pequena ilha. Uma ilha no centro do mar das sombras, sob o eterno céu de trevas púrpuras e com uma grande, sinistra e interminável torre de pedras velhas cobertas de limo ocupando grande parte de sua extensão. Ele sai do bote e mais uma vez encontra o esqueleto encapuzado, este sentado em um banco ao lado da única porta da torre, lendo um livro. O esqueleto não olha para ele, só aponta, movendo o dedão para trás, para a porta aberta. O monstro vai até o esqueleto.

- Onde estou?

- Por que não entra logo, não vê que estou fazendo algo mais importante! – exclama o esqueleto, ainda não olhando para ele, só lhe balançando a mão para que vá embora.

- Onde estou? – insiste o monstro.

- É um ótimo livro sabe – diz finalmente virando para ele. – Você morre no final! Então, quer saber onde está? Isso é uma piada, não? Eu que deveria estar fazendo essa pergunta!

- Estou onde penso que estou?

- Que boa colocação de palavras! Agora que já acabou a piada, me deixe voltar a minha leitura. Eu adoro reler a parte dos anos de tortura, um material muito engraçado! Vá logo, ela o está esperando.

- Quem?

- Não vamos começar isso de novo, simplesmente vá!

Então, o monstro entra na torre e sobe pela escada espiral que encontra à sua frente. Após muitos milênios, chega ao topo e atravessa outra porta que leva a um pequeno quarto, todo mobiliado, com uma cama, uma escrivaninha e um armário. Ao entrar, mãos macias o agarram por trás, tapando seus olhos.

Continua…

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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Os Fantasmas – Parte 1

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

blue eyes

O homem jogado no chão, levanta-se. Mais uma vez encontra-se sozinho e sem direção, porém sem queda – até essa parece ter deixado de lhe importar. Tragado pelo estático, dá um grito, um grito no vazio para o nada. Uma pequena garota com ávidos olhos aparece e lhe olha seriamente. Ele a olha de volta e fica a esperar que ela fale alguma coisa. Ela nada fala.

- Azuis, lindos olhos azuis, por que me olham? Por que me perfuram?

Ela nada responde.

- Vejo tanto nesses olhos, tanto que quero ver, tanto que raramente vejo! Quero tanto me perder neles, mas há tanta seriedade. Por que há de haver tanta seriedade nesses olhos que a mim neste momento se dirigem? Por quê?

Ela nada responde.

- Eles já foram outros, não? Esses dois profundos oceanos cristalinos já me olharam de uma forma diferente, já correram atrás de mim com a chama que se recusa a se apagar até na mais pura transparente água, no mais puro azul. Dois magníficos brilhantes olhos que já degustaram minha essência! Mas, por que se cansaram? Por que desistiram? Fui eu quem desisti? Por favor, só uma palavra é tudo que peço, só uma e poderei descansar. Só um porquê!

Ela nada responde.

- Então, por que há de me atormentar? Se não me oferece palavras a me completar, se não me oferece uma imensidão onde possa me perder, por que há de me atormentar com a visão de distante tamanha beleza? A tortura se faz assim mil vezes pior! Não há nada que mais evidencie o horror que a beleza não alcançada. E essa seriedade que a acompanha, só faz a me atacar, a perfurar meu peito com uma adaga, a cortar e cortar em mil direções. Quem é? O que quer? Por que enfim vens aterrorizar-me no nada?

- Você sabe quem é! Você sabe que nada quer! Você sabe que no nada não estamos! – exclama impulsivamente uma nova garota que aparece do nada e lhe dá três empurrões para trás enquanto fala. Ela, sorrindo, o olha com sedutores olhos, que devoram, sempre querendo mais.

- Não, não sei quem é. Não sei seu nome – diz o homem, olhando tristemente para a pequena garota.

- Não, não sabe seu nome. Tantas oportunidades e nunca seu nome soube. O meu sabe, não?

- Sim, sei.

- Mas nunca falará.

- Não, nunca.

- Então, por que me aterrorizam aqui neste vazio nada?

