Postagem em destaque

Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro: O traficante de Zô - Parte I

Bem-vindo a série de Contos de Fada Eróticos no Rio de Janeiro. Começando com uma adaptação do Mágico de Oz. Obs.: Aviso para quem for fre...

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Uma Noite Americana de François Truffaut

ou
Uma Guerra Americana

A Noite Americana é um filme do diretor François Truffaut sobre o processo de criação de um filme. Mais especificadamente, a criação de um filme comercial; um filme hollywoodiano, mesmo não oficialmente o sendo; um típico drama barato de alto orçamento com estrelas internacionais.
O filme busca apresentar os vários problemas que ocorrem durante uma filmagem, especialmente o maior de todos, o constante melodrama das estrelas, que se mostram pessoalmente cem vezes piores que os próprios personagens dramáticos ao qual interpretam.

O nome “noite americana” é uma designação técnica para a filmagem de uma noite falsa durante o dia. Uma designação que em si sintetiza o filme, este que busca mostrar toda a falsidade do chamado glamour da produção do cinema. Já que, o que é sempre realmente visto, é o produto final, uma iluminada noite de estréia, com as estrelas a desfilar, a mídia a fotografar e os fãs a pular. Todo glamour é uma noite criada de dia. E o filme tenta em si mostrar essa criação, com o seu processo de declínio do puramente técnico, o idealizado, com seu caos controlado, para o puramente dramático, o real, com seus caos completamente liberto. No filme, tudo começa com a ordem e caminha para o caos. Caos que são mais as estrelas que o próprio filme, que são mais o caráter comercial que a própria arte.


Os créditos inicias apresentam um teste de som, com suas vibrações a dançar no canto da tela. Caos organizado. Seguindo para uma gravação de cena de rua, com a constante reorganização dos movimentos dos figurantes em relação à câmera e ao ator principal. Caos organizado. Porém, eventualmente, tudo cai em declínio. Atriz não consegue se concentrar, se sente velha, chora, esquece as falas. Caos. Atriz desiste e precisa ser trocada por outra. Caos. Atriz está grávida. Caos. Ator se desespera por fuga da amante. Caos. Gato se recusa a seguir as coordenadas do diretor. Caos. Ator morre. Caos. Atriz casada tem caso com outro ator, que tem a idade mental de uma criança e se apaixona por ela, acabando por ligar para seu marido, criando uma crise. Caos. Por fim, o filme acaba e aparecem os créditos finais no melhor estilo clássico, com a foto dos atores em seus personagens. O técnico do inicio não existe mais, é plenamente abandonado na luta contra o caos, só resta o dramático. Porém, um dramático controlado, pois caos por caos não dá filme. O caos molda o filme, mas é eventualmente controlado. A história muda, o produto final é completamente diferente do plano original, mas pelo menos não é um nada, não é um abandono, não é uma desistência, é alguma coisa. E, no caso do filme comercial, é alguma coisa que funciona, que pode ser exibida, que pode encher os cinemas, que vende, é uma noite americana.


Mas quem controla o caos? A fórmula empresarial de produção controla o caos, pois este já é muito bem conhecido por ela, que preparou todo um exército para enfrentá-lo. Aqueles que seguem a fórmula têm mais chances de ganhar a guerra. Porém, na batalha, podem ser mutilados, perdendo parte de sua originalidade. Quem segue a fórmula? O diretor e a equipe técnica. O general e seu exército. Mas não só estes, seu maior seguidor é realmente o próprio ator. O ator clássico, o ator dos dramas, o que provavelmente interpretou a vida inteira o mesmo papel. Dele não se origina o caos como nos outros e só em sua morte, na sua não existência, este se apresenta. Pois, como o próprio diretor diz, com sua morte, morre o próprio cinema clássico. Já que mais que tudo, quem carrega este cinema, dramático, feito de estrelas, hollywoodiano, é o próprio ator, este ator que habita sua história e o qual a própria presença da vida a uma prole de outros atores, que buscando o glamour e não acostumados a realidade ou a fórmula, criam o caos.

Os políticos dão início a guerra, mas quem mais nela sofrem são o general e seu exército. Os políticos são os que menos esforço fazem, são os que se apresentam para o público como os atores, os deuses, que tudo lideram, que tudo são, mesmo sendo na verdade aqueles que se escondem nas sombras atrás da imagem, sendo os acionistas de empresa que puxando as cordas gritam o primeiro “ação”. “Ação” que é seguida pelo general, que tem de coordenar tudo, cada detalhe da batalha, sua posição de câmera, sua luz, sua música, a atuação do gato, sua edição final. O exército, por fim, têm que garantir que todas as suas ordens sejam postas em prática, que todo o planejado esteja pronto para a execução, que todo o feito saia exatamente como esperado, que todo o necessário a ser refeito, seja refeito, que outros gatos sejam encontrados no caso da recusa de um a atuar. O general está preso, como já dito, a fórmula, porém também está sempre a buscar algum tipo de originalidade, alguma forma de inscrever seu nome a película, se frustrando incrivelmente com o constante insucesso.

No filme o personagem do diretor é o exemplo máximo disso, faz um filme medíocre, mas sonha em roubar o sucesso de Cidadão Kane. É obcecado quase que sexualmente com o trabalho de diretores passados. Como Truffaut, o diretor que faz o papel do próprio diretor, mostra explicitamente na cena quando ao receber uma pilha de livros sobre outros diretores, se põe a escutar parte da trilha sonora que fará parte de seu filme. Nesse momento, a câmera paira sutilmente sobre os livros, sobre os nomes dos diretores em destacadas letras, sendo acompanhada por uma música quase erótica. O que acaba por apontar para outra questão referente ao diretor. Sua frustração, seu desespero pelo alcance da originalidade, o isola e o faz um excluído em consideração a todo o resto que participa do filme. Já que enquanto toda a equipe técnica e atores se envolvem em ávidas relações sexuais, o diretor, na sua auto-exclusão, dorme sozinho, abraçado com um travesseiro a sonhar com o roubo do sucesso de Cidadão Kane. Ele, na sua função de general, a tudo comanda, mas a nada é dono. Aquele não é seu filme, aquela não é sua criação absoluta, ele não é deus, é só peão. Um peão que sonha dormir com Welles, Lang, Hitchcock, Buñuel, …

No filme comercial, hollywoodiano, o diretor é o peão criador, os atores, as forças sustentadoras, mães da ordem e do caos, e a equipe técnica, entusiastas que adoram o cinema e querem dele, de qualquer forma, fazer parte.

No fim, o diretor anuncia uma futura salvação, o abandono do comercial, a vinda do diretor de câmara na mão, filmando na rua o que quer, se mantendo original, sem nunca angariar traumas de guerra. Anuncia Godard e a si próprio como os messias. Porém, não é isso que o filme é, não é um dos da salvação. Truffaut, em si, faz um filme que fala do processo de criação estilo anos 1950, ao mesmo tempo que declara sua queda e a vinda do estilo anos 1960, porém estando nos anos 1970, a fazer um híbrido entre os dois, sendo comercial, mas mantendo sua originalidade, moldando a fórmula a seu gosto. A paz não é alcançada, mas uma trégua é assinada.

Comente com o Facebook:

Nenhum comentário: