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quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Be Kind Rewind de Michel Gondry

ou Uma ficção é uma ficção que é uma realidade

Be kind rewind não trata unicamente de uma desmistificação do fazer cinematográfico, mas também de um jogo convulso entre mistificação do espectador por si mesmo e desmistificação da realidade como matéria rebobinável.

    Ao começarem a fazer suas próprias versões dos filmes de Hollywood, Jerry e Mike acabam por trazer a interatividade aos espectadores. Estes que já participavam dos filmes a partir de suas próprias interpretações da trama, passam a não só ditarem que filmes passarão pela transformação da dupla, mas também atuam nos mesmos, possibilitando sua realização. O consumidor atinge o ápice de sua ocupação, não só decide que produto sobreviverá, mas também trabalha para mantê-lo, tomando em suas mãos pela primeira vez seu poder de consumo. Assim, o Robocop deixa de ser uma criatura mitológica das telas, com pessoas distantes em uma cidade distante, e passa a ser aquele cara gordo que você vê andando por aí umas três vezes por semana, lutando contra o crime, naquela rua onde você faz as suas compras.

    Os espectadores deixam de ser as crianças ais quais os produtores de um Olimpo distante ditam os gostos, e passam a ser esses produtores. Não só são agora produtores de suas vidas, mas também de seu entretenimento. Como um dos personagens do filme comenta, as novas versões dos filmes são muito mais divertidas. E isso não porque estas deixem de ser em si distantes, já que aquilo ainda não passa de uma ficção, mas porque se tornam uma distância pessoal, participativa. Mas o que é a realidade se não essa distância pessoal?


    Não existe tal coisa como uma realidade passada, ou uma realidade futura. A realidade deixa de existir no momento em que deixa o tempo presente. Porém, isso em nada quer dizer que a realidade do tempo presente seja tangível. Ela se encontra presente no momento, mas aqueles que a habitam só se relacionam com ela através da ficção, através de suas escolhas éticas. A realidade para o indivíduo não passa dessa ficção, dessa distância pessoal. Uma ficção quando é criada passa por uma imediata edição, escolha de cortes, escolha de montagem, escolha de protagonistas, antagonistas, coadjuvantes e figurantes, escolha de cenário, escolha de uma racionalização por trás da trama. A câmera é o sistema reticular de cada um.

    Peguemos como exemplo os relatos do senhor Fletcher sobre o compositor de jazz Fats Wallers. Durante anos ele conta para Mike a biografia aventurosa do músico naquele mesmo prédio onde fica a locadora. E tudo no fim não passa de uma ficção, o músico existiu, mas toda a experiência de Fletcher em relação a ele foi elaborada pelo próprio, foi seu filme, sua distância pessoal. Mas isso não importa, pois não existe realidade pessoal, só ficção. O filme criado por Fletcher para Mike contem toda a emoção necessária para que ambos o tomem em suas mãos como sua própria realidade. Isso, mesmo estando distante, mesmo com Fletcher sabendo que aquilo não realmente ocorreu, e Mike dependendo das palavras de Fletcher para materializá-lo. A realidade é sempre distante, só bastando a seu espectador a escolha de se colocar como ativo, ou passivo a esta. Como agora, toda a realidade compreendida ao seu redor não passa de uma ficção determinada por suas escolhas e morais. Então não importa se eu disser que estamos aqui discutindo esse filme em uma sala de aula dentro de um prédio em Niterói, ou se eu disser que estamos flutuando num zepelim sobre Londres. Ambos não passam de ficção, e é você quem escolhe a mais pessoal. Ou talvez não!


     Como os gregos diziam, uma criação poética é mais real que uma criação verossimilhante. Pois a poética permite no seu trabalho de imitação um toque direto das mãos do espectador que contempla a realidade, enquanto que a verossimilhança depende de uma visão desastrada de algo que este não tem capacidade total de ver. A realidade em si é inatingível, logo qualquer conclusão sobre esta nunca deixa de ser ficcional. Enquanto isso a ficção em si é tudo que podemos tocar, logo é toda a nossa realidade. A vida do compositor Fats Wallers não existe no presente, é só um registro numa realidade intangível, é uma ficção, enquanto que a vida de Fats Walles segundo o senhor Fletchers é uma criação tangível que se encontra no presente, é a realidade.

    Dessa maneira podemos concluir que o filme Be kind rewind é um documentário fiel a realidade, como qualquer outro filme pode ser. Do mesmo jeito que, digamos, Nanuk o Esquimó é a realidade. A realidade concreta da vida de um esquimó para quem só viu o filme, a realidade encenada para quem viu o filme e leu uma crítica, a realidade ficcional para quem só escutou minha versão da trama sobre um herói esquimó impedindo uma invasão de hipopótamos marcianos. Ou outro exemplo como o filme A Queda, baseado nos relatos da secretária de Hitler. É um re-make a partir das lembranças da ficção criada pela secretária enquanto participava do evento. Um filme montado a partir de suas escolhas morais. Imagine quantas seqüências de orgias nazistas em que ela participou ficaram no chão da sua sala de edição. Ou imagine esse mesmo evento sob os olhos de Hitler, provavelmente uma réplica idêntica do filme Fantasia de Wal Disney. Tudo uma ficção que é realidade.

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