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Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro: O traficante de Zô - Parte I

Bem-vindo a série de Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro. Começando com uma adaptação do Mágico de Oz. Obs.: Aviso para quem for fre...

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Meu ano sem ela: Cap. 9 - It’s the end of the world as we know it

 Mais um capítulo de amostra do romance Meu ano sem ela. Para ler os anteriores, clique aqui: Cap. 1-7, Cap. 8!

9 – It’s the end of the world as we know it
   
O milagre da internet proporciona até a pessoas mais relaxadas o sentimento de ser um espião da guerra fria. Antigamente dava trabalho, você tinha que ter um carro, um sobretudo, um binóculos. Seguir a pessoa, passar longos períodos de tempo em tocaias, pular cercas, olhar sem ser visto por janelas no meio da noite. Hoje em dia, você só precisa ter uma conexão de internet e uma conta numa rede social, tudo que você quer saber a pessoa lhe dará de mão beijada em sua página. Qualquer um pode ser agora um paranoico obsessivo enquanto engorda em sua mesa de computador. Obviamente, ao voltar para casa no dia seguinte, olhei seu Orkut, como fazia todos os dias. Adicionou três pessoas, três caras, e um já estava lhe deixando mensagens no seu mural. “Muito bom lá ontem, vamos fazer isso de novo!”. São exatos 4 dias entre sábado e terça, o dia que a verei de novo na aula. Imagina o que estará fazendo nesse meio tempo. Eu nesse quarto, trancado, só tendo contato com as pessoas ruins que relincham atrás da porta. Isso não pode acontecer. Imagina, pode até já estar planejando sair hoje mesmo, uma outra festa para sábado. E eu aqui em casa, olhando para o teto e contando os segundos. Tenho de sair. Tenho que fazer o mesmo que está fazendo, tenho de ser melhor que ela. Quem sabe, posso encontrar alguém que me tratará direito, poderei esquecê-la. Ligo para uns amigos, se surpreendem, não marco nada com eles há séculos. Nesse um ano, foram raras as vezes que sai com outras pessoas sem ser ela. Mas agora estou de volta, tenho de sair fora dessa caixa que está me engolindo.


Encontro uma amiga, Miranda, que marcou com um grupo de amigas da sua faculdade de arquitetura para rodar pela lapa. Lapa, num sábado à noite, playboys, patricinhas, mendigos, comunistas, rastafáris, gays, góticos, sambistas, idosos com Alzheimer, universitários, executivos, maconheiros, políticos, prostitutas, irlandeses, nordestinos, mais mendigos, pivetes. Todos com uma coisa em comum, estão bêbados, e em algum ponto de suas vidas foram contaminados pela meme da bohemia, seja num livro, num filme, num comercial de cerveja, ou num parente bêbado. Lapa, metade dos prédios são bares ou depósitos, o resto são fachadas de prédios abandonados. Antigamente, quase toda vez que saia com Miranda e suas amigas do momento, sempre acabava com uma. Essa noite, não será diferente. Carla, estudante de arquitetura. Faço todas as perguntas de praxe, que demonstrem o meu interesse. Dois minutos depois, já não lembro mais de nada. Ficamos, e toco seu corpo. “Sim, está acontecendo, estou com outra garota. Viu como é fácil voltar à ativa.” Desconsidero a garota da festa da outra faculdade, nem sabia o que estava fazendo. Essa agora não, essa é uma decisão consciente. Fico com ela, como se estivesse ficando com a minha ex-namorada. A beijo, depois beijo seu pescoço, aperto forte seu corpo contra o meu. Usa uma camiseta curta, com a barriga descoberta. Passo minhas mãos forte pela sua barriga dura, deslizo meus dedos sobre seu umbigo. Isso me excita, ao mesmo tempo que me impressiona. Ela odiava que tocasse em seu umbigo, foi um ano que sequer chegar perto de seu umbigo, era ter sua mão me empurrando arredia. E agora estou ali, desfrutando daquele umbigo sem nenhum problema, Carla aceita tudo. Sentamos num bar com nossos amigos, com ela sentada ao meu lado, posso apertá-la e beijá-la o quanto quiser. Também não tenho muita opção, evito falar, temo puxar algum assunto que já tenhamos conversado, e eu tenha me esquecido. No amanhecer do dia, deixo Carla em seu ônibus. Sei que seu nome é Carla, sei que faz arquitetura, já que minha amiga também faz, sei que me falou muito de si própria pela madrugada, mas não lembro de absolutamente nada. Tenho seu número, talvez ligue. À tarde, ligo para ela, me diz que estará muito ocupada na próxima semana para sair. No msn, minha amiga, Miranda, me explica a verdade. Ela não quer sair mais porque me achou muito abusado, disse que parecia que eu ia estuprá-la ali no meio da rua do jeito que a estava tocando à noite toda. Sinceramente, sou indiferente a isso. Não é com ela com quem me importo. Penso na noite que tive e penso o quanto sinto a falta dela, da minha ela.

