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segunda-feira, dezembro 08, 2014

Meu ano sem ela: Cap. 8 - Ensaio sobre a dor

Mais um capítulo de amostra do romance Meu ano sem ela. Para ler os anteriores, clique aqui!

8 – Ensaio sobre a dor

Acredito ter saído com Fernanda um total de oito ou nove vezes. Em todos os nossos encontros, eu ironizava o nosso relacionamento, esbanjava a sorte dela de estar saindo comigo. Para última garota que gostei antes dela, Elisângela, eu fazia tudo, ela me fazia de gato e sapato. Não ia deixar isso se repetir. Foi um erro. Os primeiros encontros foram uns atrás dos outros, com ambos achando brechas para se encontrar, os últimos, com buracos uns maiores que os outros entre eles. Antes do último, decidi que estava me comportando errado, que estava agindo com ela como se fosse a outra, e assim estava estragando tudo que poderia ser. Fernanda era completamente diferente de Elisângela, não jogava como ela. Além disso, nem havia espaço para comparação, toda relação com Elisângela fora baseada no absurdo, nem mesmo tinha ficado com ela. Fernanda não, era o concreto, era o real, desde o início fora o concreto, mesmo com o início bizarro que teve. Mas ao seu lado, ainda não funcionava direito, respondia mais ao trauma que ao real que estávamos tendo. Marcamos o último encontro no meio do caminho entre a minha casa e a dela, um shopping em Bangu. Ela morava em Campo Grande. Sim, sempre sai com garotas que moram perto do precipício que dá fim a terra. Ensaiei tudo que precisava lhe falar para que ela parasse de se afastar de mim, para que agisse como nos primeiros encontros, visse a seriedade sobre o que sentia por ela. O shopping de Bangu é o prédio de uma fábrica. Reaproveitaram bem a estética das paredes de tijolos vermelhos, olhei muito para eles, ela demorou mais de uma hora para chegar.


- Você nunca falou uma única palavra que me desse algum valor. Até agora nem um único elogio tinha saído da sua boca.

Naquele encontro pela primeira vez tinha falado que a achava linda. Também lhe expliquei meu comportamento, lhe falei da outra. Ela respondeu que gostava muito de mim, porém...

- Meu sentimento por você do jeito que você quer agora, acabou. Eu reencontrei alguém que eu gostava há muito tempo, e meus sentimentos por ele voltaram. – Estávamos sentados na praça de alimentação, tinha tomado um milkshake, e a embalagem de plástico de um canudo estava caída sobre a mesa. Ela a pegou. – É como se a possibilidade de nós dois juntos fosse essa linha. Você teve o seu tempo, e por causa desses seus problemas, você não soube usá-lo. E agora a linha acabou, e uma outra começou. O que eu sentia por você no início fez puffit.

Vejo algo, quero algo, faço tudo para ter isso e não consigo. Havia um vazio, enquanto olhava os trens passarem na estação de Bangu, esperando o que ia para minha direção. Vazio na espera de algo que nunca chegava, ainda mais quando notei que estava na plataforma errada. Sabe, a vida faz puffit. Se tivesse agido de outra forma, a minha vida agora estaria em outro caminho, em outra plataforma. Agora, outro vai experienciar algo que devia ser meu. Minha alternativa fez puffit. Puffit e não há nada que eu possa fazer contra isso. Apático, aceito esse puffit, vejo o resto do dia passar. Durmo, acordo, olho para as atualizações do Orkut. De ontem para hoje, da nossa possibilidade que fez puffit para hoje, Fernanda atualizou seu status, está namorando. É realmente possível dar um bom soco em si próprio, não é só algo do filme o Clube da Luta.

Digo para me deixar sozinho no McDonalds, ela insiste que só sai quando eu sair. Não quero levantar, não tenho forças. Para mim tudo estava certo, falaria como me sentia para ela, ela veria a verdade em meus olhos, e mais uma vez estaríamos juntos. O caminho estaria com sua trajetória certa, e poderia voltar a construir nele. Agora, não há mais caminho, então porque levantar ou fazer qualquer coisa. Mas ela se recusa a ir embora, logo para dar um fim naquilo, aceito, levanto, e nos despedimos definitivamente na frente do McDonalds. Dessa vez sou eu que lhe abraço forte, e ela que responde estranho. Ando para as barcas e olho os carros, são como os trens de Bangu. Não faz muita diferença, 9 encontros ou 1 ano de namoro, o plástico da embalagem do canudo uma hora chega ao fim e faz puffit.  

