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sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Dois Extremo – Embrafilmes v.s. MGM


Artes e Manhas da Embrafilmes é um livro de Tunico Amâncio sobre o nascimento e morte da Embrafilmes, empresa estatal, financiadora, co-produtora e distribuidora de filmes brasileiros durante as décadas de 1970 e 1980. Filme é um livro de Lillian Ross sobre a produção do filme A Glória de um Covarde dirigido por John Huston e produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer em 1951. Ambos cumprem suas funções informativas, apesar do primeiro ser técnico demais e se negar a qualquer tipo de literariedade, e o segundo, descritivo demais do absolutamente inútil. Ambos, por fim, são exemplos da produção de filmes de seus países de origem e comparando-os pode se ter uma visão parcial de dois extremos da mesma matéria: a produção cinematográfica.


A Embrafilmes, em seu curto período de existência entre 1969 e 1990, foi tudo, menos uma constante. Criada pelo governo militar, no seu período de maior repressão, entre 1968 e 1974, começou financiando filmes de qualidade duvidosa. Porém, com a lenta reabertura do governo Geisel e sob a gestão de Roberto Farias, passou a ser uma ampla defensora do direito do autor, da sua liberdade criativa, buscando não só qualidade, mas também variedade. Possibilitando, assim, uma grande produtividade. Tudo, então, mantido e financiado pelo chamado “Milagre Econômico Brasileiro”. Na verdade, sendo, em si, um milagre criativo e um completo caos organizacional, com uma constante mudança de comportamentos em relação ao mercado, seguidos em maioria de contínuos fracassos de estrutura, com políticas que mais prejudicavam o mercado cinematográfico que qualquer outra coisa, possibilitando, como qualquer outro organismo do governo, alta corrupção, continuas fraudes e inviabilizando o desenvolvimento privado de produtoras e distribuidoras fortes. Acabando, por fim, com sua queda, a levar consigo, por certo tempo, todo o ramo para o buraco.


Falar da produção de A Glória de um Covarde, não é falar sobre John Huston, pois este pouco importa no resultado do produto final, mas é falar no grande estúdio que o produziu. A Metro-Goldwyn-Mayer é um negócio, um negócio cinematográfico, mas além de tudo um negócio, em que o importante é a acumulação de dinheiro, com uma continua expansão de seus domínios. Uma produtora e uma distribuidora que busca sempre o máximo possível de público com o máximo possível de lucro. O filme não é uma criação artística individual, mas sim, um objeto a ser consumido por multidões. E quem determina os desejos da multidão é o produtor. E quem determina os desejos do produtor é a multidão. Quem veio primeiro? É um mistério. O diretor, nessa história, é só um funcionário com um trabalho a cumprir, que no máximo, às vezes, pode dar sugestões sobre o que está fazendo, como qual filme deseja fazer. Sendo que este filme será em todo um trabalho da produção, desda elaboração do roteiro, da edição final, até da possibilidade de sucesso. Já que, como exemplo, se um filme for determinado como de baixa bilheteria, será tratado como tal e não terá a publicidade e a exibição para ser mais. Nesse esquema, que não permite muita criatividade, existe um equilíbrio fixo, pois a indústria se mantém sempre numa crescente, facilmente se adaptando as mudanças de mercado e de desenvolvimento tecnológico, já que, em parte, o próprio estúdio controla essas mudanças, controlando a multidão. Assim, só permitindo desenvolvimentos originais a partir de fatores externos, ou seja, produções fora desse sistema que por sorte chegam a multidão e a cativam, influenciando, então, o ciclo desta com o produtor do estúdio.

Analisar a indústria cinematográfica brasileira em contraste com a americana, é analisar duas histórias diferentes que se complementam e acabam em uma, é a luta entre o caos, que quer se parecer ordem, e a ordem, que quer se parecer livre. A americana, dos grandes estúdios, se formou desdo início como uma criatura em expansão, um gigantesco monstro a devorar, buscando controlar logo no início todos os seus processos: produção, distribuição e exibição. Controlando e expandindo em seu país, para depois, controlar e se expandir pelo mundo. A brasileira, por sua vez, não tinha tantas ambições, sendo assim não alcançou nem as poucas que teve. Primeiro quanto na tentativa de copiar os grandes estúdios americanos; Cinédia, Atlântida, Vera Cruz,…; um fracasso, que ficou na produção, não dominou a distribuição e faliu. Segundo, por em seguida ter passado a se sustentar por incentivos fiscais e não por um real investimento financeiro. No Brasil, o cinema, uma arte que se desenvolveu baseada em grandes custos financeiros, não se formou como negócio, mas como um fetichismo cultural mantido pelo estado, um fetichismo que mantinha, em paradoxo, uma ambição de negócio.