Terça a encontro na aula da faculdade, falo um Oi, ela responde com um outro Oi, acompanhado de um olhar arredio, querendo me evitar como se fosse a praga, e fica nisso, é a isso que a vida se resumiu. A marcha para casa é lenta, o dia mais lento ainda. Tenho mais contato com seu Orkut que com ela mesma. Não a verei até a próxima terça, e não há nada para mudar seu comportamento. Estou errado de querê-la de volta, o que preciso é esquecê-la. Preciso conhecer alguém que me marque o suficiente para apagar o fantasma. Em Niterói, os estudantes da UFF, metade geralmente de cidades distantes, vão para casa nas sextas, logo os principais dias de festas são terça e quinta. Não sei porque terça, mais um dia para beber. Imagino que são dois dias que ela poderá estar saindo e conhecendo mais gente, mais caras. Não posso ficar em casa, mas também não tenho opção de onde ir. Não nessa semana pelo menos, na próxima poderá ser diferente, já que estarei começando um aula de teatro, mas não agora. Nada para fazer nem nessa terça, nem na quinta. Mas quarta posso sair, há outro Cine Cachaça. Engraçado, que nunca fui enquanto Juliana me chamava, agora estou virando um freqüentador.

À noite se segue igual a da última vez, com a diferença que não tenho mais a sua ligação transtornada. Curtas monótonos, seguido de gasolina e festa.

- Oi, qual o seu nome?

- (escreva um nome qualquer aqui).

- Oi (repita o nome qualquer), como está a festa?

- Boa.

- Quer deixar ela melhor?

E a beijo.

Essa é a formula básica para acabar com uma estranha na noite. A cada cinco garotas que repita esse roteiro, pelo menos três se interessarão. Isso num mal dia, numa festa com poucas opções, já num bom dia a primeira já responde, e caso essa não seja muito interessante, pode se passar para outras, que imediatamente também se interessarão. Essa é a fórmula que repeti milhares de vezes antes de começar a namorar, essa é a forma a qual retorno. O espaço de festa no segundo andar do Odeon é pequeno, logo tenho de diminuir as possibilidades nas estatísticas. Se não me interessar pela primeira ali, será mais difícil conseguir uma segunda, já que tudo é muito público, e é preferível que se seja necessário uma segunda, ela não tenha me visto com a primeira. É melhor fazer uma boa escolha, e seguir com ela até o final. Escolho Raquel, uma garota baixinha de cabelo encaracolado de vestido azul. 

- Oi, qual o seu nome?

- Raquel.

- Oi Raquel, como está a festa?

- Boa.

- Quer deixar ela melhor?

E a beijo.

A agarro na pista de dança, e enquanto a madrugada vai acabando, nos sentamos em um canto. Ela no meu colo. Faz jornalismo. Falamos de cinema. Nada ali me marca, já sei que essa será a primeira e última vez que nos veremos. Também noto algo que não prestei atenção antes de chegar nela, que não é muito abençoada na caixa torácica, mal encontro algum seio ali. Acaba à noite, trocamos números. Resumo da noite, tudo ainda está igual. Dia seguinte me adiciona no Orkut, deixa uma mensagem “Boa a noite ontem! Vamos repetir!” Penso em apagar a mensagem, mas não, vou deixar igual ao mural dela, mostra que estou vivo, mostra que estou tendo uma vida além dela. Mas agora ainda tenho seis dias até a terça em que a verei de novo. Não quero mais nada, mas quem sabe, quem sabe, essa terça será diferente. Porém, como sobreviverei até lá? Tenho que achar outra festa. Não acho uma boa nem quinta, nem sexta, mas há uma sábado, a DDK. A Deutschland Dancefloor Klub é uma festa mensal no Cine Iris da rua da Carioca. É uma festa gótica, com metal e eletrônica. O tipo de coisa que eu só escutaria em uma festa e nunca baixaria para escutar em outros momentos, nem me interessaria de qualquer forma. Engraçado, que um bom tópico de conversa com as garotas de lá é o quanto eu completamente desconheço suas bandas favoritas, nem sei quem é o vocalista da banda Him, que várias vezes compararam comigo. Era um freqüentador assíduo antes de começar o namoro, fui uma única vez enquanto namorava, porque sabia que ela consideraria exótico. Engraçado, que essa foi uma das únicas três vezes que saímos para uma festa aqui no Rio de Janeiro. E também a única na qual conheceu um dos meus amigos. Nesse dia não brigamos uma única vez, acho.