- Pare, não estamos no nada. Pare de falar que estamos no nada. Estamos em um quarto, um escuro e pequeno quarto. Se este quarto é feito do absoluto nada, não importa. Ainda não é o nada. O nada é por demais reconfortante para ser comparado a este quarto.

- Sim, um horrível quarto. Obrigado por me lembrar – responde desolado.

- Um solitário quarto no meio da eterna escuridão. Iluminado escassamente por uma tediosa luz amarela, provinda de uma lâmpada suja que está a pairar no fim de um fio solto do teto. Com uma grossa porta de madeira, num canto, dando saída para um profundo abismo de trevas. Abismo infestado de buracos negros, que não consomem, só digerem, e que nem dão vida a novos universos, só a uma compressão estática. Seguindo na parede oposta, de um grande diferente buraco. Buraco disfarçado de janela, esta dividida entre uma camada de vidro fino, a refletir o que há dentro, mas também a deixar as trevas passar, e uma de madeira esburacada, a nada proteger, dando saída para um rio de miséria. Rio que corre tortuosamente do baixo para o mais baixo, subindo depois para o mais baixo ainda. Estando ambas essas saídas desesperadamente reforçadas com tábuas podres, mas consistentes, a fim de impedir a visão do que há lá fora, o fora do mundo que gira em só uma direção, o das trevas, não o fora a sempre ser ambicionado. Impedindo de ver o repetido espetáculo da decadente distorção, mas de nada servindo contra a continua invasão dos gritos de horror emitidos por esse. Terríveis grunhidos vindos de todas as direções, todos produzidos não por uma dor, mas por um esforço.

- Pare! Já sei muito bem como é aquilo que me cerca, não preciso que me digam. Então, se é assim,  por que me aterrorizam aqui neste vazio quarto?

- Aterrorizar. Seria você alguma coisa sem nós?

- Não, não seria.

- E sequer se movimentaria?

- Também não.

- É… mas também isso mal faz mesmo na nossa presença.

- Não comece.

- O quê, é só uma verdade que estou apontando! Como é mesmo… é o andar sem parar para sempre estar no mesmo lugar. Andando de lugar algum para lugar nenhum, nunca chegando a um lugar melhor. E isso serve para alguma coisa? Não, nunca. Anda para cima, para baixo, para dentro, para fora, para os lados, em círculos, nunca encontrando algo real, algo de belo, algo que te faça não mais andar pelos lugares onde não se pode ficar parado, algo que te deixe repousar sem ser devorado por aquilo que destrói, que corrói, que a tudo cerca com a devorante nevoa. É o simplesmente andar entediado para o encontrar de mais tédio, o que só compensa por impedir que vire parte deste próprio tédio, parte da ficção que este é, que só é, fazendo todo o resto não ser. É a movimentação em dois planos, o primeiro, o em que flutua na massa amorfa, onde tudo é igual por nada realmente existir, o segundo, o aonde está desda pré-história, onde tudo se mascara de diferente pela complicação do simples. No primeiro só se caminha para frente e apesar de devagar, pelo menos nunca se volta. No segundo se caminha para todos os lados, mas não se chega a nenhum, e sempre se tem de voltar para aqui, este miserável quarto. Quarto o qual nunca se quis estar em primeiro lugar, mas que pelo menos protege da visão do horror, ou talvez não, talvez só reconforte oferecendo o alimento da ilusão, ou ainda pior, talvez só seja uma grande armadilha, a lhe espreitar a todo momento, preparada a sufocá-lo embaixo das almofadas da mentira. Sim, definitivamente uma armadilha! Já pensou nisso?

- A cada segundo passado aqui dentro, porém a armadilha que conheço é melhor que a armadilha que desconheço.

- E que armadilha é essa?

- A armadilha da impossibilidade que se fantasia de possibilidade até o momento em que é tocada.

- Cair constantemente em diferentes armadilhas é muito melhor que ficar para sempre preso em uma só.

- Sim, mas é difícil se acostumar a ser enganado – diz cansado, colocando uma mão sobre sua face, olhando para baixo pensativo. – Pare, simplesmente pare e vá embora!

