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quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Monte Roraima: Parte I

Alguns acreditam que o fim da terra se encontra no Acre. Mas aqueles que nisso acreditam estão errados, pois o Acre não existe. É só uma das mais antigas falcatruas de um famoso cartel de políticos brasileiros. Um estado inteiro imaginário para receber investimentos de fundos que vão diretamente para o bolso desses políticos. O fim da terra se encontra mesmo em outro lugar, em Roraima, na divisa entre Brasil, Venezuela e Guiana. Estamos falando do Monte Roraima. A maior montanha de topo plano do mundo, acima dos mil metros de altura. Há 10 anos minha morada.

Moro numa área da montanha que por alguma razão nenhum nativo ou turista chega perto. Não sei exatamente por quê. Cheguei aqui também como um turista, e foi num dia isolado de meu grupo, que encontrei entre nevoas e grandes pedras dilapidadas pela ação do vento, a casa. Uma casa de arquitetura gótica construída em pedra. Imaginem minha surpresa quando adentrei por uma porta lateral desta casa, e a encontrei toda mobilhada, móveis clássicos de mogno, cortinas de cetim, sem mencionar que em sua cozinha, estava servido um bom café da manhã, com café, carne de rã e ovos. Pensei: deve ser uma casa habitada.

- Alô, alguém em casa?


Gritei, gritei várias vezes, mas nenhuma resposta recebi, nem em seu primeiro andar, nem em seu segundo, nem saindo e dando uma volta ao redor da casa. Ao voltar para meu grupo, contei-lhes de minha descoberta, e imediatamente todos rumaram para lá. Porém, no caminho não sei o que houve, eles se perderam atrás de mim, e sozinho mais uma vez cheguei na casa. Voltando para reencontrá-los, me questionaram sobre minhas ações, do porquê brincava com eles sobre esse absurdo de ali achar uma casa. Não podendo convencê-los do que passei, abandonei o grupo e mais uma vez voltei para casa. Estranho dizer, que a fumaça do calor do café ainda se mantinha igual a como a havia encontrado da primeira vez que adentrara a cozinha. Com fome, e não encontrando mais uma vez nenhum ocupante, tomei o café da manhã. A carne e os ovos também ainda quentes. Depois, pus-me a investigar a casa, enquanto esperava seu dono. Devo confessar que meu destino imediato foi o escritório que encontrei em minha primeira expedição. Um escritório no primeiro andar, com uma rica biblioteca. Os títulos que ali encontrei não faziam sentido, não podiam fazer, eram cópias reais de livros dados há muito como perdidos. Nem foi isso que mais me intrigou, na verdade, mas sim os títulos que desconhecia, os títulos que até da história humana pareciam ter sido apagados. Inicialmente, fiquei ali duas semanas, sem uma viva alma aparecer. Alimentei-me dos artigos que encontrei na dispensa, e passei meu tempo a investigar aquela misteriosa coleção literária. Quando ao final da segunda semana, comecei a me questionar que poderiam estar sentido minha falta fora dali, na civilização. Afinal, era casado, e minha esposa devia estar preocupada após aquelas duas semanas sem notícias. Logo, voltei à civilização, mas não para ficar. Passadas duas semanas, mais uma vez estava eu ali naquela casa, acompanhado de minha esposa. Estranho, que ao chegarmos, mais uma vez lá estava o café da manhã servido na mesa, exatamente como no primeiro dia. Eram boas cochas de rã.

Confesso que enquanto me adaptei perfeitamente a minha vida na casa, o mesmo não se passou com minha esposa. Não compartilhava comigo o interesse pelos livros, preferindo se dedicar aos afazeres domésticos. Apesar de não ser muito boa cozinheira. Além de também desenvolver algum tipo de sentimento arredio contra a casa. Nunca aceitando ficar nela sozinha, enquanto eu lá não estava. Sempre me acompanhando em minhas expedições aos seus arredores e a cidade mais perto em Gran Sabana, para buscar suprimentos. Só consegui mesmo apaziguar sua insatisfação, trazendo para casa um gerador, uma TV e uma antena, para ter algo para ela passar o tempo. Fiquei surpreso ao saber que recepção de TV ali no meio da montanha era muito boa, pegando muitos canais, segundo as descrições de minha esposa. Eu mesmo nunca me interessei por esse seu passa tempo excêntrico. Alguns anos depois de nossa chegada, também começou a trabalhar num jardim atrás da casa, o que foi de muito minha satisfação.

