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sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças de Michel Gondry

ou Brilho Eterno de uma Memória sem Pontas

Joel acorda. Acorda para perceber o mundo, pondo em movimento um constante ato de contemplação, que é em si esta própria contemplação do plano de sua representação do mundo ao qual habita, somada a sua ação perante a este. Acorda e começa o seu dia, percebendo as coisas ao seu redor, que são apenas, para si, para sua apreensão destas, imagens que representam as coisas em si. Imagens que são menos que estas próprias coisas, mas que são mais que as representações apreendidas por Joel. Pois ele, na sua percepção consciente, só percebe o que quer, o que está acostumado a perceber. Sua percepção se limita a uma pobreza necessária, não pode captar todos os detalhes das imagens a ele oferecida. Nota o amassado do carro, nota as folhas faltando do caderno, nota específicos, não a imagem completa, sua memória habitual não procura registrar mais que isso, sua percepção, no seu movimento de contemplação, subtrai todo o desnecessário. Assim, seguindo os movimentos de sua memória habitual, repetindo as suas tarefas diárias, se arruma e vai para o trabalho. Porém, na estação, na representação desta apreendida por ele, aflui-lhe, inesperadamente, subindo a partir do seu inconsciente, uma fatia de memória pura, fatia ascendida pela contemplação desta estação, que interagindo com sua percepção em movimento, o faz pegar outro trem, um para a praia.


Na praia, Joel conhece Clementine, a imagem dela é percebida por ele, que reconhece na representação, que se forma, detalhes de seu interesse. Interesse originado da interação entre sua memória pura, com sua memória habitual, produzindo junto a contemplação dela, uma ação, que dá vida a uma relação. Como duas imagens em movimento, Joel e Clementine começam a escrever a memória um do outro. Os dois vão para casa, ela sai para pegar sua escova de dentes, Joel fica, alguém bate na janela do carro, ele não reconhece quem é, há um certo ar de estranhamento da pessoa que bateu na janela. Corta, muda o tempo da história. 

E assim se inicia o filme, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry, sobre o esquecer do passado, o se arrepender perante sua óbvia necessidade, reconhecida tarde demais, e, por fim, o constante aprender no agora, a receber do constante afluente das memórias, dos quadros eternos. Tudo parcialmente analisado a partir das teorias sobre memória e tempo do filósofo Henri Bergson.

Assim, com a seqüência inicial do filme apresentada, o espectador tem sua primeira percepção da imagem, ele captura a representação do seguimento que lhe interessa e pistas lhe são apresentadas sobre o futuro desenvolvimento da trama, mas sem memórias a relacioná-las, ele não as reconhece. O estranho que bate a janela, como para Joel, não lhe diz nada, não há nada a interligá-lo. No máximo, uma memória pura aflui-lhe, reconhecendo o ator, como o de Senhor dos Anéis, não só mais um figurante sem importância.

Segue-se a trama de Joel e Clementine. Há um pulo, supostamente de ordem linear, para o fim da relação dos dois. Eles brigam, e Clementine num impulso passa por um procedimento médico que apaga-lhe todas as memórias de Joel. Joel decide fazer o mesmo. No período de uma noite, o procedimento procurará em sua mente as memórias de Clementine e as apagará. Como num movimento de rotação, o computador investigará na sua memória inconsciente, os fragmentos mais recentes de Clementine, e a partir deles, a partir da unidade, girará para trás buscando seu seguimento decrescente, buscando a multiplicidade de memórias ligadas a ela, para por fim apagá-las, uma por uma. Joel a perguntar ao médico se o procedimento pode lhe causar algum dano cerebral, recebe a resposta que este é exatamente isso.

Começa o procedimento, a trama passa do mundo exterior, onde impera a percepção de espaço-tempo do real, através da interação da memória pura, afluída na necessidade da ação, com a memória habitual, na contemplação do plano de representação do mundo; para o mundo interior de Joel, onde impera a percepção da sua memória pura, onde até o espaço-tempo passa a ser relativo.