Chega sábado, coloco minha fantasia da festa, uma camisa preta com uma calça jeans, e vou. Já tenho meu esquema para gastar o mínimo de dinheiro possível. Comprei a entrada no dia anterior com desconto, logo também não tenho de entrar na fila. Chego, duas horas antes da festa começar, para poder beber na pré que os freqüentadores sempre organizam. Só tenho de chegar, descobrir onde é, dizer oi para pessoas que nunca vi mais gordas na vida, ou se vi, me esqueci, ou se me lembro, não tenho a mínima idéia dos nomes, pegar um copo, uma garrafa e beber. Vodka, contini, licor de chocolate, viro tudo, menos o batido com abacaxi. Não quero morrer. Na pré, o mercado já está aberto a caça, mas geralmente nos círculos de freqüentadores nunca há garotas que me interessem muito, isso só muda no caso de alguém ter trazido uma amiga diferente, que veio ser gótica por um dia. As melhores opções estão na fila para comprar os ingressos, pessoas que nunca vieram ao lugar, que não tem planejamento, que estão indo só para descobrir algo que ouviram falar que era exótico.  Já bêbado e tendo a minha cara, é muito fácil começar uma conversa com um grupo de garotas que esteja na fila, começar o que vou concluir ao entrarmos. Porém, naquele dia em particular, não há nenhuma possibilidade nem na pré ou na fila, logo a caça é dentro da festa, nas pistas de dança amontoadas de pessoas.

Como descobri essa festa? Simples, durante muito tempo tive cabelo grande. Não intencionalmente, como alguma escolha estética, ele só crescia todo o dia, muito estranho. Como também minha barba, mais estranho ainda. Até um ponto que comecei a notar que o papel de se parecer com um mendigo não me fazia ser bem recebido em alguns lugares, logo tirei a barba e mantive o cabelo. Agora um homem ter um cabelo grande, ainda mais se for liso como o meu, é como pertencer a toda uma nova etnia com sua própria cultura, você tem locais específicos para se encontrar, tem pessoas que te idolatram, tem pessoas que te odeiam, tem toda uma lista de preconceitos que as pessoas imprimem em você assim que o vêem, “Você tem uma banda?”, “Ah, deve gostar de metal, não?”, certos comportamentos que esperam de você. Só faltando realmente um Dia da Consciência Cabeluda para nos homenagear e quotas em faculdades para ajudar os nossos menos capazes a entrar na sociedade. Então, o que um homem pode fazer quando ele descobre que indo a uma festa gótica, por causa de seu cabelo, as mulheres ao seu redor vão ficar quentes e molhadas entre as pernas sem ele mesmo ter de mover um dedo? Comprar uma camisa preta, é claro! Tenho certeza que era isso exatamente que envisionavam aquele um sexto dos meus ancestrais godos, quando desceram das estepes escandinavas para o mundo: festas de metal e eletrônica na rua da carioca.   

O Cine Iris é um dos mais antigos cinemas do Rio de Janeiro que ainda está em pé do jeito que era originalmente. Claro que virou um cinema pornô, trazendo muita emoção em sua grande sala de cinema a velhos jornaleiros, dentistas e prostitutas sexagenárias durante o dia. Porém, à noite, pelo menos num sábado do mês, o lugar é alugado para dar espaço a DDK. O primeiro andar o do cinema, durante metade da noite apresenta filmes, na outra metade, a área à frente da tela vira uma pista de dança. Enquanto isso as cadeiras se mantêm um lugar para casais se agarrarem, ou vomitarem em conjunto; grupos de amigos dormirem; e alguém tentar chupar alguém sem ser visto pelos seguranças, ou só se masturbar sozinho mesmo. Por isso, sempre verifique os acentos antes de sentar. O segundo andar é a pista do metal, misturado algumas horas com rock progressivo, geralmente tomada por uma fumaça de gelo seco. Melhor lugar para ser possuído pelo espírito do Morrissey. Atrás dele, ao redor do vão da sala de cinema, há o dark room, um espaço só iluminado pelo reflexo da luz da tela do cinema sobre o pano preto que o cobre, onde casais, grupos de amigos, pessoas solitárias podem fazer sexo, sem a intromissão dos seguranças, em confortáveis blocos de cimento. O terceiro andar é o terraço, com a pista eletrônica, e o lugar com mais espaço para as pessoas conversarem umas com as outras, sem precisar gritar. Além de um duro telhado de cimento, que algumas vezes, alguns bêbados tentam escalar, vide uma cicatriz no meu ante-braço.

