
Minha pele radioativa vibra sem parar com a realidade, pulsa
com todas as vibrações e linhas ao redor. Tudo é puxado, tudo puxa. Corro, pulo,
me sentindo acordar como um lobisomem ao meio-dia. Selvagem, lobo da estepe, querendo
sair da cova, escalar prédios e uivar. Uivar e arrancar minha pele radioativa. Estou
no centro da cidade, atravessando ruas nos momentos que outros hesitam passar
entre os carros em velocidade, deslizando por figuras desengonçadas. Figuras
embaçadas, gordas, mal vestidas, com horários a cumprir, certas dos passos que
tem de dar, muito mais certas do que eu, mas diferente de eu, sem nenhuma escolha
consciente sobre esses passos, só baixando a cabeça e obedecendo. Vejo tudo,
tudo me vê. Decisões se reviram como baratas no cérebro, metade aceitando,
comemorando, certas direções tomadas, certas palavras faladas, escritas, certos
sussurros regurgitados, metade querendo tacar fogo em tudo, dizer que estava
errado, que não devia ser assim, metade querendo pular um precipício, ou dormir
até o próximo inverno numa caverna abraçado de uma pedra, e algumas se perguntando
se já não foram metades demais mencionadas. Há possibilidade para todos os
cantos, é só saber que linhas puxar, que fios de teias. Teias e mais teias, há
milhares de pessoas ao redor sendo puxadas por teias e ninguém além de mim as
vendo tão claramente. Vendo, mas nada fazendo, as baratas não sabem o que
querem, só tocar violino e fumar charuto. Por isso que se taca fogo, para não
ter mais escolha. Para ser lobo e só lobo, mas o que é lobo? Sempre foi lobo, a
enfiar as garras nas fachadas de prédios, escalar e uivar. Para não ser mais o
velho no quarto a esperar o convite do teatro mágico. “Só para os raros.” Só
para os radioativos, só para os apaixonados, só para os loucos, malucos, que de
tanto, são os mais conscientes e acordados na face da terra, só para aqueles
que amam e gostam de gritar.