A memória é em si atemporal, sempre se encontra no presente, não conhecendo história, nem passado, nem futuro. As memórias armazenadas no inconsciente, as memórias puras, só ganham realidade ao afluírem no ato do movimento de contemplação, pertencendo, assim, a este. Não percebemos nem passado, nem presente, nem futuro, só percebemos o quadro de ligações do atual que está sempre em movimento. Joel ao passar pelo procedimento que apagará algumas de suas memórias puras, descendo numa espiral decrescente, não viajara pelo tempo, se manterá sempre no atual, mantendo o seu quadro no seu constante movimento, só apagando algumas de suas ligações.

Joel começa revivendo o fim da relação, sentindo a dor que o fez aceitar passar pelo procedimento. Suas memórias são lentamente apagadas, como num museu em que as pinturas vão lentamente desaparecendo, em sua mente as representações apreendidas das coisas são lentamente excluídas. Ele corre nessa espiral de memórias decrescentes por um espaço construído não a partir de um espaço real, mais a partir das partes desse espaço que mais lhe interessaram, as marcas que na pobreza necessária foram apreendidas. Porém, depois de todo o sofrimento ter ido embora, o quadro do atual muda. Não há mais ressentimento, não há mais dor, só há seu amor por Clementine. O quadro atual que fez ele aceitar o procedimento, não mais existe, só existe o quadro atual que ama ela, e que vai se manter existindo até a última memória desse amor. Não delimitado pelo espaço-tempo cotidiano, Joel começa a fugir pelas memórias de seu passado mais distante, todas a fazer parte do seu constante atual, do seu quadro. Tentando manter seu interesse por Clementine, ele começa a sobrepô-lo com interesses passados. Ela passa a ser a garotinha de sua infância, a tia que lhe dava conselhos. Caçado pela máquina, tendo as últimas de suas memórias dela apagadas, ele tenta se prender a qualquer traço que o leve a ela. A praia, o local onde se conheceram, é o que fica. Um encontro na praia, só isso, não há mais Clementine no quadro atual de Joel.

Joel acorda. Acorda para perceber o mundo, pondo em movimento um constante ato de contemplação, porém tudo a partir de um quadro sem Clementine, num mundo cheio de referências que ele não mais reconhece. O início do filme não era o início, era o fim. Vimos-no como início, como Joel o viu, agora vemos-no como fim, tendo mais referências que ele, mais ligações com a nossa memória pura que não tínhamos antes, nosso quadro atual ganhou novas extensões. Joel segue seu último comando de memória da noite, ir a praia, e lá ele conhece Clementine, e ela conhece ele. Eles voltam a escrever suas memórias. De novo, se relacionam, não porque se lembram de seu amor passado, mas porque o que fez eles se amarem da primeira vez, não foi apagado, sendo parte deles muito antes de seu primeiro encontro. Vão para casa, ela sai para pegar sua escova de dentes, e o ator do Senhor dos Anéis bate a janela. Joel não o reconhece, mas nós sim, agora ele é o assistente do médico que fez o procedimento. Ele está lá porque querendo se relacionar com Clementine, tentou reproduzir a relação dela com Joel, a partir das anotações e objetos deixados do procedimento. Não deu certo, pois a relação dela com as ações tomadas durante a relação, não eram com as relações em si, mas com Joel, e o assistente não pode reproduzir Joel.

Outra assistente do médico que descobriu também ter tido suas memórias apagadas, manda para Joel e Clementine fitas com eles narrando suas relações. Os dois se amam, mas não sabem como reagir diante de registros pessimistas de memórias que não têm. Seu amor impera, decidem começar de novo, reconstruir seu quadro atual juntos. Pois, ao apagarem suas memórias, eles retrocederam o movimento de seus quadros atuais, apagando uma etapa, que terá agora de se repetir, por ser necessária nessa construção.

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Um comentário:

Andressa Serena disse...

Está no top 10 dos meus filmes favoritos e, com certeza, está em uma das posições de 1º a 5º lugar de favoritismo. Eu amo. Esse filme é pura poesia e reflexão.