Durante à noite fico com três garotas, uma morena que me acha abusado demais, uma ruiva falsa que se recusa a ir para o dark room, ou para a sala de cinema, e uma baixinha loira que acabo à noite com os mamilos na boca na sala de cinema. Nenhuma me marca, nenhuma que eu me lembre de muita coisa no dia seguinte. Nem me importo de pegar o telefone de nenhuma, ou se pegue, me importe em ligar. Não é isso que eu quero. Tudo volta, sinto que não vou conhecer mais ninguém que me faça me sentir como ela. Ainda me lembro do ano anterior a namorarmos, o vazio vai ser igual. Milhares de garotas uma atrás da outra, e por nenhuma vou me importar. Quem sabe seja permanente, tenha perdido completamente a habilidade de me importar com alguém e ela tenha sido a minha última chance. Acho que a última pessoa nova com quem pude desenvolver esses pensamentos tenha sido talvez Fernanda. Já que conheci e me interessei por ela, a minha ela, antes de Fernanda. Talvez tenha sido exatamente isso, com Fernanda perdi essa capacidade, e só me interessei por ela um ano depois, pois já tinha esse desejo embrionário antes do evento que me matou por completo. Sou um cadáver então, um morto-vivo a rumar pela noite, a procura de cérebro, e morrendo de fome. Mas talvez o problema não seja esse, e sim que não saiba conhecer as pessoas que podem me interessar de verdade. Penso, nem todas as garotas que chego, consigo algo, e se forem esses fracassos a minha real salvação. Não posso viver em estatísticas em que ganho de 5 a 6  a cada 10 jogadas, tenho que acertar todas, tenho de ganhar todas as cartas. Além do mais e se o tempo que estou perdendo com uma dessas pouco interessantes, não possa ser o tempo que estaria encontrando àquela que realmente me marque. Será que se encontrá-la numa festa de novo, saberei não errar?

Domingo à tarde fico online no msn o dia todo, preciso falar com ela, preciso descobrir se ainda podemos ter uma comunicação decente. Não faço quase nada durante o dia, só olho o status no msn, esperando. À noite, ela entra.

- Sinto sua falta.

- Sabe, eu sei que você deve tá ruim ai, mas eu também tava assim na primeira semana quando a gente acabou. Sabe o que me fez sair disso? Outras pessoas. Você tem de sair e se comunicar mais com as pessoas, conhecê-las.

Esse é o meu erro, não posso só ficar com as garotas, tenho de primeiro descobrir se são interessantes e depois ficar com elas como um subproduto. E devo dá-las mais chances de se provar para mim como tal. No Orkut de um amigo da minha outra faculdade, vejo um comentário engraçado de uma garota, vejo seu perfil, parece interessante, também é bonita, apesar de muitas fotos estarem photoshopadas. Comento algo no seu perfil, ela responde, disso partimos para uma conversa no msn, e logo estamos marcando um cinema juntos. Está ai, bom papo, interessante, estou conhecendo as pessoas.

Chego na porta do cinema uns 30 minutos antes do marcado e fico esperando. Seu nome é Felícia. Chega no horário, a vejo, me vê, e penso: não! Sim, ela parece que nem sua foto do Orkut, tem os olhos que imaginei, o corpo que imaginei, a altura que imaginei, mas sua pele tem uma textura que não gosto, parece velha, apesar dela só ter dois anos acima de mim. Nesse olhar, falar oi um para o outro, perco completamente o interesse. Continuamos as nossas conversas do msn, vemos o filme, começo a passar mal. Coloquei certa esperança nesse encontro, e agora aquela sala escura está apertada demais para mim, não consigo prestar atenção no filme, é longo demais, nem sei se é bom ou não. Será que será assim daqui para a frente, antes quando ia ao cinema também não prestava atenção no filme, mas porque estava fazendo outras coisas mais interessantes. Agora, sinto-me tragado pelo vazio naquela poltrona. Acaba o filme, acompanho ela até o seu ponto de ônibus. E, meu deus, ela começa a enrolar para pegar o ônibus. Já fiquei com garotas antes para que elas se sentissem satisfeitas e fossem embora, mas não pretendo fazer isso agora. Ficamos uma hora no ponto, e ela incerta sobre qual ônibus quer pegar. Começa a chover, desiste, pega o ônibus. Será, que ela, a minha ela, está também passando por isso. Não, ela não se importa, ela tem a capacidade de esquecer.