No ônibus de volta, sentada atrás de mim uma mulher conversava com a outra.

- Meu filho tem de fazer algo de útil em vez de ficar saindo para a rua. Ele tem de ficar em casa e limpar uns sapatos.

Por que sempre nessas horas, entro com pessoas assim no ônibus? Por que sempre há transito? Não choro no ônibus. Não choro ao virar a maçaneta da porta ao entrar no quarto. Choro na cama ao sentar. Choro ao mesmo tempo que tento me sufocar com um travesseiro. Não a melhor das técnicas, garanto, não funciona. Ainda 16 horas da tarde. O dia é longo, as horas são longas. Não tenho mais propósito. Quem sabe no dia seguinte estarei melhor. O que estará fazendo agora? Não importa, não me diz mais respeito. Chega à noite, deito na cama. Nada acontece, me viro de uma lado para o outro, nada acontece. 1h da manhã, nada acontece. 3h da manhã, nada acontece. Meu coração bate, bate muito, não para de bater. 5h da manhã nada acontece. 7h da manhã, nada acontece. O dia é longo à frente. Não há propósito, não há nada a fazer. Chega à tarde, o dia é longo, não há propósito. O coração bate forte, estarei tendo um longo ataque cardíaco? Chega à noite, o dia é longo, não há propósito. Viro na cama de novo, de 10 à 12 horas. Os dias se seguem, não há propósito. Acho que se não estou morrendo, estou perdendo alguns anos de vida, com o meu coração batendo desse jeito sem parar. Não durmo, só me reviro. Não habito mais o espaço comum do meu quarto, da minha cama, habito uma bolha que me engloba em posição fetal, uma bolha de dor. Nela todo o meu corpo dói, todo o som é de sua voz, de nossas conversas passadas, de como dizia que me amava, de como disse que não mais me quer, sua voz e a minha em protesto; nossas vozes e meu coração batendo; nossas vozes, meu coração batendo e o sufocamento do nariz entupido devido ao choro; é, também tem o som do choro, ele vem do nada, e vai do nada; mas o nariz entupido, a dificuldade em respirar, dura muito mais tempo. Fora da bolha, um dia tem 24 horas, com cada hora, 60 minutos; uma semana totaliza 168 horas, logo 10080 minutos. Dentro da bolha; cada hora é um ano, e a semana, alguns séculos. Fora da bolha, as coisas têm sua forma material, e o inconsciente coletivo humano lhes atribui certos significados específicos, mesmo distorcidos pelas experiências individuais. Dentro da bolha, as coisas são buracos, buracos de vazio, de nada, de faltas de significado que gritam em desespero para serem preenchidos, mas a que nada há de resposta, só mais falta de significado. Fora da bolha, a vida humana é uma pequena partícula entre muitas outras, que vista de longe já iniciou e acabou, cumprindo seu papel no tapete da realidade. Dentro da bolha, a vida é pesada demais para ser suportada, mais pesada que todas as coisas. A bolha se desprende da realidade e começa a afundar para as trevas. Não se pode dizer realmente se desce, ou se sobe, se vai para a direita, ou se vai para a esquerda, nem sequer se está em movimento, não há distinção ao seu redor para determinar isso. 

Um homem acredita ver uma bolha passando imergida entre as águas de um rio, mas não se pode realmente dizer, pode ser só um reflexo de alguma outra coisa, ainda mais já que logo ele para de prestar atenção nela, e olhando para o céu, começa a observar o dragão que passa acima das nuvens. Mas logo tudo isso se desfaz como se fossem só rabiscos de grafite em um papel, e a bolha se encontra no meio de um quarto vazio, um quarto branco, sem paredes. O homem careca de terno branco olha seu relógio, depois olha para a bolha, limpa o abafado de sua superfície e vê seu ocupante. Começa a falar para um gravador:

- O paciente número 33.6789 F890 está em processo de encubação de sua terceira ruptura epistemológica, sua terceira morte. Pelo que podemos entender, o paciente foi extremamente influenciado em sua infância por contos de fadas japoneses e filmes americanos. Não, não contos de fadas europeus. Os europeus tem a característica de terem em suas personagens femininas uma passividade e imobilidade que não inspiraram o paciente. Mulheres sem personalidade, com a função de dona de casa, geralmente com a tendência ou de serem aprisionadas, ou de participarem de orgias com anões. O mesmo estilo de mulher que no século 20 evoluiria na mocinha, proto-esposa, que vamos encontrar nos filmes americanos a se espalhar pelo mundo. Em suma, mulheres de avançado retardamento mental. O tipo de símbolo cultural a ecoar na sociedade o mesmo retardamento nas mulheres, e homossexualidade nos homens, ou um gosto por futebol, não há diferença. Os japoneses por sua vez... o quê? Não, não precisa ser tradicional para ser um conto de fada, pode ser um conto de fada moderno, desde que carregue os símbolos de príncipes e princesas. Ok, não contos de fadas, mas animes. Mas então, esses desenhos japoneses em especifico que influenciaram o paciente tem como protagonistas as princesas e geralmente o príncipe só tem uma faculdade auxiliar. São garotas de personalidade forte e determinada, geralmente repudiadas pela sociedade em que se encontram, que tem de resolver a questão da trama. O auxiliar masculino só a ajuda, por reconhecer essas suas características. Sim, não são animes para garotos. Nem na verdade para garotas, não adolescentes, mas garotas de menos de 10 anos. Somando-se a isso temos os romances americanos, com um protagonista masculino geralmente encontrando o seu par feminino através do ato do destino, por alguma coincidência ou série de coincidências que é certa de ocorrer. Esse encontro, e o caso amoroso que é despertado a partir desse geralmente são os fatos decisivos aos quais determinam a vida do protagonista. Sim, sim, não aparenta haver balanço na equação. Mas também as únicas protagonistas femininas que registra desses filmes, são as exceções. O resto só são bonecas vazias as quais imprime sem prestar atenção a personalidade dos registros de animes. Sim, é um equilíbrio bem fino entre as duas ideologias. Porém, o paciente número 33.6789 F890 piamente acredita nessas premissas, mesmo já tendo se desprendido dos produtos que as originaram. São elas que constituem a relação entre o seu ser e a sua razão-de-ser. Essa relação especifica de premissas é a causadora dessa sua instabilidade epistemológica. O paciente aparenta ter procurado por toda sua vida uma mulher determinada, de personalidade forte, criadora da realidade ao seu redor, que o admirasse e ao mesmo tempo o desafiasse. Alguém que reconhecesse suas melhores qualidades, e lhe apontasse e o provocasse contra suas falhas. Além disso, tal procura sempre fora feita muito bem parado, pois tal encontro só pode ocorrer pela ação do destino. Encontrar essa garota, sua razão-de-ser, é a solução de sua tragédia existencial. Agora, aparenta que ele acredita que perdeu essa possibilidade, que não há mais propósito para continuar. Olhe, ele repete muito isso, enquanto se revira dentro da bolha. É..., não. Da parte do destino, ele não se interessou por ela desde o primeiro segundo, só a colocou numa categoria entre muitas possibilidades. Nem foi um encontro por coincidência, todos seus encontros tiveram de ser orquestrados. Mas a ruptura dessa premissa já está em arquivo, se dá de sua segunda morte. Já quanto a ela ser o tipo de personagem que se encaixe na sua mitologia romântica. Ela não aparenta ser muito determinada, apesar dele ter lhe repetido isso muitas vezes, com certa profusão, num tipo de mantra. Parece também, a partir dos seus registros nesse um ano, desistir fácil das coisas e renegar qualquer tipo de esforço. Também nunca se interessou muito pelo o que o paciente relevava como importante em si próprio, na verdade, nesse respeito sempre o achou estranho. Seu interesse parece ser único no que o paciente considera como conseqüências do que ele é, e não do que ele realmente se esforçou para ser. Não, não, também nunca o desafiou em suas falhas. Na verdade, o fez se retrair em suas qualidades, ao seu lado ser ele mesmo parecia causar problemas, e o paciente esforçava-se para evitar problemas. Não, não é isso, é uma psicose. Também não, estamos falando aqui de uma ruptura classe 5.