A garota em resposta, puxa uma cadeira e se senta à sua frente.

- Não adianta, não? Você não vai embora?

- Não, é impossível. Você me adora demais para isso! Mas paro de falar, se isso é o que finge que deseja.

Continua…

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

Mais detalhes sobre o livro aqui!

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Nova edição impressa do Um Grito no Vazio para o Nada!

Posted on 25 novembro 2009 by admin

livrologo

Um romance banhado em diálogos filosóficos que vagam pelo vazio apontando para o nada. Narrando a saga de um homem em situações que perfuram a realidade e flutuam pela existência. Uma saga a perfurar a condição humana na sua eterna investigação!

É a história de um homem, ou talvez um garoto, sozinho na claridade a procurar as respostas às perguntas as quais já conhece muito bem, mas as guais também não consegue assumir em sua vida. Um ser que é apaixonado, sentimental, insano e doido. Porém, realista com suas ilusões.

Agora em sua segunda edição impressa pelo Clube dos Autores!


Compre no site da editora!

http://clubedeautores.com.br/book/8936–Um_Grito_no_Vazio_para_o_Nada

No livro se encontram ao todo 16 contos: O Velho e a Pequena Garota, A Queda, Ela…, O Ser Não Existente e a Idéia de Existência, A Grande Muralha, A Corrida, Olhando para Cima, O Mais Horrível Monstro da Existência, Inclinação para uma Queda, Os Fantasmas, Seguindo a Rua, O Sério e o Palhaço, Detalhes para o Enterro de um Vivo, Enterro, Um Ensaio sobre a Água, e O Homem e a Pequena Garota.

Alguns são puros diálogos existenciais, outros se emaranham por situações surreias, e ainda mais outros se compõem em aventuras psicodélicas.

Seguem algumas citações:

“Penso, penso no sentido de tudo aquilo que não faz sentido e quanto tudo isso não faria nenhum sentido se tivesse algum sentido.” (O Velho e a Pequena Garota)

“Lugar algum é extremamente alegre até o momento que você descobre onde está, assim se torna extremamente tedioso. Você acaba tendo que rumar para lugar nenhum.” (O Velho e a Pequena Garota)

“Então, tudo estava transparente. O tempo foi o primeiro a ganhar minha atenção, com o espaço transparente, todas as páginas do passado, do presente e do futuro se sobrepujaram umas sobre as outras. O segundo se tornou minuto, que se tornou hora, que se tornou dia, que se tornou ano, que se tornou por fim século. Uma eterna lentidão.” (A Queda)

“Acidentes têm a capacidade de levar a todas as direções: ao alto da montanha, ou ao fundo do poço; ao deserto mais quente, ou a geleira mais fria; a floresta mais verde, ou a cidade mais cinza. Mas esse acidente veio acompanhado daquele que sempre dá fim, ou início, ou às vezes ambos, com um saindo do outro. O fatídico!” (O Ser Não Existente e a Idéia de Existência)

“Tens o desejo de atingir o belo imediatamente, tens o desejo de nunca mais ver o horror. Queres que haja uma diferente forma de se seguir, sem confrontar mais horrores. Mas não há! Não tens escolha! Sua única dúvida vem do querer de ter escolhas. Tens de desistir, pelo menos por enquanto não atingiras o belo neste momento.” (A Grande Muralha)

“Nada nunca gira em torno da inação, nem nunca vai girar. Do estático não nascem universos. A ação é sempre necessária para se alcançar aquilo que se quer. E se se quer sentir algo verdadeiro, algo belo, é necessário correr. Correr sem parar.” (A Corrida)

“A verdadeira questão é que o tempo não deve ser seguido, mas sim, moldado. Não se pode esperar um momento propício, deve-se criá-lo. E todo o esforço para sua criação, não deve vir de um preparo, mas sim de uma natureza assumida, de um estado de ser.” (Olhando para Cima)

