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segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Quinto capítulo do romance Meu ano sem ela

Último capítulo de amostra do romance Meu ano sem ela. Leia o primeiro capítulo clicando aqui e o segundo clicando aqui! Como a história não é linear, não há a necessidade de ler o terceiro e quarto para acompanhar o quinto. 

5. Além do homem


O que está morto deve se manter morto. Não posso mais pensar nela, é errado, é blasfêmico, é retornar. Junto às fotos no DVD, qualquer outro arquivo referente a ela. Mil imagens estáticas, cem mil palavras sem razão. Não posso apagar, não quero contato com aquilo, mas ainda sei o quanto tudo aquilo é precioso, e uma pequena voz em mim ainda me diz que é só uma questão de tempo até tudo estar de volta, tudo estar certo, tudo ser como deveria ter sido, como nunca realmente foi. Junto o dvd com outras coisas nossas, guardara muita coisa nossa: cartas, entradas de cinema, notas de sorvete, penas de suas fantasias. Cada uma com sua história, cada uma, símbolo de um momento cavado em meu cérebro. Resquícios, fragmentos, de momentos que deveriam compor algo grande e belo. Agora, resquícios, fragmentos, de um fracasso, de uma dor, de uma obra que não deveria ser. Coloco tudo em uma caixa e guardo no topo do armário, entre a poeira, entre aquilo que não deve ser visto, ou se fazer ver. No computador, num arquivo de excel, que chamo de Planejamento, organizo como serão minhas próximas semanas. Preciso de ordem, serei um monge estóico, me açoitarei caso me desvirtue do caminho. Acordarei cedo, farei exercícios físicos, comerei bem e saudável, estudarei para as provas de concurso que estão por vir, e no meio tempo ainda manterei minha prática de escritor com alguns contos. Tudo com um horário certo, tudo numa quantidade equilibrada, tudo com um objetivo, uma quota a alcançar. Devo ser uma máquina para alcançar meus objetivos, não uma esponja tomada e amassada pela situação. Porém, nem tudo está certo, as conversas rapidamente começam. 


- Estou escrevendo, você vê! Vinte páginas nos últimos dois dias. Lembro quando te encontrei naquela festa e você me disse que tinha lido todos os contos que te enviei. Fiquei impressionado, pensei que tinha os ignorado como a maioria faz. Achou-os estranhos. Você preferia quando escrevia coisas normais, e agora estou fazendo exatamente isso, histórias com início, meio e fim, sem elefantes rosas, sem vômitos de pipoca, sem torres de mil olhos. Nesse último ano com você, acho que só escrevi umas nove páginas de ficção. Eram para você, algo no gênero que você gosta, e você demorou um mês para lê-las. Sempre tinha algo mais importante. Você sabe o que vai acontecer agora? Vou mandar essas histórias para concursos e vou ganhar eles. E aí você vai ver o quanto elas não eram ignoráveis.

Nada me responde, ali do meu lado muda, uma imagem, mas seus olhos me desafiam por mais. De vez em quando falo com a real no msn, de volta as conversas monótonas, dela já não vem nenhum esforço para voltarmos, é como se nada nunca tivesse acontecido. 

- Tenho estudado.

- É, eu também.

Já não me esforço mais para manter o fluxo de palavras, não luto mais contra os espaços vazios, deixo a conversa morrer, volto uma, duas horas depois para falar até mais, mandar beijos, fechar a tela. Passando uma semana, decido sair, ir a uma festa. Ficar em casa, com o convívio diário com os meus pais e só algumas conversas pingadas na internet, é o certo caminho para loucura. Decido ir ao Cine Cachaça no Odeon, centro do Rio. Uma hora de curtas, depois uma cachaça horrenda grátis e festa. Engraçado que fui muitas vezes convidado por uma garota para essa festa, Juliana. Mas essa era a primeira vez que estava realmente indo. Gostava dela, mas tínhamos pouco contato e estava sempre perdido em outras confusões – garotas - para entender que ela estava também interessada e por isso sempre me chamava. Fiquei com ela uma vez antes de começar a namorar, numa noite alcoolizada na lapa, mas ainda estava pensando em outras coisas – Fernanda, outra longa história -, e ela também tinha algumas confusões – algum indigente que não me importa -, logo não deu em nada, não tinha cabeça para dar em algo. Agora saio, mesmo sem convite, pois é preciso sair, é preciso retornar a humanidade que não seja ela, ou seu fantasma. 

Três badaladas. Vejo os filmes, sozinho numa sala cheia. Última vez tinha ela ao meu lado. Só uma hora, não o suficiente para enlouquecer. Usual coletânea de voyeurismos de uma classe média sem direção, sobre uma idealização sem fundamentos de uma classe pobre exótica, é o bom selvagem, é o bom trabalhador. Olhe, um trabalhador com olhos grandes que canta! Por que os revoltados cariocas tem de seguir justamente Rosseau e Marx? Não poderiam ser dadaístas? Saio amassado na multidão de amontoados ao redor da mesa da sagrada pinga. Horrível, mas se tomar o suficiente, dois copinhos a gosto de gasolina, talvez faça o zumbido parar na minha cabeça. A música toca, grupinhos conversam, paro em um, a esmo, gente com cabelos saltados ou barbas longas, sem garotas gordas de preferência. Não estou tão enferrujado quanto acredito, falamos dos curtas, faço comentários sem valor qualquer: onde será que isso foi gravado, nunca tinha visto o Mussum cantando assim antes. Sei que se abrir minha boca demais vou incitar conversas que não saberei sair, nem me interesse em rebater. Tudo parece tão sem sentido, não gosto desses rituais de acasalamento mascarados de evento cultural. Se é para se agarrar, porque fingir o resto. No segundo andar, ao lado da pista de dança, ao me amassar pelas multidões, vejo sentada num canto, com algumas pajens ao seu redor, uma rainha. Bela, olhos fixos na pista, muda, entre as duas conversando ao seu redor. Como posso falar com ela? Mal consigo me escutar pensando aqui, e ainda há as pajens no meio do caminho. Terei que interagir com as pajens também, mas é tudo tão apertado, serei um obelisco estranho a adentrar na conversa. Começo a andar na direção delas, a rainha me vê indo a sua direção. Quando do nada, ela liga, meu coração bate, atendo. Rumo a um canto silencioso do lugar, ou o mais parecido a isso possível. Está com raiva. Estávamos conversando antes no msn e lhe disse que ia sair, queria mostrar-lhe que estava vivo. 

- Ignora o depoimento que te mandei pelo Orkut!

- Como assim?

- Nada, só ignora.

- Fala! Já que ligou fala tudo agora.

- Eu tenho problema, a gente não tá mais junto, sua vida não me diz respeito. 

- Porque você quer!

- Pára. Só não faz mais isso, não me diz que você vai sair, eu não quero saber.

- ..., o que você quer? A gente acaba e você só sabe me atacar e reclamar.

- Nada, você tomou a decisão certa de acabar com tudo.

- Hum...

- Eu vou te deixar em paz agora.

Desligamos. Rodo pela festa irritado. O zumbido aumenta, a gasolina só o pode parar se eu quiser que ele pare, e vamos ser sinceros, eu não quero. Vejo a rainha de novo, cabelo à la Ana Karina, olhos verdes, lábios carnudos e vermelhos, rosto na melhor linhagem de modelos ucranianas. Odeio tudo isso. Odeio rituais, odeio jogos, quero só falar a verdade, mas a verdade vai contra a natureza humana. São milhares de anos de uma evolução para jogos, jogos de acasalamento, não para a verdade. Mas o que é a verdade? Não só mais uma ilusão de quem não quer aceitar que só se move como a peça de um jogo. Sei que ela me quer de volta, mas não move um dedo para isso. Sei que ela quer que eu volte correndo dizendo que quero ficar com ela. E eu quero fazer isso, como já fiz várias vezes antes. Mas chega, não agüento mais. Agora é a vez dela, se a gente têm de estar junto, ela tem de fazer o esforço. Rodo mais na festa tentando apagar o zumbido, indigentes já se agarram em algumas paredes, não agüento, ligo para ela.

- Fala como você tá!

- Não importa, já disse que isso é problema meu.

- Importa sim, eu tô aqui na festa tentando seguir a minha vida, mas você acha que eu consigo me focar em algo depois de uma conversa assim com você.

- Tá, desculpa, eu sou boba, eu não devia ter ligado.

- Não, você não é boba, não por causa disso. Droga, o que você quer? Você só sabe reclamar comigo, ou ser conformista com tudo.

- Nada, eu não quero nada, absolutamente nada. Volta lá para sua festa.

- Não, agora eu quero falar. E nem tô mais na festa, já sai e tô a caminho do ônibus.

- Ela já acabou?

- Não, eu fui embora, não fazia mais sentido ficar lá.

- O que você quer comigo?

- Não, você que me ligou, você me diz o que você quer comigo!

- Olha ..., eu te entendo, eu entendo a sua decisão, você mesmo disse que quer encontrar outra pessoa.

- Não, eu disse que quero encontrar alguém que fique do meu lado, que eu suporte e que me suporte, não que só me acompanhe como uma estátua decorativa.

- Isso, então, vai lá procurar!

Estou no ponto entre a Praça Mahatma Gandhi e a Igreja da Lapa, engraçado o lugar para se ter esse tipo de conversa. Não será a primeira, não será a última. Nem serei o primeiro ou o último a tê-la. Esse ponto é uma terra ruim para casais, muito sangue de amores destroçados já correu nele. Mas isso não interessa no momento, entro no ônibus. 

- Droga, para de ser tão conformista. Meu deus, droga, só me diz uma coisa decente e você pode me ter de volta.

- Não, eu não quero. Você estava certo na sua decisão.

- É isso que você quer então?

- Não interessa o que eu quero.

- Droga, me fala.

- Nada, se você não tem nada a me falar, eu também não tenho nada a falar.

- Meu deus, eu tô chegando ao ponto aqui de te pedir diretamente, me fala uma única coisa decente e você me tem em dois segundos do seu lado.

- Eu não quero.

Minha bateria de celular acaba. Ao chegar em casa há um depoimento no Orkut, falando o que ela já tinha dito, para eu não mais falar para ela da minha vida. Ela ainda está online, mas nada avança daquilo que já tínhamos conversado. Tudo é um disco quebrado, e as peças acima dele não tem casas a avançar, só sabem girar.

As provas de concurso público vão chegando, mas perco o interesse, prefiro mais escrever do que estudar aquilo. Quero dinheiro, mas a possibilidade de perder oito horas do dia, cinco dias por semana, num trabalho inútil de escritório que não me atribuirá nenhum valor real, me horroriza. E pior, é trabalhar para o governo, trabalhar para ladrões, só que sem a honra de ladrões que se admitem como tais. São ladrões ratos, fedidos e deformados, covardes, que se alimentam de outros covardes como eles, mas sem a inteligência o suficiente para roubar que nem eles. Meu plano original, quando comecei tudo isso, era entrar em algum concurso público e assim pagar um apartamento para que ficássemos juntos, sem aturar suas frescuras de vir a minha casa, ou a repressão que tinha dentro da sua. Agora não tenho mais razão para me esforçar, o que eu quero é escrever, não me vender. Além disso, não consigo mais pensar direito após ela ter falado comigo. Sinto cada vez mais, que é isso, ela não vai fazer nada.

- Desculpa, ... Eu te amo, eu te quero do meu lado, não importa o quê, eu faço tudo para te ter de volta! – seu fantasma diz para mim. E se fosse a real, com aquelas palavras, ela me teria para todo sempre como seu escravo, não importando as conseqüências. Mas não é ela, é só seu fantasma. Quero que ele pare de me assombrar.

Repito a conversa que tivemos várias vezes, com alternados fins, com alternadas conclusões, com alternadas ações... reações suas. Tento me focar em outras coisas, nas provas, nas famigeradas provas. Se comecei algo, preciso acabar, preciso estudar e fazer as provas. Provas, provas, provas, estudar, estudar, estudar. Que mentira, olho para o teto. Mas fá-las-ei. Com isso nem penso mais em tentar apagar tudo da minha cabeça com alguma outra garota, ou com o álcool. Não há espaço, tem prova toda semana, e mesmo me lixando, tenho que me passar à imagem que estou tentando. Era isso que fazia ao seu lado, não? E é numa dessas malditas provas inúteis que nos encontramos. Ou melhor, eu mando uma mensagem falando para ela me esperar na porta da escola do concurso depois da prova. Como sempre, saio primeiro e fico esperando. Não sei o que quero com aquilo, fico calmo até o momento que a vejo, meu coração estoura. Ela me parece feliz, sem preocupações e não tem nada para me dizer. 

- Como foi na prova?

- Bem!

- E você? 

- Bem também.

Acompanho-a até o ponto. O ponto, hum... Outro ponto. Pontos de ônibus parecem ser lugares de muita significação numa cidade. Pelo menos, para quem é pobre, não tem carro e tem de se ver amassado em latas para chegar aos lugares que deseja. O ponto na frente da escola da prova é exatamente o nosso ponto de encontro, o ponto que marca a encruzilhada de caminhos entre a sua terra pós-poça e a minha terra pós-apocalíptica. Imagina, ter só um ônibus entre nós, não, tem de ter dois, e eu tenho de sempre encontrar ela na porta do seu, para levá-la ao meu. É isso que um namorado faz, que piada. Pelo menos, era assim. Agora é só um ponto ao qual eu a acompanho por acompanhar, não mais o no qual nos beijávamos, não mais o com aquela grade de metal contra a qual eu lhe agarrava, onde ficávamos grudados um ao outro até o seu ônibus chegar. Agora, estamos lá longe um do outro. Longes esperando seu ônibus. Ele chega, ela se despede me abraçando, me abraça forte. Não esperava isso, me sinto estranho, fora da vida em que deveria estar, fora das respostas que preciso. 

Lua sobe, lua desce, vou a uma festa na faculdade, a outra que faço. Diz a lenda que talvez faça seis, mas não há tantas faculdades públicas assim no Rio para fazer, e vamos ser sinceros nem morto, eu pagaria por aquilo. Chego cedo e vejo os vários bolsões de pessoas se formando. Conheço mais essa gente que na outra faculdade, posso perceber como se amontoam em círculos de seus próprios cursos, fechados no mesmo, querendo o mais. O meu círculo não tem a melhor fauna feminina - certas matérias não atraem espécimes com hábitos alimentares muito saudáveis. Quero me infiltrar em outro grupo, mas me vejo incapacitado de conversar qualquer coisa além de assuntos pueris - transferência de informação usada. Esqueci-me como falar do que gosto, do que me entusiasma, do que me vende como ser humano ainda vivente. Foi muito tempo sendo cortado nessa área. Viro um antropólogo e me confesso como tal. Não há nada mais feio que uma fileira de garotas bonitas dançando coreograficamente um funk. É a marcha dos idiotas, ela está vindo! Não sei por que estou aqui, mas também não sei onde estar. É engraçado quando paro para conversar com um dos espécimes e falo de música. Gosta de outras, mas funk é o que dá para dançar. Ou seja, funk é o que vêm com uma coreografia pré-programada que ela possa seguir como a maioria ao seu redor. Seguir sem pensar, não que houvesse algo a ser pensado. Bebo tentando desligar a maquininha lógica em minha mente, retardar os motores, sair de dentro, ir para fora. Converso com mais uma, mal sei o que falo e do nada a estou beijando, nem sei como começou. É mais um não há mais nada a fazer mesmo. É... estou ficando com ela, seria de pouca educação ir embora agora? Vejo à distância uma amiga chegando na festa, Elisângela. Uma garota por quem já tive uma obsessão sem sentido quando mal a conhecia, na vida de um em mim que morrera muito antes de conhecer a minha atual ela. Uma garota com quem nada fiz, mas pude experienciar concretamente num certo período de tempo a transformação de uma atração, numa total repulsa, não pessoal, mas atracional. Uma garota que por fim entrou entre as fileiras das minhas psicólogas. Vem acompanhada de sua irmã menor, Elisa. Uma garota a qual eu cultivo uma estranha simpatia, estranha pois acredito não ser sexual, acho. Falo a garota com quem estou ficando que vou falar com minha amiga e parto.