Toca uma campainha, o homem careca olha seu relógio, guarda seu gravador, e se afasta da bolha. Encontra uma corda dependurada de algum teto distante, puxa ela. A luz se apaga.

Passa uma semana, talvez duas, quatro horas de sono por dia se tornam o adequado. Sua voz continua a bater em minha cabeça a cada segundo. Mas as batidas de coração deixam de ser excepcionais, ou talvez já esqueci como um coração normal bate. Num segundo, digo as palavras certas, e tudo dá certo. No outro, não há nada a ser dito, tudo está perdido. Ela deve estar agora com outro. Não, ela está ainda confusa, foi muito estrago de uma vez só, eu sabia que ia ser assim quando acabei com ela, foi um estrago intencional para não ter mais volta. Mas estava errado, a criatura que acabou com ela estava errada, e agora tenho de corrigir isso. Sim, sim, é tudo minha culpa, devia tê-la entendido melhor. Se nunca lutou pela gente antes, porque devia esperar isso agora. Eu posso consertar isso. Devia ter agido melhor. Não, mas agora está tudo perdido. Mas talvez eu possa começar do zero, sim, reconstruir tudo. Ser seu amigo e a reconquistar. Repetir tudo, mas agora seguir o caminho certo. Levanto.
   
a lanchonete, um lugar onde ela estará mais calma, encontrá-la assim e deixar as coisas seguirem daí como por acidente. Só tenho que orquestrar esse encontro natural e esse acidente. Volto ao meu cotidiano, nas faculdades alguns amigos me perguntam se estive doente. Começo minha investigação. Descubro que vai numa festa da faculdade no final daquela semana. Está ai minha possibilidade de começar a mudar a direção do vento. Chega sexta, e do nada, surge a possibilidade de um trabalho, mas para consegui-lo tenho de ir num jantar em outra cidade, em Magé. Com dinheiro posso provar para ela ainda melhor que mudei, que as coisas podem ser diferentes. Hesito, a festa pode ser uma oportunidade única e não posso perdê-la, mas pode também não dar em nada, se não tiver algo para provar que mudei. Talvez precise fazer ela sentir falta de mim, fazer o que lhe falei naquele encontro entrar em sua cabeça. Mas talvez já tenha entrado, e essa seja a hora de fazer tudo se acertar. Depois de muito pulo de um lado para o outro, decido ir ao jantar. Haverá outras festas, e em outra posição poderei reconquistá-la melhor. No ônibus para Magé, penso nela na festa, como ela estará lá, com quem ela estará lá, fazendo quem sabe o quê.

É um jantar, meio festa, de comerciantes de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, ou seja: comida, gente bêbada e forro. Os ingredientes para o suicídio. A idéia é ser apresentado às pessoas certas para conseguir um trabalho na publicidade de uma campanha política. Eu não tenho dinheiro, e pessoas pobres não tem o privilégio da moralidade, se Joseph Goebbels me oferecesse à possibilidade de um salário que me desse a liberdade de sair de casa e determinar meus movimentos, já estava lá como seu assistente. Mas tudo se revela uma furada, e fico comendo e conversando com gente que não vai me levar a nenhum lugar. Isso enquanto, nesse mesmo exato momento, ela está lá na festa, sem mim. A vida é vazia, sinto o peso do vazio. Vou dormir na casa da minha avó no final do jantar, ela mora perto. Última vez que estive lá foi com ela. Há anos minha avó insistia que quando eu conhecesse uma garota que gostasse, eu a levasse lá. Há mais ou menos uns 6 meses, eu a havia levado. Durmo umas 4 horas como sempre. Ao acordar, sento na varanda para tomar o café da manhã. Lembro a última vez que sentei ali com ela. Começo a chorar.

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 178 Pág. 1º Edição, Editora: Epicentro Nervoso
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