Mais uma terça, nossa conversa pelo msn não fez muita diferença, ela continua a me tratar estranho, arredia pessoalmente. É insuportável. Mais uma tarde de terça, incapaz de fazer muita coisa. À noite, tenho uma primeira aula de teatro. Devo ser uma entidade estranha lá, no estado que estou sou um zumbi, não consigo ligar meus botões de socialização, não sóbrio. A semana vai passando, falo com ela mais no msn. Temos conversas normais, age completamente diferente de pessoalmente, é amigável. Vendo suas conversas no Orkut, descubro que vai numa festa sexta à noite, a chopada de economia. Finalmente, minha oportunidade. Quem sabe, fora da sala, num ambiente de festa, as coisas sejam realmente mais fáceis. Vou a chopada, mas lá não está. Encontro Carlos, conheço Joana, e ela, a minha ela, não sai da minha mente. No ônibus de volta da festa, fico pensando “È hoje fui chupado na parede de trás da faculdade no meio de uma festa, isso devia ser excepcional, não? Devia estar me sentindo melhor com isso?” Mas não estou. Quero amar, e quem amo, não se importa.

Preciso de amigos para conversar, marco então de ir ao cinema mais uma vez, dessa vez com Elisângela e Elisa. É engraçado, quantas vezes tentei marcar um encontro com Elisângela quando estava interessado por ela, e nada consegui, agora é tão fácil. No caminho para o cinema, conto-lhes tudo que estou passando.

- Sabe, ..., você estava certo em tudo que você falou para gente naquela festa da faculdade. Ela realmente te esqueceu, vocês tiveram problemas demais. Você tem de fazer exatamente o que você falou para gente, e seguir em frente. Agora, você está meio maluco e não vendo a razão.

- Não, não, naquele momento era outro que estava falando, um que estava anestesiado demais com os problemas para ver o que estava perdendo. Estava errado, agora lembrei da verdade. Mas vamos sair de mim, e você como está, já casada e com filhos?

- Não vou acabar mesmo na casa lotada de gatos.

- E você, Elisa?

- Tenho fome!

- Ah, ela é pior que eu. Um garoto queria beijá-la essa semana na escola.

- Hehe, ele é chato.

Mesmo com amigas o sentimento no cinema é o mesmo, morro de tédio na primeira metade do filme. Na segunda, faço o que sou incapaz de fazer direito na minha cama, durmo. Durante nosso um ano de namoro, o cinema era um lugar onde tudo era permitido. Como achava minha casa longe, e em sua casa se sentia reprimida demais para me deixar fazer alguma coisa, a sala escura do cinema do shopping de Niterói era o lugar em que podíamos nos agarrar, nos beijar, fazer tudo que quiséssemos. Acredito que de todo o tempo juntos, só vimos dois filmes completos, o do primeiro encontro e o do último, todos os outros, foram só uma desculpa para se agarrar. Filmes brasileiros eram melhores que os americanos, a sala ficava fazia, quase só para gente, e com ninguém na fileira do cinema para espiar, era quase como ter um quarto com ar condicionado e uma tela gigante. O filme A Mulher Invisível foi um sucesso, nunca se viu sala mais vazia, fomos ver três vezes. Ainda não sei sobre o que se trata. Teve até um dia que tentamos variar, estava passando Transformers 2. Pensei, são carros que viram robôs, a sala deve estar deserta. É... deserta, sem nem ter como colocar o braço no encosto da poltrona. Ficamos 5 minutos na sala e depois corremos de novo para a Mulher Invisível. Agora estou ali com as minhas amigas no cinema, sentado na sala, só vendo o filme. Que tipo de pessoa vai ao cinema para só sentar e ver o filme? É insano.

Apesar de todo meu argumento contra o que minhas amigas falaram, talvez estejam certas, talvez não haja mais volta, talvez eu estivesse certo quando acabei. Decido que devo fazer uma última tentativa e se essa não der certo avançar com a minha vida. Converso com ela no msn no dia seguinte, tento marcar um encontro com ela. Ela me repete que não está interessada.