- A festa tá boa né, ...! – fala Elisângela para mim.

- É... está ok.

A conversa se segue, pergunto como vão, comento a festa, nos sentamos num canto, divido minhas analises antropológicas para ambas, até que:

- E a sua namorada, ..., o que houve com vocês?

- A gente não dava certo junto, tínhamos problemas toda hora. Até que chegou num ponto que não deu mais.

- Vocês pareciam tão felizes nas fotos – nas fotos, porque em nosso um ano de namoro, ela só conheceu um único amigo meu, e isso por acidente, já que toda vez que marcava para sair com ela e meus amigos, sempre o lugar era longe demais, ou o horário pouco propício demais para ela. 

- Sim, mas isso não importa. Era um momento alegre, outro ela me questionando, arranjando problema do nada, dando ataques. A gente era muito diferente, e não importava o quanto eu fazia para deixar tudo certo, ela sempre achava alguma falha. Era...

E aí se seguiu a matraca.

- ... e tipo, eu sempre chegava cedo nos nossos encontros. Eu nunca quis deixar ela esperando, porque eu odeio isso. Enquanto isso, chegou à vezes que me deixava até 1 hora esperando, senão mais. Sim, morava longe, mas isso tanto quanto eu dos lugares que a gente marcava. Sim, tinha trânsito, mas não era para nenhum lugar que ela nunca tinha ido antes, nem em dias que ela nunca tinha ido. Logo se ela se importasse, era fácil calcular o horário necessário que ela saísse para chegar cedo. Porque é isso que eu fazia, eu pensava antes para não deixar ela lá parada que nem uma idiota me esperando. Mas isso importava a ela? Não. E ela chegava como se nada tivesse acontecido, e ainda ficava contrariada porque eu ficava com raiva. Como se aquilo não fosse um prazer para ambos, como se eu esperar ela fosse um privilégio, e eu não valesse nada ali. E o pior, e o pior, eu sempre esperava, todo encontro, que aquele dia fosse o diferente, que naquele dia ela fosse chegar no horário. Então, eu nunca mudei nada, porque eu não queria deixar ela esperando caso esse fosse o caso. E tão raramente foi.

Continua a matraca. Interrompem a matraca.

- ..., aquela garota que você tava ficando parece tá te procurando.

- Ah..., ela alguma hora me acha.

Continua a matraca.

- ... sabe, até para carregar ela no colo em público ela tinha problema. Uma vez deu ataque só por causa disso e ficou muda. Sendo que ela disse que tava cansada.

- Sabe o que eu acho, ... Eu acho que você ainda ama ela, e vai amar por um bom tempo!

- Não, não, acabou, eu não quero mais nada. Tudo foi um erro, e acabar tudo foi a melhor decisão que eu podia ter tomado.

- Eu acho que daqui a pouco você vai se arrepender de tudo isso, tá na cara.

- Não, eu to seguindo a minha vida! Tô bem!

- Sabe – começa Elisângela -, se lembra daquele garoto que eu tinha ficado antes daquele tempo em que você vinha atrás de mim, o Roberto. Então, eu mal escutava tudo que você me falava porque mesmo eu tentando ignorar, ele era tudo na minha mente. Quando via ele na rua o tempo parava. E tinha sido eu quem me afastara dele, porque achava que ele não queria o mesmo que eu. Passou um ano, quase dois, e nada mudou, ele não saia da minha mente, e acho que eu também não da dele. Teve até um outro garoto aqui da faculdade mesmo nesse meio tempo que gostava muito de mim, e eu achei que ele seria bom para mim, mas não deu porque não era nele em quem eu pensava. Ai, aconteceu, a gente voltou a ficar, eu e o Roberto, e dessa vez durou até mais tempo que dá primeira vez, mas acabou do mesmo jeito. Não era para dar certo. Mesmo assim, ele sempre de vez enquanto volta aos meus pensamentos. Tem certas pessoas que sempre vão estar com você.