Quanto a mim, passava a maioria dos meus dias no escritório lendo aqueles incríveis volumes de história humana que não deixavam de me surpreender com suas revelações. Acredito que só saia do escritório para as refeições, e para executar minhas tarefas como marido. Algumas vezes conseguia tomar o controle da cozinha, e preparar o prato do dia, o que me proporcionava um raro deleite. Quanto as minhas tarefas como marido, com a TV e o jardim, conseguira reduzi-las a pelo menos só duas vezes por semana. Não por falta de gosto, mas por falta de gosto das excentricidades sexuais de minha esposa, que mais me causavam dor, do que prazer. Além disso também fazia algumas expedições pela área ao redor da casa, pela floresta de pedras que se estendia pelos seus lados norte e leste. Nessas expedições, percorrendo o labirinto de pedras e de vegetação estranha que encontrava pelo caminho, fazia muitas descobertas de fragmentos deixados por outros exploradores, e de possíveis ruínas de construções de habitantes até anteriores aos construtores da casa, como podia averiguar pelo estilo. Confesso que nesses 10 anos ainda não pude explorar essa floresta em sua interioridade. Como disse, não houve uma expedição que não fui acompanhado pela minha esposa. Isso de novo porque se recusava a ficar sozinha na casa, pois gosto nunca teve por essas expedições. Desprazer que fazia o favor de dividir constantemente em nossas caminhadas. Seu sentimento pela casa parecia ser igual ou pior pela floresta. Seu medo pelo vento e para a sombra se fazia constante.  

Chegamos então à razão de agora estar escrevendo esse relato sobre minha vida aqui. Como disse, já habito a casa há 10 anos, e nesse tempo vivi sem preocupação, sem nenhum evento de real significância ter ocorrido. Apesar da natureza da casa e da floresta ao redor, e da opinião contraria de minha esposa, nunca ocorreu nada que poderia ser considerado estranho pela minha experiência. Isso até uma semana atrás, quando tudo mudou. Anteriormente a isso, acredito ter só colocado a pena ao papel com um único motivo: escrever narrações eróticas para extravasar meus desejos não correspondidos por minha esposa. Mas agora esses acontecimentos precisam ser registrados.

Há uma semana, numa noite tempestuosa, estava em meu escritório relendo o Saque de Tróia, o quinto livro do Ciclo Épico, quando escutei um estranho estrondo vindo de fora. Levantei e olhei pela janela. Vento forte e chuva batiam contra o vidro, e uma escuridão total tomava o horizonte, só cortada pela luz de algumas trovoadas. Certamente não fora um raio o que escutei, mas ali também não pude identificar sua origem. Porém, com a luz de um rápido relâmpago vi um animal. Não foram mais do que alguns segundos, mas tenho certeza que à distância no começo da floresta de pedra avistei uma jaguatirica. A casa era segura o suficiente para não me preocupar com tal animal. Entretanto, aquele era só o começo, pois ao voltar para minha poltrona a fim de elaborar um plano de como poderia lidar com tal criatura selvagem espreitando a casa, um estranho mal estar começou a me tomar. Primeiro senti um profundo calor e comecei a suar, com gotas deslizando pela minha testa, segundo, o ambiente ao redor começou a se tornar turvo, e um extremo cansaço tomou minhas pestanas. Apaguei, apaguei como se apaga numa palestra a qual não se quer dormir, foram segundos com meus olhos fechados para recobrar as forças. Só que quando os abri, a negritude do espaço se manteve. Não que as luzes tivessem sido apagadas, mas sim que tudo era só forma, como se só tivessem sobrado as arestas de cada objeto concreto e estas fossem cobertas por linhas de um verde fosforescente. Só o desenho dos objetos restara, e podia se ver através das coisas os outros desenhos que se sobrepujavam uns sobre os outros até a infinita escuridão. Olhando ao redor, pude ver minha esposa na cama de nosso quarto no segundo andar. Como pude também ver os pingos da chuva caindo lá fora, e por fim também vi a criatura. Estava errado, não era uma jaguatirica, sua cabeça tinha a forma da cabeça de uma jaguatirica, suas costas acabavam em uma calda, mas aquilo que lá fora se espreitava tinha forma humana, ereta, mantida por suas duas pernas traseiras. Levantei-me, e pude averiguar que apesar de só ver aquelas formas contornadas de linhas verdes, a parede de meu escritório, que ao meu olho só era um espaço negro vazio, ainda se mantinha sólida. Nem aparentava que pelos seus movimentos lá fora a criatura tinha a mesma habilidade de me ver. Virei me mais uma vez para minha poltrona, entretanto, antes que pudesse dar um passo, mais uma vez fui tomado por um estranho cansaço, minhas pernas se enfraqueceram e cai no chão. Nos poucos segundos que mantive minha consciência pude ver o que antes não havia passado pela minha cabeça observar, aquilo que se encontrava após o chão. Vi algum tipo de máquina, algo gigantesco, com engrenagem rodando, logo abaixo da casa, e vi que estava sendo operada por pequenos seres, que pareciam jacarés. Apaguei.

Continua...

Parte integrante da nova edição do livro Meu ano sem ela. Em breve, trazendo capítulos inéditos.

"Após terminar um relacionamento e se arrepender, um jovem universitário desce por um submundo de relacionamentos e festas na cidade do Rio de Janeiro. Um caminho que o fará questionar a si próprio como suas interpretações sobre a natureza dos relacionamentos. O que é real? O que é criado por seus desejos? O que lhe é vendido pela sociedade ao seu redor e não faz nenhum sentido no seu dia a dia? Quais as linhas que dividem um verdadeiro amor, de uma simples maluquice?"


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