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sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Japón de Carlos Reygadas e o Cinema Mexicano

ou Japão Mexicano

Tarkovsky pela lenta evolução das imagens mostra em seus filmes o homem progredindo pelos mistérios de sua própria mente. Carlos Reygadas, por sua vez, usa a mesma técnica de construção de imagem para fazer o exato oposto, mostrar a regressão do homem em sua própria mente até o absoluto nada.
Tanto em Japón, como em Batalha no Céu, seu filme subseqüente, Reygadas busca mostrar ao meio da beleza do mundo, o vazio do homem, o vazio da vida, demonstrando o quanto são baratas as ligações humanas.

Em Japón, temos um homem, sem passado, sem direção, sem nome, em busca de um lugar para morrer, um lugar perfeito para morrer: sua própria mente. Ele vem já aleijado, se apoiando numa bengala, embarcando numa viagem ao mais primitivo da mente humana. Pede carona e o levam até o início do caminho, um lugar onde os últimos porcos já estão sendo esquartejados. O caminho é fácil, é só descer, sempre seguir em frente, descendo para alcançá-lo. Ele o faz. Chega ao povoado. Chega a uma mente coletiva, passiva, que persiste no meio da paisagem, da grandeza do mundo. Aceitam-no, pois não há como negá-lo, pois são parte do que é. Porém, o único lugar em que pode habitar entre eles, é numa subida, numa subida para a ascensão. Na subida, ele conhece a Ascensão, como todos mais uma partícula passiva da coletividade da mente primitiva.
Na calmaria de sua mente primitiva, o homem sem nome começa a se despir de sua humanidade. Pinta, mas as imagens acabam borradas. Deixa assim a tinta ser tomada por um rio de crianças, deixa a imagem em si seguir por esse rio. O que antes ele carregava com um objetivo, lá não é mais necessário. Não há nada a pintar, só o mundo a observar. Porém, seu mundo ainda se divide entre o vento a bater, e a música clássica a transbordar em seus ouvidos. Ele se isola cada vez mais, perdido em fantasias, até chegar o momento certo de sua morte. E, assim, ele sobe a montanha para morrer, chega ao precipício e morre. Morre como um cavalo estripado, estirado no chão, banhado pela chuva, a luz da ascensão lhe tomando.

Um cadáver, o homem caminha de volta para o povoado, agora só uma criatura de instinto que paira pela paisagem. Antes não tinha direção perdido em sua lógica de fuga da civilização, agora tem a direção de um homem que só tem sua lógica como um fantasma a movê-lo, sobre a base dominante de seu instinto, a partir do impulso de um vazio faminto por direção. Seu primeiro impulso é copular com a atendente do bar. O cavalo estripado se torna o cavalo de pênis ereto em busca de algo que fique parado o tempo suficiente para ele ejacular, ao redor de dois segundos.

O homem prossegue na sua busca por uma copula, e como resposta encontra a velha que o hospeda. Ela como parte passiva da mente coletiva, aceita. Enquanto isso a mente coletiva é contaminada por uma força ativa exterior, uma força fraca e confusa, porém feita forte naquele meio. Um força que busca arrancar as pedras que sustentam a tumba que o homem escolheu para seu final. Ele toma como objetivo defender sua tumba. Porém nada consegue perante a passividade da mente coletiva em que escolheu se enterrar. A copula ocorre, movida pelo seu extinto, coordenada por sua lógica morta. O homem chora por sua falta de direção, não importa o quê. Seu túmulo começa a ser demolido. Nada pode fazer.

Sem tumba, sem impulso, sem instinto, o homem toma a sua posição no topo da montanha, como a nova ascensão entre a mente coletiva. A anterior abandonou sua posição para seguir com os restos de sua tumba. Tudo que sobra são cadáveres ao redor de um caminho, um caminho a ser seguido por alguém.
Reygadas consegue mostrar o vazio da vida com seu filme, porém o faz de uma forma muito ineficaz, assumindo a mesma posição de Tarkovsky, de arte pela arte e nada mais. Faz, assim, um filme desmotivante, que só interessa àqueles que tenham o desejo aleatório de se masturbar sobre a sua criação. Consumir um filme tão sem objetivo como aquilo que busca representar. As imagens não apresentam nenhuma motivação a investigar sua mensagem, senão movidas por um fetiche particular do expectador. Algo que o diretor depois consegue em Batalha no Céu, através de uma maior constância de imagens fortes que conseguem abordar muito melhor o vazio das ligações humanas.

 Carlos Reygadas

Reygadas é um nativo da Cidade do México nascido em 1971. Sem interesse inicialmente no cinema, formou-se em direito no México, se especializou em Conflitos Armados em Londres, e acabou trabalhando nas Nações Unidas. Seu interesse pelo cinema surgiu após descobrir o trabalho de Andrei Tarkovsky em 1987. E trabalhando para o serviço estrangeiro do México na Bélgica, lançou seu primeiro curta numa competição de Bruxelas, o Maxhumain, em 1997. Logo depois em 1999, começou a desenvolver seu primeiro longa, Japón, que só viria a filmar em 2001. O filme foi lançado no festival de Rotterdam em 2002, e logo veio a receber o prêmio de Câmera de Ouro no festival de Cannes, e depois o prêmio Coral no festival de Havana. Em 2005, lançou seu segundo longa, Batalha no Céu. Seu último em 2007 é Stellet Licht.

México

O cinema mexicano começa com a documentação da revolução mexicana no início do século XX. Depois disso a produção estagnou devido ao ambiente político instável, e só voltou a ser retomada a partir da década de 1930. Como Reygadas, os cineastas desse período também foram influenciados por um cineasta russo, nesse caso Serguei Eisenstein. Durante os anos 40, a indústria do cinema mexicano ganhou força, dominando toda a América Latina, sem ter problemas de competição com Hollywood que se encontrava focada em filmes de guerra e propagandistas. Os filmes dessa década eram dramas e comédias que lidavam com aspectos da sociedade mexicana, que formaram um grande contingente de estrelas mexicanas, avidamente reconhecidas pelo público, além de possibilitar a produção de filmes de estrangeiros como Luis Buñuel. O maior sucesso do período foi Maria Candelária do diretor Emilio Fernández. Nos anos 50, Hollywood começou a sua invasão e a produção mexicana foi seriamente prejudicada. Tanto que entre as décadas de 1960 a 1980, a produção foi limitada a filmes trashs com lutadores como Santo e a comédias eróticas. Porém mesmo nesse meio ainda foram produzidos filme de destaque como México insurgente de Paul Leduc, A paixão segundo Berenice de Jaime Hermosillo, e A montanha sagrada de Alejandro Jodorowsky.

Só nos anos 90, o cinema mexicano retomou o seu rumo, com filmes de alta qualidade de diretores como Arturo Ripstein, Guillermo del Toro, Alfonso Arau, Alfonso Cuarón e María Novaro, com os sucessos Como Água para Chocolate de 1992, Cronos de 1993, Sexo, Pudor e Lágrimas, e Santitos, ambos de 1999. O século XXI trouxe novos sucessos como Amores perros de Alejandro González Iñárritu, Y tu mamá también de Alfonso Cuarón e Tijuana Makes Me Happy de Dylan Verrechia. Neste meio que entra a produção de Carlos Reygadas, uma produção independente, com pouco apelo comercial, e de inspiração muito mais européia que mexicana, apesar de usar a sociedade mexicana como pano de fundo.

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Um comentário:

Anônimo disse...

celso marconi Says:
maio 28th, 2010 at 21:06

depois de conhecer dois filmes de carlos reygadas, japón e batalla en la cielo, cheguei a conclusão de que o cinema mexicano está na frente na américa latina, pois o brasil que fez um cinema denso e forte dramaticamente na década de 50/60, hoje faz um cinema na sua maioria superficial, urbano sem entender o urbano, e a argentina também cái num certo esteticismo, além de reygadas, também gosto do cinema de iñarritu, e vou procurar conhecer mais filmes produzidos pelos mexicanos, dos anos 90 para cá…