Passa a semana, encontro uma festa na quinta. Essa uma chopada de relações internacionais. Tenho um amigo que faz a matéria e ele, Lúcio, me convida. Ou melhor, eu ligo para várias pessoas perguntando sobre festas, e encontro essa. O Lúcio, conheci na minha outra faculdade, que ele já abandonou, ele é outro que quem sabe quantas faculdades faz. Só que ele geralmente abandona uma para fazer a outra. Apesar de também estar fazendo direito agora. É o tipo de amigo que sempre pode se contar de ter uma garrafa de bebida. Numa matéria que fiz com ele, apresentou uma vez um seminário em que carregava uma pequena garrafinha d’água e bebia dela de vez enquanto. A garota que apresentou esse seminário com ele, também foi beber dessa garrafa. Deu um gole, arregalou os olhos e tentou não dar muito na telha ao professor do que tinha acontecido. Era pura cachaça. Nunca Lúcio deu um seminário tão interessante quanto aquele. Não é o que eu esperava, é mais uma pequena festa de calouros no estacionamento de um prédio. Logo, pessoas jogando cartas de um lado, outras fumando maconha de outro, outras tendo um coma alcoólico, jogadas no chão, na passagem até o isopor com a cerveja, outros, um casal de homens, numas árvores, atrás dos carros, fazendo sexo. Sento com o grupo da roda de maconha, melhor que perder tempo com os nerds das cartas, e lá começo a conversar com Priscila. É uma veterana de Lúcio. Falamos de sonhos lúcidos e experiências alucinógenas. Ela é linda, e fala de uma jeito provocante, meio sarcástico algumas horas, meio bastardo, outras. Está ai, alguém que quero, que realmente quero, não só uma cota de noite a completar. Começo a demonstrar o meu interesse, e ela vai e diz:

- Tenho namorado.

O que não me impede em nada, caso seja verdade, sei que sou uma muito melhor opção. Continuo tentando a seduzir, e ela completa:

- Sabe a melhor hora para tomar LSD, fazendo sexo, você chega aos extremos. Eu e meu namorado, raramente fazemos sem LSD.

Ai, ela liga para ele, e sai da roda. Ok, recebi o recado. Tem uma outra garota na roda, que todos chamam de cigana, apesar disso nada ter. Muito bêbada, meio maluquinha, um maluco meio clichê, mas aparentemente bem carente. Sei que não me interessa, sei que não fará diferença, mas me sinto rejeitado, e acabo ficando com ela. Ela é a moradora do prédio. No fim da festa, todos vão embora e fico só eu com ela. Inicialmente ela me agarra num canto, tenta até arrancar as minhas calças, mas no meio de tudo ela para e começa.

- Você acha que eu sou fácil, não?

- Eu não acho nada.

- Você quer isso, não? – puxa o decote da sua camisa para me mostrar um seio. – Pois, então, hoje você não vai ter!

Só sorrio, e continua a acompanhá-la enquanto ela anda pelo lugar.

- Não, eu não sou fácil.

- E você, acha que eu sou fácil?

- Não sei, só você pode dizer isso.

- Você parece para mim saber muito bem o que você quer – a pego pela cintura.

- Não, não sabe. Ah, e estou cansada disso tudo.

- Sei...

- Olha, eles falaram alguma coisa de mim? De alguma coisa que fiz? – pergunta em referência aos seus amigos com quem conversei.

- Não, nada.

- Pois, é tudo mentira!

- Ok, tudo é uma mentira!

- Sabe, eu sempre fui uma menina comportada. Até o ano passado nunca tinha ido a uma festa que não fosse da igreja. Aí no réveillon, eu estava em Ilha Grande, e conheci alguém especial. Não interessa o nome dele. Ele realmente se importava comigo, eu podia sentir isso. A gente tinha uma ligação especial, que nunca tinha encontrado com mais ninguém. Foi a melhor noite da minha vida. Fomos para uma praia deserta depois dos fogos. Ele realmente se importava comigo! Ah,... – começa a chorar.

- Você não quer beber uma água?

- Não, não, só tem água lá em cima em casa, e não quero subir – nos sentamos ao redor de uma árvore, ela começa a falar quase para si própria. – Não sei o que fiz de errado. Acho que ele não entendeu direito o que nós tínhamos. Eu me entreguei para ele, eu confiei nele, eu sei que ele realmente se importava.

- Olha, relaxa, você não tem nenhuma razão para ficar triste. Não fica com esses pensamentos na sua cabeça.

- Eles me odeiam. A aula só começou há duas semanas, e eles me odeiam. Eu estou tentando ser amigável, mas eles me odeiam. Quero voltar para casa. Eu não sou daqui, só vim para cá por causa da faculdade. Eu quero meus amigos.

- Olha, ninguém disse nada de você. Você tem de relaxar, logo você se adapta.