A Embrafilmes foi parte de um processo mais político e histórico que de desenvolvimento e experimentação estrutural na indústria cinematográfica brasileira. Criada durante o período militar, foi mais um reflexo deste que qualquer outra coisa. O golpe de 1964 foi um complemento do Império a um processo de colonização que há muito já havia começado com o próprio cinema americano, foi a colonização econômica e ideológica a completar a cultural iniciada por Hollywood. O período militar se dividiu em quatro etapas: ajuste, repressão, pão e circo, e abandono. Ou seja: adequação do poder estrangeiro ao cotidiano, eliminação de radicais, sujeição da multidão aos novos luxos e privilégios estrangeiros e, por fim, quando a colonização chegou ao estado irreversível, com a multidão vendo na condição escrava, vassala, parte normal da vida, abertura a realidade. Nisso, a Embrafilmes foi um dos produtos do pão e circo, que começou com o financiamento da pornochanchada e, passado o período da repressão, se abriu para filmes de alta qualidade. Como exemplo, a própria questão que os realizadores desse período serem em maioria de esquerda, com inclinações comunistas. Um suposto oposto ao estado, que aos militares pouco importava, já que na prática estes realizadores não planejavam uma revolução, mas sim, como esperado, comiam o pão e faziam seus filmes, fazendo o milagre. Porém, não foi a dominação estrangeira que impossibilitou o desenvolvimento de um negócio cinematográfico estável no Brasil, foi a própria desorganização de seus idealizadores que o fez. O pão e circo oferecido, estava aberto não só a ilusão, mas também a exploração pelos interessados. Mas essa possibilidade de exploração foi efetivada em massa para fins individuais que em nada desenvolveram a indústria, sendo que quando o fazia, pouco angariava apoio de todo o setor. Como exemplo, a questão de que até quando uma cooperativa se uniu para tentar controlar o setor de exibição, foi boicotada pela maioria dos produtores que preferiam se manter com os grupos já estabelecidos e colonizadores, que melhor atenderiam suas ambições financeiras e em nada libertariam a indústria.

Enfim, o filme. Esquecendo todas as neuroses da indústria cinematográfica, o que importa no final é o filme. E, assim, acabamos por ter uma gigantesca produção múltipla, atendendo a todos os gostos e com portas a todas as possibilidades. O filme comercial, americano, de Hollywood, que se estabeleceu como a matriz base da indústria, é um filme para crianças. Há os em que coisas explodem, os que fazem propriamente o dinheiro, e os em que as pessoas choram, os que ganham prêmios. Filmes infantis altamente consumidos e que mantêm financeiramente todo o sistema. Um sistema, que extremamente vivo, acaba por possibilitar os poucos filmes para adultos. E, mesmo assim, esses filmes para crianças, ditados pelos produtores dos estúdios, pintados por seus diretores provindos de todo o mundo, não são assim tão limitados, podendo ter diferentes níveis de inovação. Inovação lenta, mas presente, dependendo da quantidade de tempo que a criança se mantenha interessada pelo mesmo brinquedo. Fora desse sistema, mas ao mesmo tempo preso a este devido ao condicionamento internacional da multidão, esse filme para crianças é geralmente o a ser explorado pelos diretores de outros países, estes que fora da supervisão de um produtor infantil, tentam trazer inovações, e que, por fim, conseguem, em alguns casos, se livrar desse esquema e fazer filmes realmente originais. É tudo uma questão de somar possibilidade com quantidade, para eventualmente produzir qualidade e enfim originalidade. Assim, a Embrafilmes, no seu período de pão e circo, ofereceu essa oportunidade, permitindo um desenvolvimento variado e livre, apesar de não ter possibilitado uma indústria que sobrevivesse ao abandono, a crise econômica dos anos 1980.

Atualmente pouco mudou no sistema do cinema americano de estúdios. Os produtores ainda dominam tudo, os poucos diretores com autonomia só se mantêm assim por se auto-limitarem a temas infantis e, no geral, todas as inovações se estagnaram na década de 1970. O cinema brasileiro, por sua vez, ainda se encontra em processo de adaptação a sua inclusão no Império. A produção ainda é por incentivo fiscal, sem investimento real, e a distribuição passou diretamente para as mãos dos estúdios americanos.

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