“Não és uma árvore fincada ao chão que se recusa a crescer por desejar se movimentar, és, na verdade, uma tartaruga! Uma tartaruga com asas que tem medo de voar. Uma tartaruga que encontrou um buraco numa árvore e lá se escondeu. Numa árvore que, por um certo tempo, lhe ofereceu todas as ilusões necessárias para alimentar a negação do medo, mas uma na qual, por fim, não agüentas mais estar. Já que escondendo-se por tanto tempo, acabou no desespero do isolamento por ser tomado pela visão. A visão que lhe agarrou despercebido e lhe impulsionou para sair, mas que não ofereceu algo para combater esse medo.” (Inclinação para uma Queda)

“Então, por que há de me atormentar? Se não me ofereces palavras a me completar, se não me ofereces uma imensidão onde possa me perder, por que há de me atormentar com a visão de distante tamanha beleza? A tortura se faz assim mil vezes pior! Não há nada que mais evidencie o horror que a beleza não alcançada. E essa seriedade que a acompanha, só faz a me atacar, a perfurar meu peito com uma adaga, a cortar e cortar em mil direções.” (Os Fantasmas)

“Mas sabia que tinha encontrado o certo. Pois, como há muito tinha identificado, cada ser transmite vibrações, com cada movimento, com cada palavra e com cada olhar. Tudo em conjunto transmitindo o que a pessoa é, ou que se apresenta sendo, ou que deseja ser, ou que se recusa a ser. E essas são vibrações perigosas que no cotidiano devem ser bloqueadas a todo custo, já que qualquer uma pega a esmo de um mar infestado de monstros, pode derrubar a mais forte das criaturas. Porém, quando se vê um reluzente brilho, já que nenhum bloqueio pode realmente chegar a escondê-lo, há de se liberar para que todas as vibrações deste possam passar.” (Seguindo a Rua)

“Aquele que sabe é mais horrível que aquele que não sabe, pois aquele que sabe, é, enquanto aquele que não sabe, não é. O que não sabe, não é, logo não importam o quanto horríveis são seus atos, já que ele é só um personagem de ficção, que se passa por real só por fazer parte da maioria. Maioria que é, que se compõe de milhares sendo una e indiferenciada, que escreve as ficções que seus personagens não existentes, que nem são, irão interpretar. Já aquele que sabe, é, logo escreve a si mesmo e se encontra culpado de todas as suas ações.” (O Mais Horrível Monstro da Existência)

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A Corrida – Parte 1

Posted on 23 junho 2009 by admin

corrida

O homem, ou talvez um homem, um que desconheceu a existência de qualquer muralha, um que soube prosseguir deixando para trás os que caíram a tal impedimento, continua correndo pelo nada, seguindo para qualquer lugar. Uma garota aparece voando e segue ao seu lado.

- Por que corre? – pergunta a garota.

- Corro por ser necessário correr, por só isso poder fazer, pelo oposto ser demais assustador e repugnante para poder deixar de fazê-lo. Não posso ficar parado. Não quero ser deixado sozinho para trás. Sim, exatamente isso, pois desdo início da existência esse tem sido meu maior medo: ser deixado sozinho para trás! Mas e você, por que voa? Ou melhor, como voa?

- Vôo por voar, por sempre assim ter sido, por sempre assim ser e por sempre assim continuar sendo, já que no voar nenhum desses importa, pois todos são sempre os mesmos. Desdo início, que não se deu de um fim, esse tem sido o meu único real motivo: voar por voar. Assim, vôo sobre os mais altos picos, onde não há mais caminhos a subir, nem fins a dar começo; vôo sobre os mais extensos oceanos, onde tudo aquilo que é se faz de um, sem nunca deixar de mostrar as suas minuciosas particularidades sob sua transparente superfície; vôo sobre a densa floresta, onde todos aqueles que procuram, estão a se deslumbrar com a paisagem, nunca a realmente encontrar o que buscam; vôo sobre a cidade em ruínas, onde a ordem se restabelece tomando sutilmente a falsa organização, e, por fim, nesta cidade, em seu templo central, passando pelas gigantescas pilastras, vôo sobre o lago das límpidas águas verdes, onde o maior de todos os segredos se encontra. Mas, então, perguntas também como vôo. E a isso, só posso responder que é tão simples e tão fácil que nem posso realmente explicá-lo com palavras.