- Não, eles me odeiam, tudo está dando errado.

- Olha, vai para a sua casa, bebe água, e relaxa, tenta dormir, vê um filme, deixa esses pensamentos de lado.

- Você está tentando se livrar de mim, não?

- Não, é claro que não, só estou sugerindo o melhor para você. (Sim, estou tentando ir embora.)

- Sabe o que vou fazer então? Eu vou subir para o meu apartamento e me jogar pela janela. Vou me jogar pela janela! – começa a gritar isso. – Olha lá em cima, aquela janela do sétimo andar, é a da sala, eu vou subir e pular! A janela é grande!

- Para de besteiras. (Meu deus, uma maluca, porque isso tem de acontecer comigo.)

- Não é besteira, eu cansei da vida, vou me matar!

- Não, não vai. Ok, não quer relaxar, quer sair então, quer andar por ai em vez de ficar aqui.

- Não, não posso, eu disse para minha mãe que ia voltar antes de meia-noite.

- Já são quase meia-noite agora.

- Tenho de ir, então.

Levo ela até a porta do prédio, depois vou encontrar meu amigo Lúcio e algumas outras pessoas que debandaram da festa em um bar. Ele acha que comi a garota. Digo que não, ele acha que estou querendo ser cavalheiro. Paro de questionar, não faz diferença.

No dia seguinte, há uma festa da nossa matéria, essa certamente ela não deixará de ir. Chego lá três horas antes da festa, não tenho aulas naquele dia, mas ela tem. Sai às 18h e dali ela tem duas opções, ou enrolar pelo centro de Niterói mesmo, ou ir para casa e voltar mais tarde só para festa. Cogito que é bem provável que vá enrolar pelo centro, sempre reclamava de gastos, não ia ficar indo e voltando. Logo, isso me dá uma boa oportunidade de acidentalmente “esbarrar” com ela, para que possamos conversar, não com motivos específicos e desagradáveis para si como antes, mas um papo normal, colocando as novidades em dia, e assim, quem sabe, depois podemos ir juntos para a festa. Lá finalmente, para fechar à noite, ficando juntos mais uma vez, como nunca deveria ter deixado de ser. Saindo do bloco da faculdade haveriam exatas cinco possibilidades onde ela poderia passar o tempo. Chego 18h na porta da faculdade, finjo ler, não a vejo. Enrolo ali por uns 30 minutos. É, pelo jeito, saiu mais cedo. Levanto e passo as próximas 2 horas girando pelo centro, pelos lugares que poderia ou não estar, girando e pensando, ensaiando o que falaria para ela, visualizando como tudo daria certo. Acho que dou 8 ou 9 voltas sem com ela encontrar até desistir. No caminho, já começo a ligar para as pessoas para encontrar alguém para beber até a festa. Confirmo duas. Chamo uma amiga da faculdade que mora perto, Vanessa, e também chamo a maluca cigana da noite anterior, não quero nada com ela, só quero gente ao meu redor para não chegar na festa sozinho. Quero mostrar que tenho opções, que minha vida não é só pensar nela. Bebemos num bar na entrada da universidade. Só eu e Vanessa, a cigana maluca diz que depois de ontem, parou de beber definitivamente. Sei que ela quer algo comigo, quem sabe, se a minha ela não for, se a festa estiver chata. Já Vanessa está sendo meio que arrastada para festa por mim. É outra a quem conto tudo e ela em troca também divide todos os seus problemas. É lésbica, e está tendo problemas com a sua namorada. Na verdade, nem mais sabe se tem namorada. Ela se diz muito fria, para ela é pouco natural falar uma palavra de carinho para com quem ela se importa, e agora a sua namorada está se afastando. Desistiu de tentar tirar dela algum sentimento profundo. Ela os tem todos, mas é reprimida demais para expressá-los, e prefere ficar em casa olhando para o teto em vez de mudar e fazer alguma coisa para tê-la de volta.

