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Um Homem Chamado Jacó: Um Faroeste Real Parte 2

Posted on 07 dezembro 2009 by admin

Capítulo II – Em que lutam para sobreviver e vovó faz visita

samurai

A vida estava difícil, nós estávamos perdidos, com fome, e morrendo de calor. Mamãe ainda estava perturbada pela morte de Patrícia, papai havia perdido três dedos do pé esquerdo, após ter comido suas botas e dormido com o pé virado para um formigueiro, e Lola e Hans tinham poucas forças para avançar nos carregando. Uma floresta de altas e grossas árvores nos cercavam para todos os lados. Nossa rotina diária era procurar comida pela manhã e tentar encontrar nosso caminho pela tarde. Nossa última refeição decente fora um bom em suculento lagarto, sobrevivíamos de pequenas frutas secas. Nas nossas explorações na floresta, papai me contava de sua infância na Áustria: “Tomás, você sabe de algo, na sua idade, eu já tinha um chapéu. Era um bom chapéu! Não um chapéu de gente rica, mas um bom chapéu do mesmo jeito. O trabalho nas minas de carvão me possibilitava ter um bom chapéu! E eu era bom nele.”; e ele continuava: “E você sabe, eu vim para este país com o meu chapéu. As pessoas no barco sempre diziam o quanto bom era o meu chapéu! E você sabe o que aconteceu com o meu chapéu? A sua avó aconteceu! Ela disse que eu só poderia casar com a sua mãe, se eu me livrasse do meu chapéu. Você sabe o que ela se atreveu a dizer: que o meu chapéu era velho e cheirava mau. E eu disse não. Não me importava, nada me faria me separar de meu chapéu. Não me importava que a sua mãe se oferecia para mim tão facilmente, eu podia conseguir isso em qualquer lugar, mas eu não conseguiria com tanta facilidade um bom chapéu. Mas aí, a sua avó me ofereceu um emprego na loja de sapatos do velho Silvestre. Você se lembra dele, não? Aquele velho bastardo! Ela me disse que logo ele iria morrer e facilmente me deixaria o negócio. E eu acreditei. Hum… aquele velho deve estar lá agora na loja, com seus cento e quatorze anos, contando o seu dinheiro. E eu desisti de meu chapéu!”; e ele continuava: “Mas você sabe de uma coisa, adivinha quem não está no rio! Não conte a sua mãe, mas depois de tudo que a sua avó fez, eu nem morto ia carregar ela até o rio. Se lembra daquele bife que nós comemos logo depois que ela morreu? Então, eu troquei ela com o açougueiro chinês do fim da rua. Finalmente, ela serviu para alguma coisa!”; e ele continuava: “Meu deus, era um bom chapéu!”.

A cada dia que passava, a comida ficava mais difícil de encontrar, e Lola e Hanz mais fracos para avançar. Lola sempre estava a contar até dois, esperando comida em retorno. Hanz, por sua vez, era mais triste, e só olhava para o vazio com seus grandes olhos. Um dia nós só tivemos como refeição uma pedaço de cacto, um que mamãe guardava consigo, vestia, enfeitava, e chamava de Patrícia. Uma manhã, papai me colocou a procura de comida sozinho, ele disse que não avançaríamos aquele dia, e que eu só deveria voltar à tarde com o máximo que conseguisse encontrar. Senti-me como um destemido cowboy a procura de suprimentos para a pobre caravana que estava protegendo. Pelo caminho, catando as frutas secas e os insetos que encontrava debaixo das pedras, minha cabeça pairava pelo meu passado, por lembranças da vida fácil engraxando sapatos dezoito horas por dia na grande cidade, por lembranças de Maria-Susanna, quando ela me agarrava pela mão e me levava para os corredores escuros da igreja, me pedindo um centavo e levantando sua saía, por lembranças das brincadeiras de piratas na caravana, e como os disfarces de Washington e Beltrano, me lembravam das amigas enfeitadas de minha avó que três vezes por semana tomavam chá por oito horas lá em casa, e mais que tudo, me lembrava de como Ruiva me fascinava. Falando a verdade, a maioria do tempo eu só pensava em Ruiva, eu falava com ela constantemente em minha cabeça, contava-lhe tudo que acontecia comigo, e como me tornaria em breve um destemido cowboy. Por alguma razão nem mesmo na minha cabeça ela parecia gostar de mim, continuava sempre me chamando de nomes estranhos e me dando tapas. Estando sozinho no meio da floresta, mantinha minhas conversas e observações em voz alta, pensando que não iria despertar a atenção de alguém, quando à minha frente apareceu um velho japonês.

