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domingo, novembro 04, 2018

Eu, eu mesmo e eu de novo - Parte II: Eterno Retorno, de novo - Lobisomem

Aqui segue o primeiro capítulo da segunda parte do livro Eu, eu mesmo e eu de novo.


Parte II: Eterno Retorno, de novo.


33. Lobisomem

Atravesso a Praça XV, marco zero do Rio de Janeiro, viaduto atravessando gigante sujando o que resta da paisagem, o céu. Mendigos, skatistas, refugiados de Niterói, ternos-gravatas da máquina estatal a atravessar a superfície, catacumbas úmidas no subterrâneo. Paço Imperial, à minha esquerda, onde imperadores se masturbaram; Arco do Teles, à direita, onde os bêbados ainda se masturbam nas noites do fim da semana; para trás, as barcas, a válvula de escape das hordas de Niterói, do outro lado da poça de Guanabara; mas isso não significa absolutamente nada. Estou em outra dimensão, onde essas localizações subjetivas nada significam, começo a evaporar. Minha pele está a formigar, radioativa, soltando partículas verdes e azuis, vibrando com o próprio tecido da realidade, pulsando com todas as vibrações desta, todas as linhas ao redor que a compõe, uma teia. Tudo é puxado, tudo puxa, parte evapora entre os fios. Quero correr, pular, me sentindo acordando como um lobisomem ao meio-dia. Selvagem, sedento, furioso, excitado, se preparando para sair da cova, escalar prédios, chegar no topo e começar a uivar. Uivar e arrancar minha pele formigante, que tanto me incomoda. Primeiro de Março, antes rua da direita, primeiro de março em comemoração ao fim dos banhos de sangue no Paraguai, para trás, Palácio Tiradentes, Alerj, Assembleia dos Deputados, Q.G. dos piores ladrões, assassinos, estupradores, pedófilos do Rio de Janeiro, emitindo um fedor tremendo para o redor da estátua de Tiradentes, o herói imaginário de um pedaço de terra sem heróis. Sigo à direita, igrejas e prédios estatais que viraram centros culturais, carros e pessoas para todos os lados se amontoando, viro na Rua do Ouvidor, um dia a mais importante rua da cidade, hoje só um corredor estreito de sombras, circundado de altos prédios cinzas. Poças, pedras, camisas sociais de cores passivas, uniformes de secretária.
Começo a sentir os pelos crescendo, minha mandíbula se alongando. Caio na avenida Rio Branco, mais mendigos, terno-gravatas estatais, secretárias, panças de polo listrado passivo, gente lenta, desengonçada, correndo com os braços como manivelas quebradas, chacoalhantes, rumando de lugar nenhum para lugar nenhum. Fico pulando entre a calçada e a rua, deslizando entre carros em velocidade, caminhos onde outros hesitam, deslizando de volta as calçadas por entre as figuras desengonçadas, embaçadas, borrões gordos, mal fantasiados, com horários a cumprir, movimentos mecânicos, certos dos passos que tem de dar, muito mais certos do que eu, mas diferente de eu, sem nenhuma escolha consciente sobre esses passos, só baixando a cabeça e obedecendo. Estou furioso, minhas garras começam a crescer, quero uivar e correr por aquelas multidões como um jogador de futebol americano fugindo com a bola, derrubando os pinos do boliche. Estou furioso, com a veias pulsando, raiva de mim mesmo, de todos os meus erros e negligencias passadas, que ainda me mantem neste purgatório no meio dessa multidão de mortos-vivos. Vejo meu reflexo no vidro de um prédio, os pelos, os dentes, as garras, transformação quase completa. Mas o que isso significa? Há um fantasma dentro da caixa? Não sei. Vejo tudo, tudo me vê. Decisões se reviram como deuses antigos, emotivos, no cérebro, metade aceitando, comemorando, certas direções tomadas, certas palavras faladas, escritas, certos sussurros regurgitados, metade querendo tacar fogo em tudo, dizer que estava errado, que não devia ser assim, metade querendo pular um precipício, ou dormir até o próximo inverno numa caverna acorrentado a uma pedra, com o intestino picado por gaviões, e algumas se perguntando se já não foram metades demais mencionadas. Há possibilidade para todos os cantos, é só saber que linhas puxar, que fios de teias. Teias e mais teias, há milhares de pessoas ao redor sendo puxadas por teias. Vendo, mas nada fazendo, os deuses não sabem o que querem, sexo ou violência. Por isso que se taca fogo, para não ter mais escolha. Para ser lobisomem e só lobisomem, mas o que é ser lobisomem? Sempre foi lobisomem, a enfiar as garras nas fachadas de prédios, escalar e uivar. Para não ser mais o velho no quarto a esperar o convite do teatro. “Só para os raros.” Só para os radioativos, só para os apaixonados, só para os loucos, malucos, que