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segunda-feira, março 19, 2012

Encontros e Desencontros de Sofia Copolla

ou Bob e Charlotte: Momentos na Cidade de Neon


I feel love, I know
And you
City girl, you’re beautiful
I love you, I do, I do, I do
Free to go, I know
And you, you
City girl, you’re beautiful
I love you, I do, I do, I do

“Kevin Shields”

Encontros e Desencontros (Lost in Translation) é um filme de Sofia Copolla sobre o encontro de dois estranhos na cidade de Tokyo, um encontro de duas pessoas desencontradas em suas vidas, um que em poucas noites as fará se reencontrar mais uma vez, se reencontrar em momentos banhados de neon na presença uma da outra.
A história é sobre Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johanson). Ele, um ator de longa data, com um casamento se desfazendo no desinteresse e no mecanicismo do cotidiano, e uma carreira que ele não sabe como deixou se descarrilhar para algo que pouco lhe importa além do dinheiro. Basicamente, a experiência que teve o que queria, mas de alguma forma não soube manter. Talvez porque não era para se manter, talvez porque demandasse algum esforço inesperado, talvez porque fora fruto de algo puramente momentâneo. Talvez momentâneo como nos momentos que o filme irá também proporcionar. Ela, por sua vez, é uma jovem ainda sem muita direção na vida, sem saber que rumo tomar, e já se desiludindo com as repentinas mudanças de seu marido. Logo um perdeu seu rumo e a outra ainda o procura.

O filme começa com Bob chegando a Tokyo, observando as cores da cidade, num misto de deslumbramento e mistério. Ele não está na cidade à turismo, só está lá para gravar um comercial de wisky e tirar algumas fotos. Sua vida agora se resume a isso, a fazer trabalhos sem nenhum prazer, e a cumprir o seu papel de marido, escolhendo a cor do tapete da casa que sua mulher está arrumando. Tokyo é bela, mas também é lhe completamente estranha, é o lugar onde ele pode se encontrar completamente sozinho com seus próprios pensamentos no meio de uma multidão com quem nem se comunicar direito é possível. Charlotte já está na cidade, no mesmo hotel, e mesmo acompanhada do marido, está também completamente sozinha. Nesse lugar, ele está se revelando indiferente a ela, já tratando a relação de forma mecânica, e também se entregando a um mundo absolutamente superficial. Um mundo superficial que ela não consegue levar nem um pouco a sério, enquanto ele lhe dá toda. Nem os amigos que ele trás para conversas com os dois parecem falar a mesma língua  que ela. Eles se entregam as conversas mais bizarras e vazias. Deixada sozinha, ela caminha pela cidade, se sentindo perdida e alienada, logo, também como Bob, sendo forçada a confrontar a si própria e sua condição. E nesse ambiente, eles se encontram, e sem muito esforço, já que o isolamento de cada um o faz evidente ao outro. E com esse encontro começam a construir entre si momentos de alegria e descobrimento naquela cidade de neon, encontrando conforto um com o outro, o que os seus parceiros originais, não parecem mais querer lhes proporcionar.

Os dois conversam, se conhecem, se divertem, cantam juntos, correm juntos, fazem de Tokyo o cartão postal de seu encontro um com o outro. Porém o encontro não é perfeito, diferente de Charlotte que já vê o seu casamento como perdido, já que ela pode encarar de frente sua distância do marido, Bob, teve muito mais tempo na sua, ele tem filhos, sua relação com a mulher, mesmo não fazendo mais sentido, ainda tem muito mais peso que a de Charlotte. Aceitar que ele a ama é colocar em risco anos de sua vida. Tanto que quando ele chega mais perto de se entregar ao seu novo sentimento, ele acaba fugindo e em vez de passar mais uma noite com Charlotte, que poderia ainda mais expandir esse sentimento, ele acaba bebendo e fazendo sexo com outra mulher. Uma cantora em muito parecida em superficialidade com o marido de Charlotte. Trair sua mulher com essa cantora não lhe é nada, já que ela não é nada, mas se fosse com Charlotte, toda a sua vida estaria mudada e isso é o que lhe dá medo. Por sua vez, Charlotte, já se entregou a esse sentimento, e se entregou livremente, mesmo tendo consciência do medo dele e da impossibilidade de uma relação além de Tokyo. Ela só quer aproveitar mais daqueles ótimos momentos que estão tendo juntos. Bob hesita até o fim, e só quando já está no carro de partida para o aeroporto, de partida para nunca mais voltar ao cartão postal que foi aqueles momentos com Charlotte, ele a vê de relance, e ai finalmente pára, vai ao seu encontro e a abraçando suspira em seu ouvido toda a verdade que estava até então contendo liberar.
Bob vai voltar para a sua família, talvez pelos filhos, talvez pelo peso que seu casamento tem em sua vida. Charlotte certamente irá deixar o marido. Talvez eles vão se reencontrar, talvez não, talvez tenham deixado isso para sorte. Mas o importante é que naqueles poucos dias em Tokyo eles se amaram e tiveram aqueles momentos importantes um na companhia do outro. Sim, momentos simples, que nunca alcançaram o que poderia ter sido, mas momentos que valeram por si, e os marcarão para o resto de suas vidas.

Sofia Copolla consegue construir em seu filme com sua escolha de locações e planos, um quadro de momentos, alguns de pura beleza, outros de questionamento, outros de comédia. Os momentos de seus dois protagonistas em Tokyo. E isso com uma sutileza que faz a história se desenvolver perfeitamente. Mais importante de tudo, ela soube acompanhar esses momentos com uma boa trilha sonora, tanto com as músicas de My Bloody Valentine, Jesus and Mary Chain, Death in Vegas, como nos sons de alguns ambientes. No filme em si pouco acontece, mas o que acontece tem muito significado e é muito bem equilibrado na narrativa. Encontros e Desencontros é um filme de momentos que por fim cria um novo momento ao ser assistido. Just like honey… Just like honey… Just like honey…

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