- É claro, sim, é tão fácil! – exclama desolado.

- Mas então, por que necessita correr? Por que tem tanto medo de ser deixado para trás?

- Porque tudo sempre está em movimento. Pelos menos, tudo aquilo que é real e vale a pena ser sentido sempre está. Nada nunca gira em torno da inação, nem nunca vai girar. Do estático não nascem universos. A ação é sempre necessária para se alcançar aquilo que se quer. E se se quer sentir algo verdadeiro, algo belo, é necessário correr. Correr sem parar. Além disso, se não se é rápido o suficiente, te abandonam, te deixam para trás sem se importar, te deixam sozinho, completamente sozinho, perdido na multidão estática. E eu não quero ficar assim, não quero ficar sozinho, não quero ser aquele único esquecido, não quero ser aquele único a não desfrutar de tudo que está pela frente e, o mais importante de tudo, não quero ser aquele único a assim estar mesmo tendo consciência disso, mesmo tendo a visão. Por isso corro e enquanto corro, posso ainda ser o mesmo que seria enquanto parado, mas nesta ação continua, posso também não o ser, posso, pelo menos, estar a deslumbrar a possibilidade que antes não tinha.

- Mas por que correr? Por que não só andar calmamente? Não seria mais prático, mais fácil, que ficar nesta corrida desesperada? Pois, mesmo que lentamente, ao se manter em movimento, sempre se chega ao que há pela frente.

- Sim, mas se chega tarde demais, quando todos já foram embora e só sobraram os restos daquilo que havia a ser desfrutado. A corrida pode ser só minha, mas isso não nega o fato que há outros também nela, que estão nela, mesmo estando a seguir suas próprias corridas. Outros movidos pelas mesmas forças que me movem, com os mesmos objetivos, a disputar o pouco que sobra daquilo que é corroído pela multidão estática, esta que consome e destrói, apesar de nada realmente querer, por nem essa capacidade ter. Assim, não posso seguir só andando, porque não quero viver de restos, não quero viver de experiências usadas, quero o que seja inteiramente meu, do início ao fim.

- Não vejo tanta escassez assim do que há a ser desfrutado, nem uma necessidade de correr. Será que o que a firma é uma verdade ou, em vez disso, mero um reflexo do desespero?

- Não sei. Pode ser só um reflexo, não posso negar essa possibilidade, mas quem sabe? Talvez sim, talvez não. Tenho noção que o andar é muito mais ordenado que o correr, que andando se chega eventualmente ao que se quer, chegando com muito mais clareza, com muito mais certeza, abrangendo muito mais detalhe do que se deseja, que se correndo. Mas há de se entender que para aquele a que algo falta, andar é por demais lento e, assim, por demais arriscado enquanto ainda se beira o abismo do estático. Com a falta, não se pode andar, a dor é por demais devorante para só se dar meros passos, é necessário correr, correr desesperadamente para finalmente alcançar.

- Com a minha exceção, não há mais ninguém para qualquer lado. Se seu objetivo é não ser deixado sozinho para trás, do que vale estar na frente, estando do mesmo jeito sozinho, sendo o único?

- É… na frente? Eu… digamos… meio que… na verdade, não tenho assim tanta certeza de onde exatamente me encontro nesta corrida.

- Como assim, não ultrapassou a todos?

- Não sei, talvez…. eu espero que este seja o caso!

- O quê?

- Não sei, não tenho certeza, nunca vi alguém correndo comigo.

- Nunca?

- Sim, nunca.

- Nunca viu alguém correndo nesta sua trajetória?

- Não! Não na minha, não em outra. Antes de você, acho que, no máximo, vi uma vez dois outros voando juntos alegremente à distância. Não pude muito distingui-los, mas eles pareciam ter tudo aquilo que eu sempre quis, pelo menos que eu quis a partir de então. Mas posso estar errado, pode ter sido alguma outra coisa, pode ter sido só uma criação minha, a apresentar-me exatamente o que eu queria ver. Especialmente porque um deles, com exceção da parte da alegria, se parecia muito comigo. Mesmo assim, o que quer que tenha sido, não importa, já que eles me ignoraram por completo.