- Não, eu discordo, é tudo uma questão de costume, de achar alguém certo que te faça esquecer do passado, que te faça criar novos momentos na sua vida. O que você tem é que até agora ninguém apareceu que te desperte isso. Sim, eu penso nela, mas é porque tá recente, logo isso tudo some. 

- É..., bem que eu queria que fosse assim. Mas acho que vou acabar como uma velha numa casa cheia de gatos.

A garota a qual abandonara na festa reaparece.

- Você sumiu hem... Então, estou indo embora agora, depois a gente se fala pelos corredores!

E eu me pergunto por quê. Por que alguém se interessaria a continuar aquela troca sem sentido. Ela vai, e eu logo vou também quando a festa já está acabando e minhas amigas decidem ir.

Tudo se mantêm seguindo, começam as aulas na Uff. Depois de um ano juntos, é agora ir para lá sem segurar a sua mão, sem entrelaçarmos os nossos dedos. Quem sabe possa conhecer nas aulas alguma garota interessante que ainda goste do que está fazendo. Mas ainda a vejo, temos uma única aula juntos, terça-feira. Na primeira aula, sento ao seu lado e no final a acompanho até um shopping onde vai almoçar. A vejo subir pela escada rolante indo embora, sozinha, sem mim, me sinto estranho. Está tudo errado, mas esse é o certo, esse é o melhor. O estranho é natural, vai passar. Na segunda, conversamos normalmente no intervalo, depois ela fica para fazer um trabalho por lá mesmo. Na terceira, ela fala normalmente, me cumprimenta, e depois se afasta para conversar com outra pessoa, como se eu fosse só mais um entre todos. Um que ela cumprimenta e depois deixa. 

É isso, se adaptou, em vez de lutar por mim, ela desistiu, a vida seguiu e ela começou a se afastar. Começo a me sentir mal, está acabado, tudo está acabado. Tudo que tivemos juntos não vale de nada para ela. Todas às vezes que tivemos problemas, eu fiz de tudo para que ficássemos bem, muitas vezes ignorando o que eu estava sentindo e o que eu achava certo. Eu sabia que ela era naturalmente negativa, sempre vendo a pior alternativa, isso era ela, era isso que via transbordar em cima de si de seus pais na sua casa, logo era melhor eu sempre estar bem, para que ela também estivesse bem com tudo, se não as coisas só poderiam piorar. Eu lutei e lutei e lutei para ficarmos juntos, e agora no meu primeiro momento de hesitação, no meu primeiro momento de dúvida, ela não pode mover um dedo para ficar comigo, não pode me dizer uma única palavra boa, só me criticar e desistir. Já não chorava há duas semanas, soltei algumas lágrimas no ônibus para casa, mas me controlei. É engraçado que o dia que se está caminhando para o buraco, culmina com o dia em que o ônibus pega o maior trânsito, o motorista decide fazer turismo quando a pista está livre, indo lentamente, e há alguma dupla de matracas de voz rançosa atrás de você discutindo como a tv lhes explicou que a vida é miserável, há perigo por todo lado, a economia vai mal, o clima está se deteriorando e eles não podem fazer nada, além de repetir a mesma reclamação um para o outro 8 vezes durante a viagem. É engraçado, mas me agüento, durante todas às 2 horas, me agüento também quando chego em casa, quando sigo pelo corredor até meu quarto, quando abro a porta do quarto, quando acendo a luz pressionando meu dedo sobre o interruptor, quando fecho a porta girando sua maçaneta. Não agüento mais. Meu corpo dói, tudo dói, não posso me controlar, quebro. Tic-tac, tic-tac, boom!

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http://www.danielmatos.com.br/2014/05/lancamento-do-livro-meu-ano-sem-ela.html

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