Quando ele apareceu à minha frente, me assustei e caí para trás. Mas não iria fugir, um verdadeiro cowboy não teria medo de um japonês, e ainda mais era só um e velho, quando abandonamos Beltrano Smith e sua família à própria sorte, era uma tribo inteira. Rapidamente, me posicionei para uma luta, lá na cidade eu tinha visto uma vez uma luta do famoso boxeador Ahmed Hattah, e eu sabia o que fazer. O velho japonês descaradamente riu quando eu fiz isso, parti para o ataque, mas a única parte depois disso que eu posso me lembrar, é que ele me acertou na cabeça com um grande pedaço de pau. Depois, eu me lembro de escuridão, cortada com flashs, eu olhando para cima, o velho me tacando fumaça e folhas, falando comigo, cantando, várias vezes me chamando de Baka, provavelmente um elogio reconhecendo a minha bravura. Quando voltei a consciência, me encontrei em um estranho lugar. Parecia a floresta, mas as árvores se balançavam como a água caindo da torneira, e a terra que cobria o chão estava completamente pintada de vermelho. Uma neblina tapava a distância. Comecei a andar por aquele estranho lugar, tentando encontrar uma saída para a floresta onde estava, quando uma coruja apareceu à minha frente e ficou a me olhar profundamente. Depois saiu voando para o meio da neblina, corri atrás dela. E ela acabou entrando em uma estranha cabana que parecia um funil ao contrário coberto de couro. Segui-a lá dentro, e no meio do lugar, vi minha avó em uma cadeira de balanço, ao lado de uma fogueira. A coruja parou em seus pés, e pegando uma caixa de graxa, começou a engraxar as suas botas. Minha avó estava lá, sentada, olhando para mim, com seus olhos vermelhos de beber chá, tricotando um chapéu com a pele arrancada de seus braços. Falei-lhe: “Mamãe Margot Escarlate, onde estou? O que está acontecendo?”; Mamãe Margot Escarlate era como minha avó gostava de ser chamada, não me pergunte o porquê.  Ela nada me respondeu, só olhou para o lado, acompanhei-a e vi no canto da cabana um pequeno armário cheio de gavetas. De uma delas saiu um esquilo com um tapa olho no olho esquerdo carregando um grande relógio, quase do mesmo tamanho que ele. Ele parou nos olhando com o relógio ao seu lado e deu-lhe corda. Os ponteiros do relógio começaram a girar bem rápido, sem parar. Não entendi absolutamente nada, e olhei para vovó. Ela me olhou e disse: “Quantos dias se passaram?”. Respondi-lhe: “Não sei, não prestei atenção!”. E ela continuou: “Tolo! Você é um tolo, jovem Baka! O tempo corre e nada vês, o tempo passa e nada faz, o tempo é e nada és! Só aquele que trilha seu próprio caminho pode chegar até o final. Só aquele que voa como o esquilo pode comer a noz. E a noz é redonda! É redonda! Jovem Baka só poderá seguir pelo seu caminho quando entender que a noz é redonda! Nenhum baka sem chapéu pode entender que a noz é redonda! E você só terá seu chapéu, quando um jovem baka não mais ser!” E eu, ainda sem entender nada, só lhe disse: “Hum… o quê?”. E ela continuou: “Tolo! Tolo, Jovem Baka! Agora vá! Mas lembre-se, tome cuidado com o norueguês!”. Eu ainda não entendi nada e disse: “O quê?”. Mas minha avó nada mais respondeu e deixou de me olhar. Fiquei lá parado, sem fazer o que fazer, quando da escuridão da cabana apareceu o destemido David Cohen, ele sorriu para mim, e depois levantando uma espada de kendo, decepou a cabeça de minha avó. Imediatamente o esquilo que estava no canto, largou o relógio e atacando David Cohen, se dependurou em sua face. A cabeça decepada de minha avó caiu na fogueira, fazendo as labaredas subirem e começarem a queimar a cabana. A coruja que estava engraxando as botas de minha avó, com o espalhar do fogo, agarrou a sua caixa de graxa e saiu voando para a entrada, no caminho me acertou na cabeça com a caixa. Cai, inconsciente.