- Logo, não tem a mínima idéia se está na frente?

- Não, mas eu devo estar, já corro há tanto tempo que devo estar, espero.

- Por que não pára e espera para ver se alguém o alcança?

- Mas e se não estiver na frente, e se estiver atrás. Se paro no nada, e ninguém aparece é porque estão na frente, e se o estão, parado, perco a chance de alcançá-los.

- Mas e se estiverem atrás, se continuar correndo, nunca vai encontrá-los e sempre vai estar sozinho.

- Sim, mas de novo, e se eles estiverem logo à minha frente. Se eu parar agora, posso perder minha única chance de alcançá-los. E mesmo estando sozinho, é melhor estar na frente, do que estar mais atrás do que se imaginava.

- É, tudo bem, se assim deseja, pelo menos ainda pode dizer que avançou muito na sua corrida!

- Ah… é… talvez.

- Como assim talvez, se corre sem parar, estás avançando, não?

- Não sei se notou ou não, mas durante toda a nossa conversa até aqui, tudo ao nosso redor se manteve completamente inalterado. E é sempre assim, tudo é sempre permanentemente igual. Logo, eu espero ter avançado, mas correndo sem parar por este nada sem definição alguma, não dá para ter realmente certeza. Posso ter feito de tudo, posso ter corrido em linha reta, posso ter dado voltas, posso ter corrido eternamente sobre o mesmo lugar. Mas, mesmo assim com todas essas possibilidades, tenho total certeza que não fiquei parado esse tempo todo, pelo menos, eu espero que não tenha ficado!

- Tem certeza de alguma coisa?

- Talvez.

- Vamos ver, corre para não ficar para trás, só que não tem a mínima idéia se está na frente, ou se está atrás, e pior ainda, nem sabe se realmente se movimentou para alguma direção.

- É… não tenho certeza, o que mais quer que eu diga? Talvez sim, talvez não, talvez tudo, talvez nada, quem sabe?

- É… quem sabe?

- Não eu.

- Definitivamente, não você.

- Já pensou que talvez esteja na trajetória errada?

- Sim, talvez, mas a minha trajetória é a que sempre é. É a trajetória da maioria, a em que esta sempre está, mas a em que não anda por estar presa sob as grades da mentira, no reino do horror, a ser digerida pela ignorância. É a em que todos aqueles que se libertam seguem. E tenho quase certeza disso!

- Quase?

Continua!

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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O Velho e a Pequena Garota

Posted on 19 junho 2009 by admin

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Um velho está sentado numa pedra no meio do nada, olhando para o nada. Uma pequena garota aparece, vinda de lugar algum para lugar nenhum e vai até o velho. Ela o olha e assim pergunta-o.

- O que você está fazendo? – diz ela despertando pela primeira vez a atenção do velho, que até então não a notara.

- Penso, penso no sentido de tudo aquilo que não faz sentido e quanto tudo isso não faria nenhum sentido se tivesse algum sentido – responde o velho olhando para a garota, analisando-a.

- Isso não faz nenhum sentido – diz a garota.

- Sua afirmação faz muito sentido – diz o velho voltando a olhar para o nada.

- O que olhas? – pergunta a garota.

- O nada. Há muito a se ver no nada. Olhe – diz o velho apontando para o nada.

A garota olha na direção que ele apontou.

- Nada vejo – diz a garota.

- Sim, nada se vê. Essa é a verdade absoluta – diz o velho continuando a olhar para o nada.

- Estou entediada – diz a garota.

O velho com um rápido movimento volta a apontar para o nada. A garota de novo olha para direção apontada. O velho continuando a apontar para o nada, começa aos poucos a mover seu dedo em outra direção, a da garota, que o olha fixamente. O velho, então, pára o dedo apontando para o nariz da garota. A ponta de seu dedo a toca. A garota continua a olhá-lo.

- De onde você veio? – pergunta o velho.

- Lugar algum – responde a garota.

- Para onde você vai?