de tanto, são os mais conscientes e acordados na face da terra, só para aqueles que amam e gostam de uivar. Um vulto de capuz vermelho passa por trás do meu reflexo. Viro-me, está a correr, é uma garota, reconheço por seus contornos, pernas e braços finos, meia branca puxada, carregando uma sesta, também deslizando em velocidade entre os monstros desengonçados e carros. Sou tomado por um imenso, tremendo, desejo, começo a correr atrás dela, preciso ver seu rosto, seus cabelos, será o mais belo até o ponto em que eu realmente o veja. Corre através do prédio central, atravessando os selvagens vendedores de dvds piratas, que gritam incessantemente “Office à 5 reais!”, passa os corredores de lojas de informática, saindo no largo da Carioca, onde a frente do morro do mosteiro de São Bento, as manadas rodeiam ensandecidas os bobos da corte estendidos em caixas de madeira, munidos de microfones ou bíblias. Estou quase a alcançá-la, já delirando ao imaginar o quanto encantadores serão seus olhos, o quanto deliciosos serão seus lábios, o quanto sedosa será sua pele, quando das catacumbas do metro, sai um enxame de mais figuras gordas e desengonçadas, vazam para a superfície em fila, formando um paredão entre nós. Os morlocks foderam os elois, e seus filhos estão a comer a si próprios. Quando consigo atravessar o paredão, já perdi toda a vantagem. Segue pela rua da carioca, pelo abandonado e pichado passado, ainda salvo por um punhado de árvores, corre à frente do Cine Iris, ainda ativo, com filmes pornôs, seus pervertidos e as prostitutas geriátricas que os acompanham, onde um dia houveram festas, não mais, vira à esquerda, em direção a lapa. Continuo a correr em seu encalço, meu desejo em ebulição, atravessamos por cima do viaduto que corta a avenida chile, ampla, repleta dos mais modernos prédios estatais, rangendo acima das catacumbas, o vento faz lhe cair o capuz, revelando seus longos cabelos negros. Estou salivando, quero devorá-la por completo, quero agarrá-la e enfiar meus dentes em seu pescoço, seus braços, suas pernas. Contornando o gigantesco semicone de construção, a Catedral de São Sebastião, igreja dedicada ao deus cinza do concreto e do mau gosto, desce para a Lapa. Arcos à frente, trilhos abandonados do bondinho à esquerda, casas de show à direita, Fundição Progresso, Circo Voador, acompanhadas de prédios semi-abandonados para todos os lados, buracos com fachadas em ruinas em que nos finais de semana se improvisam mais algumas festas, terrenos hiper-inflacionados, num ponto turístico em que ainda mais impera os mendigos e bêbados dos expurgos das zonas negativas da cidade. Seus passos ecoam ao atravessar por baixo dos arcos, correndo pelo desolar quente e deserto da arena que o acompanha. É agora, vou agarrá-la, tê-la para mim, devorar sua carne. Estico minha garra até seu braço, minha garra grande e peluda de lobo. Alcanço seu fino e magnífico braço e quase que imediatamente o deixo deslizar para longe. É duro e frio. Não entendo, como uma criatura tão bela, pode ter um braço tão duro e frio. Não pode ser, é fruto da loucura, do vibrar da minha pele pelas teias, das minhas partículas vazando para o espaço, verdes e azuis. A antecipação por tomá-la, desorientou-me, só pode ser. Nisso, ela já mais uma vez tomou vantagem a minha frente. Entra à esquerda na rua do passeio, e a perco de vista. Não, tão perto de alcançá-la, não posso perder essa oportunidade. Corro mais, viro a esquina da rua, à frente do casarão da escola de música, nada dela a vista. Desespero-me, não posso tê-la perdido, escalo o prédio abandonado do Automóvel Clube e começo a uivar. De repente, vejo entre as árvores do Passeio Público, um vulto em vermelho, é ela, só pode ser. Desço e entro no Passeio, atravesso entre as árvores buscando sua bela figura, a que um dia foi a principal praça da cidade, hoje só hospeda mendigos em seus bancos, finalmente, atravessando os obeliscos, atravessando a fonte, agarrada nas grades do que antes era um píer que dava para baia e agora só dá para um mar de carros, a encontro. Está encurralada, sem saída, nem preciso mais correr, sigo calmamente com as minhas patas de lobo pressionadas contra as pedras. Seus cabelos negros brilham refletindo a luz do sol, não preciso nem virá-la para saber quanto é tudo que desejo, vou tomá-la com uma mordida no pescoço. Aproximo-me, só a escutar o meu ofegar, a agarro e mordo seu pescoço. Minhas presas afundando numa superfície dura e fria. Viro-a para mim e me deparo com uma boneca de madeira.

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