Ao acordar estava no meio da floresta, onde havia encontrado o velho japonês. Mais uma vez sozinho, peguei as frutas e insetos que já havia recolhido e rumei de volta para a carroça. Chegando lá, logo notei algo estranho, Lola não mais se encontrava. Papai disse que Lola tinha se soltado da carroça e fugido. Foi um grande desapontamento, Lola era o meu cavalo favorito, meu espírito de cowboy foi de certa forma arranhado com sua traição. Como poderia ele ter feito isso conosco, mesmo estando tão fraco, como Lola poderia ter se livrado de suas fortes amarras e simplesmente nos deixado para morrer aqui. Pelo menos, em compensação, neste mesmo dia, papai, que havia ido procurar comida em outra direção, matou um urso, nos dando carne para uma semana. Quando voltei, já tinham arrancado toda a carne do animal, então não tive oportunidade de realmente ver o corpo e como papai destemidamente tinha lhe matado. Mesmo assim, soube de tudo em detalhes, pois papai em todas as refeições por uma semana não parava de se gabar de como havia enfrentado o urso. E era bem interessante, especialmente porque a cada dia ele lembrava de tudo de uma forma totalmente diferente. Porém, logo as coisas pioraram de novo, Hanz, como Lola, se provou também um traidor, fugindo do mesmo jeito, coincidentemente, no mesmo dia que papai matou outro urso. Abandonamos a carroça e continuamos andando com as nossas coisas nas costas. Toda hora imaginava se encontraríamos Lola e Hanz pelo caminho, imaginava como reagiria com eles, se os perdoaria por terem fugido.

Tudo mudou numa noite. Papai me acordou, uma luz vinha distante entre as árvores. Gritamos por socorro, não importava quem fosse ou o que fosse, no nosso estado isso não mais fazia diferença. E logo, aquela luz se revelou uma tocha, carregada pela mão de um homem, sentado sobre seu cavalo, usando uma roupa preta, com um chapéu também preto, e um tapa olho sobre o olho esquerdo, e ele como eventualmente descobriria, era um homem chamado Jacó.

Continua!

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Um Homem Chamado Jacó: Um Faroeste Real Parte 1

Posted on 08 novembro 2009 by admin

Capítulo I – Em que conhecemos Tomás e a pequena Patrícia revela seu ódio

modoc

Nós íamos para o oeste, encontrar ouro e ficar ricos, como papai dizia sempre que pensava nisso: “Tomás, breve nós vamos achar o ouro e finalmente poderei te comprar um chapéu!” A vida estava difícil na cidade. Mas os jornais diziam que fortuna podia ser feita no interior do país. Uma terra de oportunidades finalmente tomada dos malignos guaranis. No nosso bairro, papai só conseguia trabalhar de vendedor de sapatos e mamãe de lavadeira. Éramos ao todo quatro: papai, mamãe, minha irmã pequena Patrícia, e eu. Vovó morrera de disenteria há poucas semanas. Ela agora estava enterrada no rio, ou boiando. Tomaríamos a primeira caravana que saísse atravessando o país para a terra prometida. Meus únicos ressentimentos quanto a ir, eram deixar meus amigos Zé Mohammed e Klaus Heinrich da Silva, nós tínhamos conseguido muito dinheiro engraxando sapatos e batendo na criança gorda do fim da rua, e deixar a minha amada Maria-Susanna. Ela era a garota de doze anos mais bonita do bairro, olhos azuis, cabelo loiro encaracolado, sempre me chamando de Tom dos Sapatos Pretos. Ela realmente me amava. Para mim, ela levantava a saia por apenas um centavo, todos os outros garotos tinham que pagar três, e os homens mais velhos tinham que pagar cinco. Nós éramos felizes em nossos pequenos momentos. Papai conseguiu fazer um ótimo negócio trocando a casa por uma carroça velha e dois cavalos. A casa de três andares, quatro quartos, sala, uma grande cozinha, dois banheiros, com encanamento, que vovó tinhas nos deixado e não era grande coisa. Logo, nos juntamos a um grupo de trinta outras carroças. Tinha me decidido que até chegarmos a nosso destino me tornaria um verdadeiro cowboy. Diferente dos outros garotos, e também porque conseguia economizar com o meu desconto com Maria-Susanna, tinha sempre guardado alguns centavos, e dediquei-os a pagar o garoto gordo do fim da rua para me ensinar a ler. Ele me ensinava muitas coisas, quando não estávamos batendo nele com um pedaço de pau. Minha decisão de aprender a ler pode parecer estranha, uma perda de tempo, mas eu queria muito acompanhar a revista de Aventuras no Oeste Selvagem do destemido David Cohen. Ele era um grande cowboy, que desde seu bar mitzvah, combatia os mercenários guaranis e desbrandava as terras das tribos selvagens dos japoneses. Toda a noite, antes de dormir, eu me imaginava no meio do cerrado, com meu cavalo, combatendo aqueles samurais sem deus.