- Lugar nenhum – responde a garota, agora segurando o dedo do velho, que continua tocando seu nariz.

- Onde você está?

- Quem sabe? – retruca a garota, levantando a outra mão, tentando alcançar com o dedo o nariz do velho, sem realmente consegui-lo.

- Já estive em lugar algum, também em lugar nenhum, mas não tenho a mínima idéia onde estou – responde o velho, segurando o nariz da garota, puxando-o mais para perto para que a garota possa alcançar com o dedo o seu nariz.

- Eu odeio lugar algum! – exclama a garota, finalmente alcançando o nariz do velho. Ele que já soltara o nariz dela e voltara a só tocá-lo com a ponta do dedo.

- Lugar algum é extremamente alegre até o momento que você descobre onde está, assim se torna extremamente tedioso. Você acaba tendo que rumar para lugar nenhum.

- Verdade – responde a garota, empurrando o velho para trás com o dedo sobre seu nariz.

- Mas lugar nenhum pode ser pior.

- Não! – exclama a garota estarrecida.

- Sim, muito pior – reafirma o velho segurando o dedo da garota, impedindo o constante empurrão.

- Não! Não! Não!

- Sim, mas tudo depende de como você age. Quem sabe para você pode ser melhor!

- Por que é tão difícil?

- Porque ninguém ainda encontrou o caminho para lugar melhor. Se é que existe!

- Mas tem de existir!

- Assim, eu espero também. Talvez aqui – diz o velho, subindo seu dedo para a testa da garota.

- Ou talvez aqui – diz a garota descendo seu dedo até o queixo do velho.

- Talvez.

- Sim, talvez. O que devo fazer em lugar nenhum? – pergunta a garota.

- Você devia saber! – exclama o velho voltando com o seu dedo para o nariz da garota e empurrando o dela de volta para seu nariz.

- Mas não sei.

- Por onde posso começar? Sim, sim. Primeiro você tem de aprender o máximo possível. Mas preste atenção, todos que quererão te ensinar, só te ensinarão o que você não precisa saber. Aqueles que não nomearei, só querem lhe ensinar tudo aquilo que melhor lhes permitir controlá-la. Deves repugná-los o máximo possível!

- Mas você quer me ensinar coisas. Devo repugná-lo? – pergunta a garota, interrompendo o velho.

- Primeiro, foi você que perguntou. Segundo, não estamos em lugar nenhum. Logo, não posso agir como aqueles que estão lá. Não sabemos onde estamos e só podemos agir como aqueles que não o sabem. Então, posso continuar?

- Tarde demais, já estou a repugná-lo.

- E eu também a você.

Nesse instante, cada um solta o dedo do outro, e com os dedos tocando seus narizes começam a fazer um movimento giratório. Isso se dá por alguns minutos, até que finalmente param, voltando a tocar um o nariz do outro, começam a se empurrar dessa maneira, mas logo com a outra mão seguram um o dedo do outro.

- Posso continuar? – pergunta o velho.

- Não – responde a garota.

- Mesmo assim continuarei. Outro fator extremamente importante em lugar nenhum é que não deves confiar em ninguém.

- Não devo confiar em você?

- Pare! – exclama o velho meio irritado.

- Devo confiar em mim? – pergunta a garota.

- Provavelmente não. Eu não o faria!

Em resposta a garota começa a pressionar com mais força o nariz do velho.

- Por que não? – pergunta a garota.

- Se você não sabe se deve confiar em si própria, como devo eu confiar em você?

- É que, às vezes, eu me sinto como se fosse só uma espectadora, sem poder controlar minhas ações, só julgá-las à distância. Sou duas.

- E? – pergunta o velho segurando com mais força o dedo da garota que o empurrava.

- E o quê?

- Sou sete. Quatro provavelmente planejam me matar. Os outros três riem de mim constantemente. Mas, mesmo assim, confio em todos – diz o velho pegando o dedo da garota e mordendo-o.

- Ah! Por que fez isso?

- Um dos sete estava entediado. Não posso controlá-lo.

- Ó, a minha outra também está entediada. Não posso controlá-la – diz a garota mordendo o dedo do velho.