A festa oficialmente começou há 30 minutos, estamos ainda no bar, mas é um bom tempo para ir para lá. Geralmente chegaria mais tarde, mas não quero que ela chegue lá na festa sem mim para interagir com ela. Pagamos a conta e começamos a rumar para lá. E, assim, no meio do caminho, acompanhada de suas amigas, encontro ela, a minha ela. Só tenho uma missão, devo mover a situação para um cenário em que poderei lhe falar tudo que ensaiei antes, para deixar as coisas bem, fazer tudo dar certo. Vou lhe falar um oi, anunciar minha presença. Já está bêbada e não deixa de soltar um grande “Ah... não!” de surpresa ao me ver vindo, depois se esconde atrás de uma amiga. Isso não me para, já liguei o meu motor, lhe dou um oi, e ela responde com um outro oi e um olhar de WTF (what the fuck). Depois vira para uma das amigas e começa a falar um assunto a esmo, para fugir da situação. É isso, assim será à noite. Faço o mesmo, então, volto para minhas amigas, e parto alegre para a festa. Sorriso na cara, pulante, na boa.
Na festa em si, tento mais duas vezes começar uma conversa com ela, em ambas recebo a mesmo resposta de desinteresse. Fala de futebol com outra pessoa. Que horror, a esse ponto que chegou? Se interessando por futebol para se distanciar de mim, existe algo mais baixo?

- Desde quando você gosta de futebol?

- Ah, eu comecei a assistir e gosto.

Volta a conversa com a outra pessoa. Distancio-me, depois a reencontro na pista de dança, tento dançar perto, ela vira para o outro lado. Logo, vou dançar longe do outro lado da pista. O lugar já está ficando lotado. A observo a distância, ela nem se importa de eu estar ali, não existo para ela, nada que tivemos importa, nem provavelmente nunca importou. Começo a trocar olhares com uma outra garota, bonita. Dançamos um para o outro, e a agarro, nos beijamos. Enquanto a beijo, olho para o outro lado, imagino se possa estar nos observando, nem mais lá está. Saindo da pista, a vejo mais uma vez, agora conversando com outro cara. A garota com quem fiquei aparece do meu lado, nem penso, a agarro de novo. Agora sim, ela vê tudo. E fica lá olhando, olhando e mais nada. Não faz absolutamente nada. Acho que nem se importa. Depois saio com a garota para algum outro canto. Não sei o quero, é bonita, pode ser até interessante, mas nada disso me importa agora, queria que a noite tivesse tomado outro rumo. Seu nome é Joana, uau, nunca fiquei com uma Joana, e já estou na segunda em menos de duas semanas. Pego seu telefone, mas duvido que vá ligar. Não me importo mais com nada, digo que vou falar com uns amigos e começo a andar pelo lugar. Quero falar com ela, ok, ela não reagiu, mas também não foi completamente indiferente, ela ficou lá olhando. Temos que ter uma conversa decente, não aquele horror que foi no McDonalds tinha muita coisa ruim ainda na cabeça naquela conversa. Procuro ela, e a encontro. Está contra uma parede, com um cara em cima dela, conversam, sorriem, ela o olha igual aquele cara na festa antes de namorarmos. Toda atenção do mundo, tomada completamente por ele. Ela o beija, e eu olho. Olho, e olho, e nada digo. Como está animada beijando o cara. Que liberdades está tomando com seus lábios. Ela não beijava assim, eu que ensinei ela a beijar assim. Ele não está beijando ela, ele está beijando o meu beijo, o beijo que eu fiz ela ter com os meus lábios. Ela nunca beijaria alguém assim antes de mim. E não foi um trabalho fácil, demorou muito para fazer ela tomar certas liberdades com a sua língua. Agora, esse meu beijo, minha responsabilidade, trabalho e criação, é de qualquer um, qualquer mendigo de esquina. Meses de trabalho jogados fora. Eu já sabia que ela estava dando minha obra para outras pessoas, mas era a primeira vez que via isso pessoalmente. Quais outros trabalhos meus logo estariam sendo também dados para gente que não se esforçou para tê-los. Ela me olha, mas é indiferente, continua. Depois pega o cara pela mão é vai para algum canto.

Sinto-me um lixo, sinto-me tendo perdido uma vida, que talvez nunca tenha realmente tido. Se tudo foi realmente como pensei, como poderia ter acabado daquela forma. Pois foi uma farsa. Tento não pensar naquilo, procuro Joana. Está no meio da pista, dança com um cara. Está muito bêbada, dá para notar, também foi feita de sanfona por mim. Não me importo, não me importo com o cara, a puxo para mim e a beijo, a beijo e não sinto nada, não há valor naquele beijo. Não há marcas no meu cérebro com o seu nome, com os seus movimentos, não são meus. Ela responde, mas depois me olha e se afasta. Não faz diferença, não sinto nada, nem por ela, nem pela minha ela, nem por ninguém, nem por mim mesmo, só sinto pela dor, nem interessa dor do que, só dor. Vou embora, no caminho lágrimas vazam da minha cara. Acabou, acabou, acabou, de uma vez por todas, chega dessa palhaçada.

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Meu ano sem ela
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