Começando minha vida rumo ao oeste com minha família, decidi que como um verdadeiro cowboy devia estabelecer uma relação de amizade com nossos dois cavalos, assim, batizei-os de Lola e Hans Fritz. Eles logo se adaptaram a esses nomes, apesar de minha pequena irmã sempre reclamar: “Eles são meninos, ambos meninos, olhe lá entre as pernas, meninos! Não chame o outro de Lola, chame-o de Martin. Eu prefiro, e é um nome de menino!”. Claro, que a ignorei completamente. Na nossa caravana, eu também faria vários novos amigos, como os garotos Beltrano Smith e Washington Fuleira. Nós tínhamos alguns problemas em nossas brincadeiras, eu gostava de cowboys, eles de piratas, e eu não sabia o que eram piratas, só sabia que era algo relacionado a algum grande lugar com muita água, que eu nunca tinha ouvido falar. Lá eu também conheci meu novo amor: Ruiva. Porém, ela era diferente das outras garotas e me odiava. Eu a oferecia um centavo, eu a oferecia três centavos, eu chegava até ao extremo de lhe oferecer cinco centavos, e o que ela fazia: me dava um tapa. Insano, não fazia sentido. Minha mãe dizia que eu devia evitá-la. Na verdade, muitas pessoas da caravana, apesar de não terem nenhum problema com ela em específico, a evitavam por não gostarem de seu pai. Ele só era conhecido como o Norueguês, um estranho homem, muito branco, que mal falava a nossa língua e sempre se encontrava de cara amarrada, evitando as pessoas e mantendo a sua carroça no fim da caravana, que era estranhamente coberta por um pano laranja. Rumores diziam que ele era um budista e que planejava nos matar. Ruiva sabia desses rumores, e deixava implícito com seu comportamento, que ela nos considerava um bando de retardados. Mas eu sabia melhor, nenhuma garota normal recusaria um centavo para olhar debaixo da saia dela. Ela que era estranha. Mesmo assim, algo nela me fascinava, e não só o reluzente cabelo vermelho, havia algo mais, suas palavras, seu jeito. Quando nós a chamávamos para brincar, ela se recusava a ser a mocinha em apuros, e sempre queria ser a capitã pirata. Outra coisa que me impressionava nela é que ela era a primeira pessoa que eu conhecia que sabia quem era o destemido cowboy David Cohen, apesar dela o considerar um assassino das “pobres tribos japonesas” como ela gostava de dizer. Ela sabia ler, o que eu achava mais estranho que a minha própria prática, já que ela era uma garota. Patrícia a odiava, ela constantemente dizia: “Eu não gosto dela! Eu não gosto dela nem um pouco!”; aí ela dava um pequeno pulo, cruzava os braços, gruía e olhava para o lado em desgraça.

Meu aprendizado de cowboy ia bem, já estava conseguindo que Lola, o mais esperto dos dois cavalos, contasse até dois com suas patas. Patrícia me ajudava nisso, apesar de prejudicar um pouco o aprendizado, cismando em chamar ele de Martin. Ela era quem ficava em baixo do cavalo, levantando sua pata, enquanto eu olhava nos olhos dele e lhe dizia dois. Patrícia era bem forte e conseguia bons resultados, apesar de usar isso contra nós: eu, Beltrano e Washington; quando a usávamos de mocinha em apuros nas nossas brincadeiras. Claro, que quando brincávamos com ela, não chamávamos Ruiva. Na única vez que o fizemos, Patrícia ficou tacando maças nela, e em resposta, Ruiva, dependurou ela numa árvore. Pelo menos não era como se alguma das duas tivesse muita opção, Ruiva, só era aceita pelo nosso grupo, e por um outro grupo de crianças que passava o tempo empilhando livros, e Patrícia, que não gostava de brincar com crianças da sua idade, era ignorada por ser muito pequena e gostar de tacar violentamente maças nas outras garotas.

Nos primeiros meses da caravana tudo seguiu em calma, até que um dia o líder da campanha, Yurik o Gordo, reuniu todos e disse: “Oi pessoal! Bom ver vocês aqui hoje! E aí você, amigo Stalin, se recuperando da sífilis? E você, Maria Ostrogoda, como vão as crianças? O pequeno Beltrano Smith já se recuperou da perda da perna? Então, pessoal, eu juntei vocês aqui hoje, porque depois de muita consideração, eu cheguei a conclusão que nós, provavelmente, estamos perdidos, e além disso existem grandes chances da comida acabar em duas semanas, e nós todos morrermos!”. Pelo que parece, este discurso causou um certo desconforto entre as pessoas. Depois disso, nos dois meses que se seguiram, muitas coisas mudariam o nosso rumo. A caravana se dividiria em duas, seguindo direções opostas. Ruiva e Washington Fuleira iriam embora com o outro grupo. Nossa caravana eventualmente seria atacada pelos malditos samurais, e Beltrano e sua família acabariam deixados para morrer entre eles. A pequena Patrícia seria picada por uma cobra, atacada por lobos e devorada por ursos. No final, só sobrariam eu e minha família no meio de uma floresta desolada, esperando a morte.

Continua!

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