Após um momento, voltam a só tocar um o nariz do outro.

- Confias em mim? – perguntam ambos simultaneamente.

- Sim – respondem ambos entre si.

- O que mais preciso saber sobre lugar nenhum? – pergunta a garota.

- Só que deves se acostumar a ficar entediada por longos períodos de tempo.

- Ah, que tédio! O que vamos fazer agora?

- Descreva-se.

- Por quê, és cego?

- Não sei. Acredito que não. Na verdade nunca conheci alguém que não me parecesse cego. Logo, não sei se este é o estado normal das pessoas, ou se só os vejo assim.

- Mas eu te vejo!

- Sim, estamos conversando. Logo, você me vê. Não és cega, se fosse teria passado direto. Mas eu não a vi, então, sou cego!

- Talvez não, talvez só estejas mal acostumado. Nunca és visto?

- Não nunca. E você o és?

- Não sei, você não me viu.

- Não, mas como você disse, estava cego por não ser visto. Se você vê, então pode ser vista, não é?

- Espero – diz olhando-o desolada. – Mudemos de assunto. Quer saber como sou?

- Sim, quero saber cada detalhe de quem foi capaz de me ver. Espero por isso há muito tempo.

- Assim descreverei-me. Tenho cabelos que cobrem à minha cabeça. Tenho dois olhos, que vêem aquele que não era visto. Tenho uma boca que conversa com aquele com quem ninguém conversava. E, é claro, tenho um nariz e na ponta deste tenho um dedo, ligado a uma mão, ligada por sua vez a um braço, ligado enfim a alguém que quero ver e com quem quero conversar. Agora é a sua vez.

- Sim, é claro. Tenho também cabelos que cobrem à minha cabeça. Tenho dois olhos, que até agora, só viam todos que não os viam e nenhum que os queria ver. Tenho uma boca, que queria falar, mas se manteve calada até alguém começar a falar com ela. E finalmente, tenho um nariz e na ponta deste tenho um dedo, ligado a uma mão, ligado por sua vez a um braço, ligado enfim a alguém que me viu e falou comigo.

- Agora sabemos como somos. Há, então, mais algo a se saber?

- Não. Não há nada mais a se saber, só tudo aquilo que não precisa ser desconhecido! – exclama o velho. – Mas isso não precisas de mim para descobrir – diz soltando o dedo da garota, que toca seu nariz.

- Devemos, então, nos separar? – pergunta a garota, afastando seu dedo do nariz dele, sem saber o que fazer.

- Sim. Tens de continuar seu caminho para lugar nenhum. É inevitável! – exclama afastando, por sua vez, seu dedo do nariz dela.

- Não sei se quero continuar, prefiro não saber onde estou! – exclama voltando a aproximar seu dedo do nariz dele.

- Mas não podes, sua preferência nunca esteve em jogo, não há uma opção – diz pegando o dedo dela e o afastando de seu nariz. – Para ter total certeza que não se sabe onde se está, deve-se primeiro rumar para lugar nenhum e lá por um tempo ficar. Só assim pode-se entender por completo que não se pode saber onde se está.

- Você vai esperar por mim? – pergunta tristemente colocando seu dedo sobre seu próprio nariz.

- Não, não posso. Agora que fui visto não posso mais não saber onde estou, tenho que continuar meu caminho.

- Mas para onde?

- Lugar melhor – responde colocando seu dedo sobre seu queixo.

- Mas você disse que… – pára, entendendo, enfim, as palavras dele. – Sim, compreendo-o. Devo seguir, então.

- Sim, deves.

- Até nunca – diz a garota, triste, levantando seu dedo para o velho, tentando uma última vez tocá-lo.

- Até sempre – diz o velho, que levanta seu dedo em encontro do dedo dela.

Seus dedos se tocam e logo se desencontram. A garota segue por seu caminho, o velho a observa indo embora. Num último momento, no entanto, ela querendo vê-lo por uma última vez, pára e olha para trás. E, assim, nada vê, já que não há nada a ser visto.

Parte integrante do livro Um Grito no Vazio para o Nada!

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